QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 1


Domingo de carnaval, 11 horas da manhã. Eu, meu velho amigo Valdir Bergmann, o seu sobrinho Rogério Seibt (o que morou na “república” de Petrópolis, em Porto Alegre) e sua namorada Eliane, nos preparávamos para atravessar o Rio Uruguai, na barca que vai de Porto Mauá a Alba Posse (do lado argentino). Preocupado com as exigências alfandegárias na volta da viagem, o alemão Valdir resolveu consultar o agente brasileiro sobre a quantidade e natureza de muamba que podia trazer do Paraguai e da Argentina. O sujeito magro e cumprido, de cabelo curto, já com algumas entradas, e com um inconfundível ar de velho boêmio dos anos cinqüenta (não fosse o cantor Nélson Gonçalves já morto e o cara poderia ser confundido com ele), responde, acocorado junto à porta da aduana, com o ar mais despreocupado possível: aqui passa tudo, farinha, uísque, o que o senhor quiser, até carne… sem problemas, mas só aqui em Porto Mauá!

Na entrada na Argentina, a coisa já não era tão descontraída. Os agentes da polícia federal platina (lá a aduana é responsabilidade deles e não do tesouro nacional) fazem a pose mais pomposa no momento em que, com nossas identidades em punho, nos perguntam aonde vamos e quando voltaremos, para nos dar a autorização para circular no país (viva o Mercosul que controla o trânsito dos filhos da confederação em cada fronteira!). E, enquanto aguardamos com ar de cachorro “pidão”, se divertem cochichando e rindo no sotaque castelhano mais ininteligível, que eu e Valdir, que falamos espanhol (o alemão chegou a fazer curso), simplesmente não conseguimos decifrar.

Liberados pelas otoridades “hermanas”, seguimos estrada a fora, a passar sobre “lomos de burro” (literalmente “lombos de burro”, nome com que estão grafadas as “lomadas” – lombadas – na província de Misiones, desde Alba Posse até Oberá, daí por diante elas tem o nome normal) envoltos em ambas as margens da rodovia pela “selva” missioneira (que na verdade, mal passa de uma matinha, semelhante a estas que se vê nas áreas mais remotas de Rolante, Rolantinho da Figueira, Cará ou Santo Antônio da Patrulha, no nordeste do Rio Grande do Sul).

A esta altura, Rogério tira sarro da namorada Eliane, que se acha emocionada. É a primeira vez que bota o pé fora do Brasil e, apesar de Santa Rosa estar a apenas 30 km da fronteira, nunca visitara a Argentina Faço coro à gozação, para disfarçar, mas a verdade é que visito Oberá pela segunda vez, recém estive em “Paso de los Libres”, na semana anterior, e é a primeira vez que me adentro até a capital da província e ao Paraguai.

Lá pela uma hora da tarde, chegamos a Oberá e vamos direto para o restaurante Moscow, onde eu e Valdir enchemos a cara quase todo o tempo, na primeira vez em que lá estivemos, um ano atrás. O objetivo é óbvio: inaugurar a beberagem em plena calçada, frente à praça principal da provinciana Oberá (cidade de cerca de 60.000 habitantes, como Santa Rosa, e, como esta, com uma população extremamente multi-étnica).

Veio nos servir o mesmo garçom que em 2006 se divertiu às pampas com os dois brasileiros doidos, nos ensinando palavrões em espanhol, depois que lhe perguntamos, num castelhano sofrível (de quem conhece, mas não pratica o idioma) como se costumava mandar tomar no cu por lá. E o safado nos respondia no português mais claro: el señor puede hablar “dar a bunda”, “vai dar a bunda”, la gente entende”. E depois, entusiasmado, nos disse palavrões tipicamente castelhanos, ao ponto de, após servir alguns fregueses no interior do restaurante (bebíamos, obviamente, na calçada), voltar rsisonho e nos conta de mais alguns que se lembrara no caminho.

