DOR E PRAZER


Antiga reflexão, de inspiração “reichiana”, escrita na “República” do Valdir, no auge de sua existência (nesta época andávamos lendo Goethe em voz alta: nada mais, nada menos que um volume do “Fausto”):

DOR E PRAZER

A dor é uma sensação necessária, alerta imprescindível à manutenção da existência, inerente à nossa condição física e animal. Possível fosse inverter os comandos cerebrais responsáveis pela linguagem dos sentidos e, se o que é percebido como desconforto, induzisse a sensação de êxtase, não teríamos a mínima chance de sobreviver um instante neste universo em que vivemos. O suicídio seria não o resultado das frustrações e ressentimentos mais íntimos e contundentes de almas ressecadas ante a amargura permanente e à completa ausência do prazer, mas a conseqüência equívoca e absurda do mergulho intenso na volúpia. Fosse, por exemplo, a obstrução da circulação cerebral traduzida não como uma enxaqueca, mas como um gozo físico sem fronteiras e estaríamos condenados a uma existência tão precária quanto a de um mosquito.

Mas a natureza indispensável da dor, como componente básico de nossa própria biologia, parte obrigatória da vida complexa e sensível, não justifica se torne ela a sensação predominante de nossos corpos e mentes. Se o sofrimento não pode ser afastado de todo, uma vez que não somos puro espírito (única possibilidade em que ele seria uma circunstância fortuita, auto-permissível, mas não imperiosa), não significa que deva se tornar a constante ou a própria justificação da nossa existência, em detrimento do prazer que, no nível natural, se identifica com a própria perpetuação (não apenas reprodutiva, mas individual) da nossa vida.

Salvo a eventual perversão dos sentidos derivada de condições físicas extraordinárias (como o envenenamento – nele incluída a “intoxicação” alcoólica ou psicotrópica – ou a desidratação instantânea pela exposição desprotegida ao sol do deserto), as impressões de dor e prazer guardam em si uma identidade a priori com as situações capazes de produzir a extinção ou a continuidade da existência, funcionando como os sinalizadores sensíveis dos eventos prejudiciais ou vantajosos aos bichos pensantes que somos.

Dotados de uma mente complexa (pois somos construídos de crenças e delas derivam também as nossas sensações subjetivas), o conforto e desprazer emocional poderão ocasionalmente estar associados a eventos contrários ao seu conteúdo intrínseco (a contemplação de uma tempestade pode ser um espetáculo de beleza e entusiasmo, mas se encontrar em meio a ela é correr enorme risco de morte).

Entretanto, se o nosso quotidiano é povoado predominantemente pela dor e o desconforto, certamente, algo há de seriamente errado com a vida que levamos ou permitimos que nos seja imposta. E se, hipocritamente, os responsáveis pela incorporação de prazeres artificiais, substitutivos e prejudiciais (como o fumo), ao nosso ideário são os mesmos que – na categoria de “detentores inquestionáveis da sabedoria” (título para o qual basta o indivíduo se encontrar atrás de uma câmera televisiva) – apregoam uma civilização baseada na ética do sofrimento, da austeridade, da carranca e (hipocrisia suprema!) do auto-sacrifício pelo “próximo”, a pátria ou o progresso universal, indubitavelmente, todos os tijolos do edifício deste mundo estão em lugar errado. E ele somente se mantém ereto pela força do cimento de nosso conformismo e impotência auto-impostos.

Nem a todo gozo corresponderá necessariamente um benefício, mas uma sociedade cujo discurso dominante condena o máximo prazer físico alcançável (o orgasmo sexual), estabelecendo uma ética da censura de tudo quanto lhe seja relacionado (o que é visível na “etiqueta” do decoro corporal e do vestuário obrigatório) e endeusa os méritos do trabalho compulsório, exaustivo e das vidas construída pelo padecimento, é uma sociedade profundamente doentia, cujo caráter nefasto está implícito na própria repressão da natureza.

Se o sexo é imoral (e esta é ainda a mentalidade subjacente na maioria, apesar da pretensa tolerância vigente desde os “sixties”: a própria pornografia cinematográfica mundial repete um discurso que assimila o erotismo à transgressão), a própria existência de cada um de nós é ilegítima e só sua extinção poderia instaurar o reino da moralidade plena.

Exprobrar o prazer de nossos corpos é negar a própria vida, assim como o elogio da dor (mesmo que não seja a dor física, mas a da aflição, da neurose e da aceitação da privação como regra) traduz uma profunda violência contra o nosso próprio ser, que contraria todo o movimento do universo ao parir a imanência e a consciência de si mesmo, gerando a vida e, em seu meio, o homem.

Nenhum roteiro de procedimento que se paute pela dor, e a imponha como sensação onipresente e contínua, pode justificar-se como válido, ao menos que admitamos, no extremo masoquismo de nosso comportamento, condicionado através de milênios, que o prazer sádico de nossos algozes seja o maior valor ético e dê sentido ao eterno calvário das multidões.

Porto Alegre, 30 de novembro e 14 de dezembro de 2002.

Ubirajara Passos

 

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