DE SUSPIROS E REINAÇÕES


A introdução da narrativa de Erótilia (publicada nos dois últimos posts) foi escrita de um jato só no outono de 2005. De lá pra cá venho eventualmente arrastando alguns capítulos que vão surgindo mais ou menos ao acaso. Segue o primeiro.

De Suspiros e Reinações

Epicuro, o Antigo, após emitir um sonoro peido, desfez-se em lânguidos suspiros e, dando as costas (era o máximo que se permitia dar) à Grande Obra, foi descendo a Ladeira Putelêdiam, absorto nas velhas recordações de guerra… de quando, sábio filósofo e oficiante de um culto sem deus, mas jovem e pândego, desmanchava-se em ondas deleitosas, dignas da via-láctea, nas saltitantes bundas das guerreiras cavaleiras.

Quanta bela noitada gozada em claro, quanto suco de cevada etílico (a cerveja, ao contrário do que afirmam os textos acadêmicos, não surgiu na Mesopotâmia, mas já era conhecida na velha Erotília) a inspirar as safadezas mais cretinas, da declamação de poemas épicos aos shows de streap-tease e aos concursos de resistência física (os guerreiros erotílios eram os mais denodados de todos os virtuosos cidadãos do continente e seu esporte favorito era o sacrifício a que expunham seus corpos, até o limite do insuportável, disputando violentamente quem era capaz de permanecer por mais tempo na tortura de entornar cerveja!).

Naquela época não havia amazona capaz de derrotar Epicuro, mas agora, ai do sumo sacerdote, seu pequeno paraíso andava restrito ao ato do felatio e do cunilingus, de sublime requinte para o êxtase, mas tão pouco digno do triunfo de um guerreiro!

Epicuro ia tão absorto nestas divagações que não percebeu a aproximação de Veatus – fidelíssimo, mas temperamental ajudante de ofício do templo.

— Mes-tre… precisamos tomar providências severíssimas e urgentes! Estes peões da muralha, com suas pica eretas, ahann… suas picaretas enormes, erguendo as rochas e abrindo buracos, de torso nu são um escândalo!

— E qual o problema, ó meu glorioso servo dos deuses, quereis então que eles cubram o tronco sob esse sol escaldante? Possuiu-vos o espírito do sadismo?

— Não, mes-tre… Longe de mim imaginar tal tortura! É que eles poderiam também deixar a descoberto o resto!!!

Epicuro deu três relinchos e quatro coices mentais antes de responder e concluiu que pouco adiantaria mandar Veatus tomar no cu (era tudo o que ele queria!). E, assim, encarregou-o da missão mais “grave” (e impossível) que pode imaginar. Determinou solenemente ao auxiliar dos cultos que lhe descobrisse (já que esse era o problema apresentado), por exaustiva pesquisa esotérica dos registros sacros, a fórmula eficiente de puxar o saco do touro sagrado.

Desnecessário faz-se mencionar que o servo Veatus, boquiaberto e estupefato – entre puto de raiva com a atitude de seu amo e embevecido com esta história de saco e touro (que bem podiam ser de carne e osso, ao invés de restringir-se ao couro do pergaminho) – resignou-se a dar o couro no espinhoso trabalho e foi-se saltitando entre louvores!

Podia, agora, Epicuro abandonar as picuinhas da hora e voltar a ruminar suas saudosas e safadas memórias!

Ubirajara Passos

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