ERÓTILIA – 1


Por Ubirajara Passos

Muita obra prima do romance foi publicada em folhetim antes vir à luz como livro acabado. Não será, portanto, por publicar, aos pedaços, neste blog, que a modesta narrativa que segue (que venho rabiscando há mais de um ano e não sei dará em conto ou narração mais extensa) perderá a originalidade. Inicio hoje, portanto, mais uma série, como fiz com os “Sermões na Igreja de Satanás.

ERÓTILIA
(uma fábula sobre a necessidade da absoluta autonomia)

E assim a grande obra se ia concluindo. A muralha que isolaria do mundo a Nova Erótilia se erguia freneticamente rumo ao céu, sob o olhar embevecido de Epicuro, o Antigo, de cuja descendência nasceria uns oito mil anos depois (quando já não haveria traço do país e seus destruidores e a nova humanidade desconheceria pelos dois mil anos seguintes a eletricidade e o a energia do átomo) o filósofo do jardim.

A antiga Erótilia, região de agricultores e pastores que haviam deixado a vida nômade, povo pacífico e cordial que muito sofrera os embates de hordas guerreiras e cruéis de povos cavaleiros, finalmente se faria, segundo os planos de seu protetor, um território perfeito e inexpugnável, à prova de invasão do mais temível inimigo!

E em seu interior não havia apenas uma cidade de pedra, com todo o conforto tecnológico possível na época, mas campos, vales e bosques amenos e instigantes. E colinas cobertas de carvalhos, cujo mistério noturno remetia aos mais antigos e ocultos mitos. Nelas se respirava algo de profundamente envolvente e instintivo. Cada pedra, no âmago das madrugadas, se fazia viva e comunicava-se com o cosmos, sob o mudo olhar do cruzeiro do sul. Nas suas vozes, que se faziam ouvir na mente dos filhos de Erótilia, podia-se ouvir os mais fantásticos e primevos contos!

Mas, se as noites mágicas de Erótilia aproximavam seus habitantes do cosmos longínquo e lhes faziam dialogar com os astros e com os mundos terrenos e subterrâneos, de formigas, carvalhos, ventos, riachos, fogueiras e minhocas (ah quanta história gostosa de mundos estranhos e dimensões inimagináveis!), no dia o sonho dos erótilios (que viviam um perpétuo devaneio, emancipado das cruezas da submissão e do poder imposto) era a própria vida quotidiana! O trabalho, a vadiagem, a conversa à toa, a farra sensual e a bebedeira de fins de tarde, intervalos ou manhãs (os erótilios não tinham horários fixos para o gozo e o trabalho – desfrutavam-nos e os desenvolviam conforme a inspiração do momento e, se o sistema produtivo descompassasse das necessidades do povo, realizavam em mutirão o trabalho atrasado nos sábados à tarde, com direito à uma farra monstro após seu termino), o contato multifacetário e excitante de uns com os outros tornava-se o seu sonho diurno!

Porém Erótilia não será, a partir da conclusão da grande obra, apenas uma terra impenetrável! Suas sólidas e altíssimas muralhas seriam construídas sem qualquer porta e, se o inimigo não poderia entrar – nem escalá-la – aos erótilios também dela sair seria impossível. Nem túneis poderiam levá-los ao exterior, pois suas fundações de rocha bruta e dura desciam a profundidades desanimadores aos mais obstinados dos eventuais fugitivos!

Assim, essa terra era um mundo a parte no planeta, embora em permanente contato com o cosmos (tanto o macro, quanto o microcosmos: o astronômico e o microscocópico). Um mundo estranho, de vida livre, perfeita e nada tediosa! Os erótilios possuíam um humor todo especial: eram alegres, gritões e criativos e suas tiradas perspicazes e engraçadas eram capazes de sacudir e arrancar da chatice o mais resinguento dos cropólideos (um povo igualmente isolado – fundado por um líder dissidente erótilio, exilado com seu grupo minoritário alguns anos antes da conclusão da grande obra por se opor a ela e apostar na resistência armada – cujo tom emocional dominante eram a reina, as cismas melancólicas e as infindas arengas sobre a morte, o sem sentido e inutilidade da vida e dos seres – que, após vãs tentativas, acabara por erguer sua própria muralha em território a parte).

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Um comentário em “ERÓTILIA – 1

  1. * Em 16.01.07, às 03:31:42,
    * gerson disse :

    Gostei muito, embora não seja nenhum exper, parece-me uma leitura agradável, dinâmica e contestadora do sistema desumano que nosssa pretensa sociedade nos impõem. O uso de seu vocabulário é vasto e de grande qualidade, seu esmero em descrever o local pode ser mais aprofundado, pois certamente idéia para isto não lhe faltam. Parabéns novamente, já que não posso aplaudi-lo, pois certamente não seria escutado.

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