A CONDIÇÃO HUMANA


Desculpem-me os leitores, mas alguns contratempos (inclusive o roteador de banda larga que estragou e tive de comprar um novo) impediram-me de postar nos dois últimos dias.

Para amenizar o tédio daqueles que, como eu, se vêem como “patos fora d’água” (ou “gansos que não se afogam”) nesta época de festas natalinas, deixo mais uma reflexão filosófica a cerca de nossa condição material e mortal, escrita nos mesmos dias do post anterior. Tão logo me recupere da fossa de fim de ano, prometo voltar com comentários sobre a “Reforma Política” e mais algumas aventuras do “Peruca”. Gracias a todos, solitários ou não.

 

A C0NDIÇÃO HUMANA

Há uma dor que é inerente a todos nós, homens, ainda que muitos não a percebam. É a dor de ser consciente. Pois, ao contrário do discurso de todas religiões, não somos espíritos encarcerados em um corpo (ainda que os mais conscientes de nós assim o sintam), mas corpos que desenvolveram consciência.

Somos o brilhante e trágico resultado da evolução biológica: matéria orgânica capaz de reter e processar informações, de “criar” outras tantas, de programar (mesmo que ao nível inconsciente) seu próprio sistema operacional básico – tudo isto de forma imanente.

Não há nenhum agente consciente externo que nos tenha criado. Simplesmente, um organismo biológico (um conglomerado de moléculas que se originou e alimentava a continuidade de sua existência da permanente troca de elementos com o meio, mantendo a identidade pela imutabilidade de sua fórmula e formas) resultante da reprodução de outros tantos, que haviam desenvolvido um órgão central de articulação de suas funções internas (troca de moléculas) e adquirido uma consciência do mundo, um belo dia amanheceu com capacidade de manipular, recombinar e memorizar, além dos condicionamentos biológicos básicos, as sensações do meio circundante e de si próprio. E se fez consciente de si mesmo!

Soube que existia. Que era algo ao mesmo tempo separado e integrante do resto do mundo. Este ser, desde o momento em que se soube único, passou a identificar-se a si próprio além da realidade de corpo limitado, que cresce, se modifica e definha ao longo do tempo, mas mantém a unidade de seus componentes e sua estrutura físico-química básica. Agora era a memória consciente, autonomamente evocável e manipulável, que lhe dava a identidade.

Mas, neste instante, o conhecimento advindo da observação quotidiana lhe trouxe a fundamental e trágica noção: como todos os animais, plantas e seres de sua espécie, um dia seu complexo sistema faliria, suas informações não fluiriam mais de um centro a outro. Qualquer componente indispensável à manutenção das trocas moleculares internas entraria em pane e, como resultado, o grande computador (o cérebro) cessaria definitivamente sua atividade. Este corpo individualizado (sem qualquer noção explícita da complexidade de sua composição acima exposta) que antes corria as paisagens a que conseguisse chegar, que odiava e amava intensamente seres vivos e coisas, que com eles interagia matando, protegendo, comendo, cooperando, fodendo e simplesmente se comunicando, não teria agora qualquer diferença de uma pedra fria e imóvel. E, com passar dos dias e meses, suas moléculas se dispersariam no conjunto dos seres brutos e vivos da natureza. Já não manteriam a identidade de um aglomerado específico de matéria.

Ou seja, ao mesmo tempo que se descobria como indivíduo, ele, que tão imerso vivia no mundo, ao ponto de nunca ter se preocupado em saber quem era, se tornaria consciente da absurda e maldita condição: era mortal! E, como mortal, qualquer uso que fizesse de sua própria existência (fosse ela aventurosa e cheia de prazeres e desafios, ou monótona, sofrida e sem graça) não lhe afastaria o destino fatal e derradeiro. Um dia deixaria de existir. Sobreviveria algum tempo como “máquina desativada”, mas mesmo suas peças se desarticulariam e seriam lançadas ao caos do cosmos para compor outros tantos seres.

Desde este dia – a passagem da consciência ingênua para a consciência complexa – o homem se sente permanentemente ameaçado e amargurado pela maldição inafastável: a sombra da morte o persegue até o fatal momento em que – sem ou com aviso prévio – dará fim ao seu sofrimento. Tanto fará, então, que tenha padecido seu temor ou sido a ela indiferente. A morte (cuja consciência, ironicamente, tantas pequenas “mortes” em vida e tanta tortura tenha causado àquele que a temia), não faltará ao encontro, tenha sido ou não convidada.

E esta consciência da morte se fez tão profunda que todas neuroses dela são filhas e ao seu redor se organizaram todas expectativas e desgraças da espécie humana.

Mais tarde, quando surgiu a consciência explícita de que da cessação das trocas biológicas (a alimentação) pode advir a morte, e se instalou a noção de sobrevivência – que depende da reprodução contínua e diária dos modos de subsistência – alguns espertos se aproveitaram de tais noções para escravizar e submeter de todos os modos (da escravidão aberta à servidão assalariada) a maioria da humanidade.

E as religiões organizadas, cúmplices dos auto-proclamados senhores prevaleceram-se do desejo de sobrevivência ao corpo físico da mente consciente para regrar-nos, em favor dos “poderosos” a vida “terrena” em vista de uma pretensa existência espiritual futura, que será de gozo ou sofrimento conforme ao seu contrário tenha sido a existência material.

Desde então o trabalho deixou de ser uma atividade livre, lúdica, e até prazerosa, para se converter no calvário das multidões, em nome da tentativa de viver um “paraíso em vida” de uns poucos (aqueles cuja consciência da morte não os tornou de todo apreensivos, mas induziu-os a usufruir todo prazer possível), sob o signo da necessidade absoluta de sobrevivência, numa visão radical que põe a morte a espreitar-nos a cada amanhecer e em cada esquina.

Gravataí, domingo, 9 de janeiro de 2005

Ubirajara Passos

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