CÔNIDE SELÊNIA


Sábado sempre foi para mim o melhor dia da semana. Mas, nos últimos tempos, a depressão o transformou numa das tediosas ocasiões da minha rotina. Tudo que de “notável” se passou hoje foi o telefonema de uns três amigos: um baiano doido e tarado, passando “férias” no Rio de Janeiro, fascinado com a possibilidade de ir à “Vila Mimosa”; um companheiro de partido recém vindo do litoral do Rio Grande, dando notícias das últimas tropelias do presidente do diretório municipal; e um alemão quarentão, morador de Santa Rosa – RS, a comemorar a derrubada de um helicóptero yankee com uma tripulação de “13” soldados.

O que não me impediu de, com o auxílio de algumas taças de vinho tinto serrano, concluir o terceiro capítulo de Erótilia, que aqui vai publicado para desenfado dos leitores que, eventualmente, como eu curtem o tédio de uma insossa noite de sábado.

Cônide Selênia

Epicuro ia, aéreo, campo a fora, já noite alta, sem lamparina, que havia lua cheia, a mente a revolver-se sem descanso. Que história era aquela do mestre, de iniciação prática? Pelo que sabia, e supunha assim fora com os mestres de outras eras, a iluminação era resultado de profunda e contínua imersão da mente, isolada do mundo e em contato estreito com a mente maior que nos habita. O máximo de promiscuidade com o mundo era o contemplar, também meditativo, da natureza. De lagos, bosques e montanhas… Mas vinha agora o mestre π (que nome estranho e enigmático!) lhe propor esse negócio de “prática concreta”! E ainda lhe enviava a qualquer megera, que devia ser uma destas feiticeiras cheias de crendices, de boa lábia e suprema vigarice…

A esta altura o discípulo iniciante já entrara bosque a dentro e uma rocha mais dura que pau de guri novo o acordou do devaneio, indo imprevista e indecentemente de encontro ao dedão do pé esquerdo. Contam as lendas erótilias dos pósteros, que o uivo de Epicuro, nesta noite, “foi tão agudo que até ouviu-o a própria lua, /no alto céu toda excitada… E os lobos responderam em uníssono/ e, temerosa, veio até ele a matilha/ lamber-lhe os pés/ e seguiu-o em cortejo”.

E, em meio à dor, e à confusão dos lobos mansos (que primeiro lhe deram terror e depois o deixaram estupefato com sua adoração), o futuro hierofante de Erótilia, viu, embasbacado e besta (dizem até que botou um metro e meio de língua pra fora e, nesta noite, da sua baba nasceu um pequeno riacho que cai montanha abaixo e desemboca em plena cachoeira), a coisa mais absurda e inacreditável. Epicuro que, até este dia, não passara da punheta e das rápidas metidas nas cabras de seu pai, se achava o suficiente acima dos “baixos instintos” para se dedicar exclusivamente “à arte dos mistérios”, sem a interferência nefanda dos falsos prazeres desvirtuadores. Mas aquilo não era coisa deste mundo, nem mesmo do outro! Num instante, na mesma velocidade em que seu falo crescia e se alçava ao céu, imenso (assustando os lobos, que desandaram em correria caótica, muitos despencando abismo abaixo), arremessaram-se ao infinito os códices, regras, crenças e ideais do noviço pagão e só restou uma única verdade. A que os olhos lúbricos de sua mente permitiam-lhe enxergar.

Banhada de luar e cachoeira, a imponente nudez loura alçava ao azul escuro da noite dois pontiagudos bicos róseos, túmidos de desejo, que se eriçavam na brisa arisca, enquanto suas mãos percorriam suavemente seu marmóreo corpo, dos fartos e empinados seios à bunda roliça e arrebitada. Cônide Selênia, era, na madrugada fresca e povoada de cricrilares e coachos, a própria volúpia encarnada na terra. E a mais enlouquecida e raivosa fera em luta se transformaria em um gatinho aos seus pés delicados e ágeis, que sustentavam pernas torneadas pela própria deusa do delírio onírico e grossas e lisas coxas, em cujo encontro o coral mais fino se constituía da vibrante xana, uma saborosa espiga de milho que fez o enfadonho discípulo de Π girar desenfreado de vontade lambê-la!

Uma onda arrepiante de prazer corria aquele corpo lindo, enquanto Cônide se masturbava, requebrando arfante, sob a cachoeira, e cantando um hino à sua deusa madrinha, numa voz que transportou Epicuro ao mundo do inacreditável. Era como se o tempo e o espaço houvessem desaparecido e ele tivesse sido arremessado a um estranho e fascinante escaninho do universo onde toda verdade e todo sentido fossem palpáveis ao menor toque, e, no entanto, avassaladores e incompreensíveis. Contrariamente à reação comum de um macho da espécie, ele se viu paralisado e suspenso no cosmos, fascinado como se tivesse sido conduzido ao centro do princípio de tudo, e ficou pasmo e paralítico, enquanto a loira lhe chamava com o dedo!

Instantaneamente tudo escureceu e Epicuro acordou-se, já tarde alta, deitado em um jardim desconhecido.

Ubirajara Passos

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