ÍNTERIM NO TEMPLO DO MAR


Publico hoje o segundo capítulo de “Erótilia”:

Ínterim no Templo do Mar

O sol ofuscante batia de chofre sofre a mesa envernizada e o bafo vindo do continente punha doido o Mestre do Templo, cuja pândega noturna se resumira a uma cervejada ao som alternado de cítara e tambores (só mesmo em Erótilia Antiga poderia haver uma combinação musical tão díspar) e a exaltadas declamações de improviso. Em meio à celebração particular, improvisadas coreografias de guardiãs da noite, peladérrimas e endoidecidas, frescas de brisa e ferventes de tesão, traziam à concretude carnal os sonhos dos poemas.

E agora aquela manhã insossa, aquele sol feitor de escravos gritando em claridade e a maldita necessidade de manter-se em pé! (Era o “dia do destino”, a data anual em que a configuração astronômica da lua chamava os vocacionados do velho culto a decidirem-se a dedicar-lhe a vida, e o Mestre devia ficar de plantão à espera dos futuros iniciados, desde o fim da madrugada).

Πsudo Traçoidorum (mais conhecido pela forma abreviada: π) ganhara este pseudônimo por óbvias razões, sem qualquer relação com a Matemática. Havia anos, conhecera em Bagdjônia uma puta oriunda de Erótilia, chamada Mársilia, por quem se apaixonara e era a responsável pelo apelido. O que, aliás, era seu grande mérito. Pois ela e π passavam horas a bater trela e entornar vinho, e fodiam muito pouco. Ainda assim, restara o apelido, que era motivo de absoluto orgulho do sofista.

E, naquela morna e opressiva manhã de quotidiana ressaca , viu os fantasmas da orgia materializarem-se, em pleno dia claro. Morghourellius, um velho companheiro de boemia lhe enviara o sobrinho (nada mais que o rapazola Epicuro, o Antigo) para que o instruísse na nobre arte do culto à Buçamãe.

– Senhor, vos afianço que me haverei com a maior seriedade e dedicação às vossas graves lições! E que hei de honrar-vos como ilustre questionador que és da fútil sociedade! Hei de renunciar, mesmo, ao leviano prazer físico! (Assim, entre balbucios e brados, se apresentou o patético pupilo a π, que., de enfado e susto quase perde os bagos!)

– Pois olha, piá, a “honra” é toda minha em ajudar o filho, quer dizer, o sobrinho do meu amigo Morghourellius. Mas, antes de explorar os intrincados labirintos da sabedoria lógica, é preciso que o caro guri conheça um pouco da práxis concreta, para que, após a experiência in loco com a matéria, possa suscitar seus próprios desafios mentais! Eu vou te enviar pra “tia” Cydilene. Após decifrar-lhes os mistérios, coisa que há de ser bem dura, estarás pronto a adentrar na suprema teofania!

E com um tapão do mestre, que quase lhe põe os pulmões a correr à sua frente, Epicuro, devidamente munido de mapa e bússola, pôs-se em marcha, curioso e contrariado.

Ubirajara Passos

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