Um Feliz Natal Ateu e Anarquista


Embora ateu desde os 17 anos (1982) e anarquista assumido manifestamente desde 1991, já fui católico radical (daqueles que acreditava que o ideal era se fuder pelo próximo, de preferência com bastante sofrimento, se não a coisa não valia), o que me deixou uma certa nostalgia da mitologia e do imaginário cristão. Assim , em 1993 – ateu revolucionário professo – escrevi, para saudações de fim de ano dos funcionários do foro, o poema que segue, que poderia ter sido feito por qualquer monge adepto da teologia da libertação:

NATAL

Envolta em devaneio, a noite
Respirava o hálito sublime
De um acontecimento transcendente,
Após o qual jamais a Terra foi a mesma.
No humilde estábulo, longe da arrogância,
Da opressão, do fausto, vinha ao mundo
O próprio amor em homem encarnado.

Sua passagem nos campos do Oriente
Marcaria para sempre a humanidade:
Não mais a ameaça , o castigo, a punição,
Não mais dilúvios de um Deus vingativo,
Mas a suave e mútua solidariedade,
Que fazem do homem um ser realizado.

Pouco importa a forma, as fórmulas, os cultos,
Somente único foi seu mandamento:
“Que vos ameis uns aos outros, e que assim,
Como eu vos amei,
Vos ameis também uns aos outros.”

Nas amplas salas opulentas de mansões
Ressoam vivas, o tinir de taças,
Borbulha a alegria: é Natal!
Mas, não mui longe dali, o melancólico
Espetáculo da miséria tem lugar:
Famintos, mal vestidos, oprimidos,
Os filhos do operário se perguntam,
Sem entender o porquê do sofrimento:
Qual o motivo para festa e alegria?
Como comemorar se o companheiro
De correrias, na rua esburacada,
Vítima de uma bala perdida,
Foi para o céu tornar-se um querubim?

Natal… mas é possível
Comemorar em pompa o nascimento
De um Cristo que se mata todo dia
Em cada ato de intolerância,
De egoísmo cego e violência?
Que milenar, infinda hipocrisia
É esta do mundo ocidental,
A festejar com estrondo o Natal,
Se o amor cristão é uma palavra
Morta e sem sentido
Nos lábios daqueles cuja vida
Se faz em falsidade e autoritarismo?

Porém, a festa é válida e gostaríamos,
Neste Natal, despreocupadamente,
De festejar e enlevar-nos no momento
Mágico da noite fascinante.
Porém, queremos lembrar, caros amigos,
Que o Cristo encerra em si a esperança
De uma vida fraterna, livre, solidária,
De aconchego espontâneo e mútuo,
A enriquecer de cada um a existência;
Que na opressão e na miséria coletiva
Não é possível realizar-se esta vida.

Que o Natal seja para nós,
Isto sim, um dia de alerta,
Que realimente-nos o sonho da utopia,
Para lembrar que a felicidade,
Em cuja busca gastamos nossa vida,
Só é possível no calor da mútua doação
E que, para isso,
Cada um de nós é ferramenta indispensável
Na grande luta de transformação
Da sociedade em justo e consciente,
Solidário conviver de indivíduos
Em que na alma jamais falte franqueza,
Em cuja mesa jamais falte pão.

Gravataí, 16 de dezembro de 1993

Ubirajara Passos

Anúncios

Um comentário em “Um Feliz Natal Ateu e Anarquista

  1. lallalala disse:

    blablabla! Isso nao serve! Hahahahha

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s