REINAÇÕES


O texto abaixo (que poderia ser parte dos meus diários, mas foi escrito como desabafo avulso) é uma versão um pouco piorada da minha tradicional auto-crítica, mas não deixa de ser um retrato do meu drama de peão remediado não alienado, e sacudido entre padrões introjetados de comportamento e a própria idiossincrasia.

Antes mais nada é o depoimento de alguém que passou dos trinta, e hoje, quase sete anos após, amarga a segunda “adolescência” da década dos quarenta sem acreditar muito nela (caso contrário seria um falso anarquista):

 

REINAÇÕES
(que não são de Narizinho*)

Há gente que nasce morta, com um tal espírito de chatice e inaptidão para as coisas práticas (inclusive para os prazeres) que, mesmo no auge da orgia, da beberagem e da putaria, acaba não tendo graça nenhuma. Infelizmente, eu sou um deles. Uma dor insaciável e filha da puta me corrói intensamente o âmago. Um amargor sem fim – sisudo e grávido de mais amargura – me habita há séculos e parece não fazer a menor questão de ir embora.

Não, não digas meu amigo, que o que falo são churumelas de amante frustrado, não correspondido, e virtualmente traído (já que encalacrado a sustentar uma cínica que não me quer, me usa e ainda reina à menor queixa).A minha desgraça, este mau humor eterno, e, sobretudo, este infantilismo besta de trouxa crédulo e inseguro é muito mais a constante de uma vida, uma espécie de pendor inato à rabugice, do que o resultado do momento.

Infelizmente, há almas que parecem condenadas, sabe-se lá por quem (já que Deus ou os diabos são tristes fantasias), a refugiar-se no sombrio, no obscuro e a viver como zumbis. Por mais que clamem por vida, por claridade, por fogo, por aventura, por prazer legítimo e descomprometido, só lhes satisfaz o auto-flagelo, a besta melancolia de um fim de tarde, a poesia doente e negra da quietude, e – no máximo – o entusiasmo destrutivo de um temporal grandiloqüente.

Não que não enxerguem (e isto é o pior, antes não tivessem consciência) a beleza, o sublime, o encantamento terra-a-terra e comum dos mais frugais e menos sofisticados prazeres. Não que não almejem, em meio à alheia ou à própria mediocridade, ao requinte, ao inebriante e descomunal prazer de alma e pensamento cumpliciados, a criar a arte. Simplesmente, tais espíritos, emaranhados na sua revolta (qual o mítico e anárquico Satanás bíblico), só encontram real valor, deleite intrínseco, no mórbido, tão ébrios se alimentam da profundidade.

 

Gravataí, 8 de julho de 2000.

Ubirajara Passos

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* me perdoe Monteiro Lobato

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