CARTÃO DE FIDELIDADE SEXUAL


     Com o arrocho salarial e o desemprego devastador resultantes da política econômica do Inácio, o expediente dos estabelecimentos comerciais de fornecer aos clientes aquele cartãozinho que permite, a cada dez visitas nele marcadas, o consumo de um produto de graça na décima primeira (ou qualquer outro sistema de “fidelização” equivalente) já não se restringe a locadoras de filmes ou lancherias.

     Há alguns meses, tendo ido ao motel com a gata preferida, tive um ataque de riso que quase me mata de asfixia! Com o ar mais grave e artificial possível, a recepcionista, ao cobrar-me a conta na saída, me anunciou, com toda a pompa de um gerente de financeira falcatrua, que agora eu tinha direito ao cartão de fidelidade do motel. A cada dez fodas , eu teria direito a uma trepada totalmente gratuita nas suas suítes!

     Passado o surto de hiena, não me agüentei e lhe perguntei, com o ar mais debochado possível, se, para valer, a fidelidade do cartão deveria incluir os mesmos parceiros ou eu poderia levar lá outras gatas, e se eu ou a gata poderíamos utilizar o mesmo cartão, trepando com outros machos e fêmeas. “O senhor faça o que quiser. Desde que seja em nosso motel, está valendo a promoção, que, aliás, é muito boa: o senhor não necessita nem gostar muito de sexo. As dez visitas podem ocorrer no espaço de um ano”.  Com esta resposta, mais “peremptória” que discurso xaroposo falcatrua de petista metido a intelectual, murchei e, devidamente carimbado, coloquei humildemente o cartãozinho na carteira.

     Mas, desde então, obcecou-me um desconcertante insight. Ao invés dos velhos deveres do casamento compulsivo e das exigências da escravidão doméstica e sexual disfarçada (aquela em que a mulher se mantém como “Amélia” e gueixa e não desgruda do sujeito, em troca do que o gordo bolso lhe proporciona), uma solução, mais prática e prazerosa, para os conservadores apavorados  (e os apaixonados incorrigíveis) com a inexistência generalizada de parceiros fixos seria a instituição da fidelidade sexual premiada.

     A cada meia-dúzia de fodas em determinado período entre o mesmo casal, cada um dos protagonistas teria direito a receber do outro uma chupada com sorvete até acabar;  um sexo anal   romântico à luz de velas, com champanhe e flores; um sessenta-e-nove  com pimenta e outros tantos requintes e excentridades que dão sabor à putaria. Este simples expediente garantiria o equilíbrio emocional de meia-humanidade e botaria abaixo até o ranço fascista “globalizado”, abrindo as portas da revolução! “Viva Fidel”!

Ubirajara Passos

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