O INFINITO DA MENTE ANTE A LIMITAÇÃO FÍSICA


Não, não se preocupem os leitores, que o anarquista aqui não se tornou um idealista cristão ou um defensor da versão vulgar e anti-científica do “poder do pensamento positivo”. Conheço o suficiente de teoria e literatura parapsicológica para crer nas possibilidades “extra-sensoriais” da mente humana, mas não creio que elas derivem de nada além dos “quanta”, elétrons e átomos que nos fazem e muito menos possam ser manipuladas pela simples evocação de qualquer fórmula mecânica e formal de auto-condicionamento psicológico e sugestão superficial.

O texto que empresta seu título a este post foi escrito há quase dois anos e tem por simples pretensão discutir a contingência dramática da liberdade de nossa mente frente à realidade concreta, e limitada, do canal quotidiano de organização consciente em que vivemos (afinal somos aglomerados de células que possuem conhecimento imediato e manifesto das substãncias complexas, mas não têm a menor capacidade de vivenciar em si a realidade das partículas sub-atômicas que nos compõem).

O Infinito da Mente ante a Limitação Física

 

A mente é dotada de uma capacidade de imaginação, prospecção e criação ilimitada. Podemos, no âmago de nossos seres, antever e imaginar todos o mundos e tempos possíveis e impossíveis e vivenciar realidades, complexas e refinadas, muito além de qualquer possibilidade do mundo material.

No entanto, estamos limitados às possibilidades de nossas moléculas e não temos como romper suas leis básicas, nem quando o anseio e a fascinação de nossos pensamentos, emoções e visões o desejem. Não podemos, ao menos em condições normais, nos transportar até onde se encontra o ser amado ou viajar seis mil anos atrás na Histórias Humana e assistir ao erguimento das pirâmides egípcias.

A condição material da existência, da qual surgiu e somente pela qual existe nossa consciência e nossa mente é, ironicamente, o pior entrave e a maior razão de nossa frustração e permanente ressentimento.

Pois da ditadura íntima de nossas células derivam na convivência humana outras tantas opressões que lhe são conseqüência casual, mas que sem ela não existiriam!

Se não tivéssemos de comer, beber, vestir, respirar, foder, jamais poderíamos ser escravizados, explorados, chantageados e submetidos física e emocionalmente.

A mente consciente é, portanto, mais causa de dor que de prazer (embora os mais inacreditáveis deleites possa nos proporcionar) e, diante da contingência absoluta de animais feitos de átomos, só nos resta subverter os sistemas de dominação e derrogar por nossas atitudes toda opressão que se exerça em vista das necessidades da existência material.

Já nos basta o autoritarismo de nossas moléculas. Não precisamos nos submeter à fantasmagórica supremacia ontológica de seres que são iguais a nós – homens de carne e osso – e cuja única virtude diferenciadora é saber aproveitar-se de nosso desamparo e desespero frente a uma existência híbrida de matéria que se pensa a si mesma – ao ponto de crer na separação de corpo e mente.

Gravataí, 10 de janeiro de 2005

Ubirajara Passos

 

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