FUNDAMENTOS DA OPRESSÃO


Domingo à tarde não é exatamente o dia mais inspirador e o tédio bêbado do fim de semana não me autoriza a fazer maiores vôos literários. Para evitar a decepção dos leitores, entretanto, publico uma reflexão recente, mal trabalhada lógica e literariamente, mas que tenta dar conta dos fundamentos (ou de sua inexistência) da opressão entre as criaturas humanas. Gracias y hasta la vista.

ENSAIO AMADOR, A MODA DOS DILETANTES FILOSÓFICOS PRÉ-SÉCULO XX, DE ANTROPOLOGIA DA OPRESSÃO

 

O que justifica a opressão de um ser humano sobre o outro? No nível mais básico da evolução cultural formal, ou no nível do hominídeo (a espécie ancestral cuja mutação nos originou), a escravização ou o confronto e o assassinato poderiam justificar-se pela mera contingência ecológica da falta de recursos naturais suficientes (como água em um oásis, por exemplo) para uma população desproporcional. No Velho Testamento é freqüente a menção a brigas entre grupos ou famílias junto à uma fonte palestina (já que água era coisa rara na região, ainda que se suponha não fosse então desértica).

Neste caso, não havendo condições de migração da população excedente, através dos meios de transporte viáveis (que permitissem a sobrevivência em uma eventual viagem longa), a “guerra” seria inevitável e levariam a melhor os mais belicosos ou espertos.

Se os recursos fossem tão escassos que atendessem, de forma básica, a apenas uma parcela da população em disputa, o resultado seria o assassinato do excedente.

Se fossem de tal ordem que permitissem a sobrevivência precária de toda a população, mas uma condição ideal de sobrevivência física a apenas uma minoria, a opressão mediante interdição (o estabelecimento de regras de consumo máximo para a maioria e a submissão dela à vontade da elite regrante) poderia ser exercida pela via do amedrontamento.

Mas para tanto, seria necessário o desenvolvimento de uma lógica interna representativa nos cérebros dos membros do grupo, pois no nível mais próximo dos mamíferos não humanos, o medo abstrato seria impossível e o embate resultaria, indivíduo a indivíduo, na morte ou na expulsão do derrotado. E, mesmo desenvolvido este estágio da consciência, a interdição (“a lei”, o “Estado” primitivo) só teria lógica para o próprio interventor se daí lhe adviesse uma vantagem extra. Caso contrário, seriam mais úteis os métodos anteriores (assassinato e expulsão).

Na hipótese do poço, por exemplo, a limitação de consumo de água (a primeira regra social de comportamento estabelecida, a criação do “Estado primitivo”) dos membros do grupo excedentes só se efetivaria se o nível de consciência dos opressores inaugurais fosse tal que lhes possibilitasse sentir como incômoda e penosa a necessidade de retirar água do poço diariamente e lhes surgisse como solução matreira para a questão o “emprego” dos demais “consumidores” virtuais de água da região em tal tarefa, sob a ameaça da morte ou do castigo físico.

Se os opressores não possuíssem a potência física necessária a gerar o medo teriam de se fazer valer do eventual desamparo dos oprimidos frente à natureza caprichosa e passar-se por “embaixadores” com capacidade de controle ou obtenção de benefícios frente a ela, ou por executores da sua vontade perante os demais. Estariam, assim, estabelecidos, conforme os matizes da evolução lógica da média do grupo, pelos mesmos interesses irmãos de monopólio econômico, domínio social e vigarice ideológica, os fundamentos primevos do estado, da sociedade de classes, e da religião organizada.

Comum a todas as formas de imposição (que no caso do Estado seria explícita, da sociedade de classes, implícita e apoiada na idéia de “necessidade” originária do primeiro; e no caso da religião organizada apareceria como o seu contrário, ou seja, “intercessão” bondosa ante as potências temperamentais e incontroláveis do mundo em “benefício” dos submetidos) está presente a idéia da “autoridade”, da legimitidade (qualquer que seja ela) do “regramento” e da “limitação” das criaturas a partir de uma vontade reconhecidamente concreta (um outro ser) ou abstrata (a noção derivada de estrutura ou condição, que obscurece o opressor) exterior ao indivíduo submetido.

Todo exercício acima está fundado na condição hipotética de uma situação ecológica e humana tremendamente precárias e primitivas no contexto do cenário natural, que – pelo caráter de abstração racional em que se fundamenta – praticamente nunca ocorreu desde o surgimento da espécie humana. Mas suas deduções parciais nos ajudam a entender as causas, os fundamentos e as conexões das diversas formas concretas e complementares da dominação que se estabeleceram ao longo da História.

Desde que, porém, a capacidade de pensamento e trabalho (tecnologia) humana atingiram o nível mínimo de emancipação do nicho ecológico circundante e se fizeram realidade em que já é possível, sem os recursos de escravização, garantir a todos uma vida com quase nenhuma precariedade, nem incômoda frente à consciência emancipada do imediato do momento e da sobrevivência, a opressão, o monopólio de bens materiais e do dispor de si individual, a capacidade restrita de investigação e diálogo com o universo cósmico não possuem mais a menor justificativa lógica (por mais espúria que possa ser) de seus executores e usufruidores, além da herança emocional sádica introjetada.

Este é o momento em que os oprimidos, excluídos e mistificados (que, mesmo na hipótese da expulsão para território inóspito ou morte tinham melhor sorte do que serem escravizados, pois se sobreviviam se tornavam seres por metade, insuficientes frente à pressão “instintiva” de si por viver e ter prazer) também não têm mais desculpa para sua obediência balbuciante e seu pavor desamparado! É o momento em que não só as velhas crenças introjetadas através dos condicionamentos mais básicos (desde o berço) precisam ser sacudidas. Em que o outro fator fundamental da escravidão precisa ser lançado ao fogo: a capacidade do ser humano de se escravizar dentro de si mesmo, introjetando os absurdos imperativos de “moral”, “ética”, “civismo”, “religiosidade”, “cidadania” e “ideais” de “bom-comportamento” ou “status” que o senhor (antes de tudo um vigarista envolvente) lhe joga sobre os ombros, mas que só se concretizam pela colaboração do escravo – que perde até mesmo o mínimo de bem-estar físico e emocional inerente a qualquer ser vivo em nome de “princípios” que só existem para garantir a gandaia sádica dos dominadores.

Gravataí, 6 de novembro de 2006

Ubirajara Passos

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