CACHAÇA REVOLUCIONÁRIA


Estava lendo, hoje, uma matéria na revista Aventuras na História de fevereiro de 2007 quando descobri que os inconfidentes de Minas Gerais tomavam cachaça nas reuniões secretas em que conspiravam – que era servida por um irmão padre de Tiradentes, um tal de Domingos Xavier (proprietário de uma alambique que funciona até hoje no Sul de Minas).

O próprio Joaquim José da Silva Xavier (que possuia um gosto bem mais refinado para bebidas do que Cristo, cujo drink, quando de sua execução na cruz, foi um reles gole de vinagre) teria solicitado, como último pedido, aos carrascos, por ocasião de seu enforcamento: “Molhem minha goela com cachaça da terra”.

A matéria dá a entender que a cachaçada inconfidente era uma forma de exercício do protesto, a afirmação etílica formal da rebeldia nacionalista frente aos hábitos eurocêntricos e colaboracionistas da elite colonial, que preferia se encharcar das bebidas da metrópole portuguesa.

Mas o que escapa aos bem comportados redatores da revista é a dimensão ontologicamente revolucionária do porre.

O que normalmente se identifica como um sujeito sóbrio é o equivalente do chamado “cidadão honesto, de bom senso”. O que se traduz em linguagem direta e isenta de hipocrisias como conformismo ou acomodamento. O hábito daquele cara que, para não se estrepar, prefere seguir a rotina inerte da correnteza e jamais nadar contra a maré. O covarde que, diante da sociedade injusta e feroz (organizada por uns poucos cafajestes com a colaboração da maioria do rebanho), diante da vida precária e subjugada que levamos, procura se adaptar aos caprichos de patrões e chefetes a fim de preservar algum “conforto”, e evitar a óbvia retaliação.

Logo, para revoltar-se, para ter coragem de questionar e combater a redução universal das criaturas humanas a mero rebanho, é necessário uma certa gaiatice, o tom necessário de “irresponsabilidade” próprio da embriaguez mais tresloucada. É preciso sacudir a mente, num turbilhão mais veloz e fulminante que o condicionamento diário à “obediência”, capaz de nos catapultar a uma realidade completamente diversa do comezinho ruminar do surdo massacre diário em que se vive.

Se os nossos revolucionários do “iluminismo tupiniquim” tomavam cachaça não era para bancar, a moda do petismo politicamente correto de hoje, os paspalhões da revolta retórica, que esconde a submissão ao imperialismo! Neste mundinho onde todos nos encolhemos ao menor berro dos dominadores, como ratazana assustada, e vamos logo nos comportando nos canônes de zumbis “bem educados” e cumpridores do dever (para que o fantasma do desemprego não se torne realidade e percamos até mesmo a garantia do pão que o diabo amassa de cada dia) a capacidade de romper com a sacanagem institucionalizada e se contrapor a ela só é possível se nos elevarmos algumas doses além da vala comum da humanidade. Humprey Bogart, Tiradentes e o Grupo 30 de Novembro (sempre discutimos e escrevemos e agimos sob a “influência libertadora do álcool”) tinham razão: viva a cachaça (a cerveja, o uísque, o vinho… ou a simples rebeldia enlouquecida)!

E tu aí, o que estás esperando? Já tomou tua cachaça (tua vodka, teu conhaque, teu steinheger) hoje?

Ubirajara Passos

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