Almoçamos no cassino ao lado, onde o único evento digno de nota (e da censura contida da Eliane, que devia estar doida pra rir na nossa cara) foi o fato de eu e Valdir, já meio-bêbados, e após um ter criticado o outro pelo fato, errarmos a porta e entrarmos no banheiro das mulheres. Ocorre que o banheiro masculino fica no fundo de um corredor, apesar da indicação no seu início, o que nos induz a erro, pois o feminino tem acesso diretamente na porta. Quando dei com aquela fileira de portas fechadas e nenhum mictório na parede, percebi a besteira que havia feito. Mas aí, azar. Me enfiei na primeira “casinha” e apenas esperei que uma castelhana velha, que se achava na privada ao lado, saísse para lavar as mãos e disparei em direção à saída, não sem deixar a argentina com os olhos esbugalhados.

Duas horas depois chegávamos à capital de Misiones, Posadas, à margem do Rio Paraná, junto à fronteira com a paraguaia Encarnación. Após levar um susto, pois não localizamos logo o centro e a cidade de cerca de 400.000 habitantes (bem grandinha para uma capital da região, com população equivalente a Caxias do Sul, uma das maiores cidades do interior do Rio Grande do Sul) nos parecia mais provinciana que Oberá, encontramos a praça principal, onde nos hospedamos num hotelzinho que fica no alto de uma galeria comercial (há pelo menos dois na cidade com esta característica: o City Hotel, onde nos hospedamos, e o Continental, ambos na rua principal do centro histórico).

Brasileiros e gaúchos desavisados que somos, após descarregar as malas e dar uma descansada (o que equivale a tomar mais umas cervejas no quarto do hotel), resolvemos ir encher a cara na praia do Rio Paraná( a “costanera”). Lá encontramos apenas um buteco aberto, com um setenta clientes e um único garçom, que, não nos servindo em vinte minutos de espera, mandamos à merda e fomos procurar outro bar.

Deslumbrados com um barzinho próximo, onde não havia ninguém, fomos logo nos abancando, até sermos informados que se encontrava “cerrado”. Procura de lá e de cá, chegamos a um simpático restaurante envidraçado, cujo proprietário, um gordo argentino de vastos bigodes, com um ar de português (devia ser descendente de galegos), se encontrava sentado em uma cadeira à frente da porta, na calçada, de sapatos e calça social, mas espunha uma indecente e enorme pança nua, que acariciava com o ar mais solene e modorrento possível. Ali era impossível, apesar de não vermos clientes à vista, que não pudéssemos saciar a nossa sede de entornar cerveja às margens do grande rio, contemplando o Paraguai, do outro lado.

Mas eis que o sujeito, com o ar mais sério e lacônico (que contraditava aquela “indecorosa” barriga) nos avisa: “está cerrado, solo abre a las seis y media”. E nos informa, a seguir, o que, para marinheiros de segunda viagem (ao menos eu e Valdir), já deveríamos nos ter lembrado: além de ser domingo, vige na Argentina o tradicional hábito ibérico da “siesta” (coisa que entre nós, brasileiros colonizados e metidos a modernos, ilustres adoradores do capitalismo mundial, se extinguiu há muito tempo, mas era tradição lusitana, mantida até o princípio do século XX).

O resultado foi ir beber no principal e mais chique restaurante do centro, na calçada do pleno coração histórico de Posadas, cujo nome, no momento não me lembro, mas, se não me engano, atendia por uma ilustre expressão francesa, e era todo ele de um estilo clássico digno dos anos quarenta no Brasil.

Já noite, enxugados da cerveja “número um” da Argentina (a “Quilmes”, no caso “Quilmes Imperial” de litro, o equivalente bem melhorado de uma “Brahma Extra”), voltamos ao buteco do pançudo para jantar. E que surpresa: o principal prato era “panceta” (carne da barriga do porco)! Vai lá que o dono do estabelecimento não lagarteava à sua porta, em horas de descanso, de barriga de fora por acaso. Isto devia ser propaganda subliminar: estão vendo a minha “pança”? Aqui se serve “panceta”!

Amanhã conto o final da noite e o segundo dia em terras tropicais do antigo Vice-Reino do Rio da Prata, no coração da América do Sul. Gracias, y hasta la vista.

 

Ubirajara Passos

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Um comentário em “QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA – 1

  1. loco085 disse:

    “estão vendo a minha “pança”? Aqui se serve “panceta””… heaheaheheheaehaa…. gostaram de Misiones?

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