ERÓTILIA – 2


Erótilia era uma terra feliz e livre (nenhum erótilio estava submetido a qualquer chefe, havia no máximo consultores reconhecidos por sua experiência e habilidade – inteligência e capacidade intelectual em si era um dom universal do país – que coordenavam os trabalhos mais complexos e que envolvessem diferentes operações e trabalhadores, e, caso exorbitassem de suas funções e tentassem transformar em ordens suas recomendações, eram levados de volta à realidade, não por pauladas, mas pelos mais hilariantes deboches públicos). Mas era uma terra sem opção! Quem nela nascesse não poderia viver senão em tal mundo. Numa era em que voar era coisa só de pássaros, a grande obra, as muralhas, eram o limite necessário do destino dos erótilios.

Alguns filósofos, por natural curiosidade, insistiram que se deveria desenvolver algum meio seguro de aventurar-se eventualmente ao exterior (o território dos povos belicosos, imperialistas e sofredores, onde a maioria vivia sob o jugo sádico dos amos) que possibilitasse transpor as muralhas sem abrir acesso ao inimigo (mal sabiam que, para este, desde muito Erótilia era tida como um cemitério e não um paraíso inatingível). Mas a velha gozação erótilica os havia calado sob estridentes gargalhadas!

Até que um dia, após milênios, Erótilia foi atacada! Não por terra ou por túneis, ainda impossíveis (a tecnologia da muralha, mesmo antiga, era avançadíssima e impedia aos mais modernos aparelhos terrestres ou subterrâneos sua transposição ou destruição), mas por pesada, ainda que primitiva, artilharia aérea de arqueiros empoleirados em planadores! E o que sobrou de seu povo, incapaz de defender-se (pois criado na mais absoluta falta de necessidade e ignorância das artes da guerra e da violência física entre os homens) foi feito escravo e espalhado por distantes terras.

O país feliz, embora paraíso de prazer, liberdade, inteligência e plena realização de cada membro, havia pecado em dois aspectos que – contraditoriamente – estavam ligados à própria razão de sua característica paradisíaca na Terra “pré-histórica”: porque a muralha externa os dispensara não haviam desenvolvido a agressividade bélica e nem técnicas aeronáuticas! A perfeição de seu mundo de prazer e harmonia e o temor de um mundo exterior de castigo e sofrimento que inspirara os construtores da grande obra haviam impedido a curiosidade e a necessidade de contato com o mundo!

Assim um santuário ecológico irretocável e uma sociedade sã, igualitária e livre, sem direitos e deveres obrigatórios, mas pautada na inteligência, no afeto puro e no bom humor , que avançara terrivelmente nas ciências da vida sem romper com natureza, não tentando subjugá-la como inimiga, mas compreendendo-a no seu âmago imaterial (os erótilios haviam, inclusive desenvolvido uma medicina naturalista que quase eternizava suas existências, prolongando-a por séculos e com uma qualidade ainda hoje impensável), e prescindido de sociologias, psicologias ou economias científicas, mas ajustava seus conflitos na franca convivência diária, foi destruída por seu único preconceito: a crença absoluta no poder defensivo da muralha! Seu isolamento não lhe permitira imaginar a evolução dos transportes e técnicas aéreas de guerra, assim como a mantivera como um mundo a parte, completamente inciente do resto do planeta!

E o mais irônico é que a civilização que a derrocou não era oriunda do “mundo sem muralhas”, mas Cropólidia, sua filha dissidente, cujos sufocados e neuróticos habitantes, no correr dos séculos, na ânsia da fuga das muralhas, haviam desenvolvido a aviação primitiva!

O que era o símbolo da desgraça fatal aos cropólideos e a segurança de felicidade aos erótilios (a muralha) foi a única falha na autonomia dos últimos: eles eram livres em absoluto, mas dependiam de algo externo como condição de sua liberdade, sua autonomia não lhes era garantida por si mesmos num mundo que exige-nos sobretudo rebeldia e resistência ao permanente assalto autoritário e onde só podemos contar com nossas capacidades para não sucumbir à escravidão imposta. Estamos sós e só nossos escudos interiores (não muralhas que nos separem do ataque do domínio e do suplício) podem nos garantir alguma autonomia e gozo. Se a moral final da fábula aqui inventada parecer pobre e inaplicável à complexidade contemporânea fica a advertência: o que falta (o que está além das muralhas da escrita e da compreensão) está nas entrelinhas… da fábula e da vossa interioridade!

Gravataí, 8 de maio de 2005

Ubirajara Passos

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