INVERNO


Nada melhor, quando a depressão nos pega em pleno verão (como é meu caso nesta semana), que evocar o intimismo poético e profundo do inverno. Este é o tema do poema de hoje, que foi o início do meu caminho para uma poesia mais pessoal e elaborada.

INVERNO

Noite tardia, num sussurro eterno,
O minuano gélido desenha
Sobre os vitrais a dança das sombras.

Na velha rua ecoam longínquos,
Velhos lamentos de perdidas eras,
E o chuvisqueiro esvoaçante cobre
De cintilantes gotículas as folhas
Dos velhos cinamomos melancólicos.

Repercutindo mansamente nos telhados,
A garoa sem fim imprime o ritmo,
Lento e envolvente, de profundos devaneios
À infinita noite bocejante,
Velha e cansada de ser noite milenar.

Uma tristeza profunda e indefinida
Paira no ar, a embevecer o poeta,
E, percorrendo os caminhos desertos,
Pétreos, curvos, de destino incerto,
Embala a praça num sonho indizível.

Só rompe a inércia, vívido, o clarão
Destoante, cálido de uma lamparina,
A refletir-se, misterioso e intrigante,
Sobre a janela da casa secular, quase em ruínas.

Gravataí, 1º de abril de 1995

Ubirajara Passos

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