MADRUGADA PERDIDA


Em maio de 2002 eu andava numa fase violenta de transição na minha vida. A minha grande paixão amorosa frustrada havia rendido alguns episódios em que a minha situação financeira me levara à insolvência completa e, por insistência do companheiro Valdir (o da República) eu iniciava uma psicoterapia, na qual me descobriria definitivamente DDA. No primeiro dia de consulta, vindo da cidade baixa eu passaria pela extremidade sul da Marechal Floriano, no centro de Porto Alegre, sem me dar por conta e o episódio inspiraria o poema auto-biográfico de hoje.

MADRUGADA PERDIDA.

Em meio à voragem dos tormentos do hoje,
Lançado em piparotes de uma angústia à outra,
Cruzei, indiferente, a velha rua
E, cavalgando as próprias histerias,
Subi a ladeira, sem reconhecê-la.

O sol ainda não se havia posto
E aquela sucessão insossa de lojinhas
Me entediava e nada me dizia.
Só a imponência gris do Sevigné
Sussurrou-me, íntima, onde me encontrava:

A Marechal Floriano das orgias
De álcool, discursos, muita putaria,
De sonhos de potência e falhas trágicas,
Sua face diurna comum e deprimente,
Como a das próprias putas nas manhãs,
Na claridade impiedosa, eu desconhecia.

Era a morena Marechal das madrugadas,
Das bravatas e transportes de prazer,
Do reino mágico de liberdade e êxtase,
Da independência malcriada da embriaguez,
A minha cortesã amada e preferida.

Desci a ladeira e fui em busca, em pleno dia,
Do meu primeiro templo do prazer
E ali encontrei não o “Bagdá”.
Havia em seu lugar um antiquário.

Quanta ironia! Também eu já era
Não mais o mesmo de uns poucos anos.
Como o extinto cabaré, me transformara,
Na frontaria irreconhecível
Do meu passado recente, mas distante.

Quem imaginaria o rebuliço,
Os gozos, as disputas, as loucuras,
A agitação bêbada e frenética,
Falsa, mas tão real dentro de nós?

Na fachada do velho casarão, na minha face
Não poderia mais se ler a alegria.

Tudo são cinzas, tudo hoje é passado.
A gravidade penetrou-me até os poros
E o antigo paraíso só existe
Na pálida memória, como o cabaré.

Porto Alegre, 18 de maio de 2002.

Ubirajara Passos

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