A MALDIÇÃO DO TEMPO


O assunto é pra lá de batido e cheira a discurso presunçoso de intelectualóide petista bêbado em boate gay chique da capital. Mas também que inspiração se espera de um domingo semichuvoso (aquele chuvisqueiro que vai e vem ao longo do dia) e frio para os padrões do mês, após um sábado de 40 º C às sete horas da tarde? (Morar no Rio Grande do Sul é foda, se algum leitor vive no Nordeste ou Rio de Janeiro e gostaria de experimentar as quatro estações do ano num só dia, ou em uma semana, venha pra cá que a gripe é garantida! Mesmo os gaúchos, volta e meia, apesar da total inconstância meteorológica em que se criaram, não resistem e acabam doentes.)

Mas o fato é que um dia destes me peguei “morto de inveja” dos grandes vegetais! Há árvores do tempo de Cristo, que, já provectas naquela época, assistiram ao cortejo da crucificação, e estão lá até hoje rindo da nossa cara de animais precários, pretensiosos e conflituados.

Há mesmo sequóias gigantes na América do Norte, cujos troncos, desenvolvidos ao longo dos milênios de sua vida, são tão grossos que é possível abrir um túnel neles para passar um carro, sem prejuízo de sua existência! Perto de uma árvore destas, a vida de um ser humano não equivale sequer a de um mosquito e, na nossa dimensão de tempo, a árvore é praticamente imortal!

Mas mesmo simples goiabeiras possuem uma vantagem enorme sobre nós humanos! Pode-se cortá-las inteiras, que, desde que as raízes permaneçam intactas, o resto de seus corpos brota novamente, em tronco, galhos e flores novinhos em folha para viver nova vida. O máximo de regeneração que a natureza nos permite é a cicatrização da pele, o crescimento de unhas e cabelos (estes últimos são os brotos do defunto humano, continuam a crescer mesmo depois que seu corpo animal perde as funções e se torna máquina desativada).

Alguém pode argumentar, com toda lógica, que a aparente imortalidade de vegetais milenares é relativa e falsa. Imóveis e aferrados durante toda a vida a um ponto fixo do solo, seu metabolismo deve ser tão lento que, ainda que possuam qualquer coisa semelhante a uma mente consciente, os milênios de sua vida física não ultrapassariam o equivalente às décadas do nosso tempo psicológico sofisticado!

Mas, sinceramente, continuo achando que ser um vegetal milenar é o maior barato! Imaginem a “viagem” de umas destas sequóias, curtindo zilhões de cenas e alterações de cenários e personagens séculos a fora, a seu redor! E o que é melhor: vivendo ali, em cenário privilegiadíssimo em relação às “moscas humanas”, sem ter de fazer o menor esforço. É só existir no solo os nutrientes necessários, e ela pode ficar ali uma eternidade se espreguiçando, solenemente vagabunda, sem ter de se atarefar em desenvolver tecnologias avançadas que a aproximem da vadiagem ideal, nem explorar e subjugar suas semelhantes para ser vadia!

Seja como for, as nossas moléculas programadoras básicas (as ditadoras conhecidas pela sigla DNA) são extremamente ingratas e atrozes conosco. Não contentes em nos ter como mero veículo da propagação de sua identidade (os códigos genéticos), a semelhança daqueles insetos que vivem uma única noite, depois de um ano em estado de larva, e morrem depois de procriar (o paralelo é este frente a tal da sequóia californiana), nos condenam, por sua programação até agora inexorável, à decadência após a idade fértil, que acaba nos levando à morte! Pois o envelhecimento, hoje se sabe, não é resultado do desgaste mecânico do organismo vivo ao longo do tempo (nossas células são permanentemente renovadas, em permuta constante com o meio ambiente – o que “envelhece” é a forma com que elas se organizam), mas do próprio plano arquivado nos genes!

O drama, entretanto, não está na transitoriedade de nossa condição animal. Duvido muito que uma barata sofra a desgraça emocional de sua finitude! O diabo é que, planejado ou não pela natureza, desenvolvemos consciência, e esta aspira necessariamente à imortalidade!

Ubirajara Passos

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