QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 2


Na modorrenta tarde de domingo Posadas fazia jus à “siesta” costumeira: ainda que os carros passassem sem cessar junto às mesas externas do café (no centro, não há meio-fio nem asfalto, o calçamento é todo de lajotas e a calçada é dividida do leito da rua por palanques metálicos de meio metro de altura, dispostos a cada vinte centímetros), que se achavam lotadas, o clima dos castelhanos “misioneros” era de um tédio sepulcral. Até mesmo a mais gostosa e jovem loirinha, que se sentava com suas amigas junto à porta, na esquina, à nossa esquerda, tinha aquele típico ar de aborrecimento…

Contaminados pelo humor local (que não sei se deriva do calor abafado da mesopotâmia argentina ou da cerveja servida em baldes de plástico e refrescada por água fria, na qual bóiam cubos de gelo – o que a faz esquentar logo), eu e o alemão Valdir não nos sentíamos também muito inspirados para conversar. As frases eram esparsas, preguiçosas e pulavam de assunto, sem manter continuidade. Mas isto não nos impediu de tomar umas boas quatro Quilmes Imperial de litro.

Por natural inclinação de tarado, e para espairecer o tédio, eu corria o olhar pela rua, procurando um belo par de coxas e seios onde pudesse espanar a poeira do olhar, quando me fixei em uma loira de seus vinte e tantos anos, que em nada se parecia com a maior parte da população local, em que predomina a pele cor de cobre dos guaranis missioneiros. Durante mais de uma hora a contemplei, toda vestida de preto, com uma pele branquíssima e um rosto digno de uma senhora inglesa ou sueca de alguma pintura clássica do final do século XIX. A fascinante figura chamava atenção, além de sua estampa, pelo fato de se encontrar lendo, tendo sobre a mesa uma xícara (chá, como caberia a tal européia imagem, ou um simples café?), e por não erguer os olhos, sequer por um instante, para observar a paisagem circunstante.

Parecia uma estátua ou uma deusa caída na terra, sublime e indiferente ao movimento que a cercava (ainda que não houvesse muito burburinho: não se ouviam gargalhadas estrondosas, nem o falar aos gritos de um típico bar da cidade baixa, em Porto Alegre). E, após um bom tempo, pagou a conta e foi-se embora, sem que em momento algum eu a tivesse visto beber da xícara. Mas o mais estranho (que acabei por notar, apesar da minha distração de DDA) é que, em todo tempo em que esteve sentada na calçada, jamais virou a página do livro!

Mais tarde, no hotel, antes de ir jantar no bar do pançudo, eu e Valdir discutimos a respeito e concluímos: aquela não era uma gata argentina comum, metida a sofisticada. Só podia ser uma espiã da CIA (o que não seria novidade na Tríplice Fronteira, que, segundo os paranóicos yankees, é palco de conspirações palestinas)! Mas se este era o caso, se deu mal! Primeiro que nada teria a descobrir de dois solteirões malucos, metidos a anarquistas, que mal conseguem dirigir a própria vida, que dirá “subversivos” movimentos anti-americanos. Segundo que o disfarce da leitura pecava no essencial: não trocar de página por mais de meia hora denuncia qualquer curioso sentado à mesa de bar! Não posso afirmar que a moça era realmente uma espiã (seria muita paranóia), mas, em todo caso, a CIA devia treinar melhor suas agentes.

 

Ubirajara Passos

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