O CONTRASTE KAFKIANO


Apesar das bravatas eletorais do Inácio (engolidas pela maioria de ingênuos filhos da mídia, hipnotizados, de cada dia) 20,4% (um quinto) dos trabalhadores brasileiros não recebe sequer o famélico salário mínimo de R$ 350,00. E a renda da maioria avassaladora (84,4%) está abaixo do salário mínimo necessário (constitucional) calculado pelo Dieese (R$ 1.613,05). Os pouco afortunados que alcançam esta cifra rebolam de toda forma para manter as contas em dia e vivem um quotidiano de trabalho e lazer robotizado muito longe das necessidades e possibilidades de um ser humano com real dignidade.

Cada vez que se fala em recuperar a inflação decorrida, no último ano que seja, para trabalhadores e funcionalismo público (muitos amargando o arrocho de quase uma década sem qualquer reajuste), as discussões dos nossos caros políticos alcançam o nível de uma hecatombe nuclear. A própria elevação ridícula do salário mínimo em R$ 15,00 ou R$ 70,00 (propostas, respectivamente, do Inácio e da “oposição” formal) suscita o mais cínico melodrama. Salários, pensões e aposentadorias da maioria que se fode diariamente para mal se alimentar (enquanto cria o privilégio de uns poucos) são vistos como os “responsáveis” pela “crise econômica nacional” e a sua mínimia elevação, muito aquém sequer da corrosão inflacionária, é rechaçada sob a desculpa de que levará o “Brasil” à bancarrota.

No entanto, os amigos do Inácio, capitaneados pelo seu cão de guarda parlamentar (o “comunista” Aldo Rebelo) e o seu “aliado” Renan Calheiros, acabam de aprovar o aumento dos salários de deputados federais e senadores em 100% (número que equivale à inflação total, medida pelo IGPM, desde janeiro de 2000, ou seja dos últimos 7 anos!), que passarão de R$ 12.000 para R$ 24.500,00! E isto sem o menor rubor facial!

A medida, no país da safadeza indexada (que não vale para os trabalhadores, mas está presente como um privilégio dos mandaletes da pequena-burguesia política, encarregados de executar as ordens dos “donos” do Brasil e acomodar a peonada na demagogia), terá seu reflexo nas assembléias legislativas estaduais (cujos “tetos” salariais de seus parlamentares são de 75% dos deputados federais) e câmaras de vereadores.

Ou seja, se a peonada fodida deve fazer o sacrifício de tomar no cu sem vaselina e suportar a diminuição cada vez maior do poder de compra de seus bolsos rotos (afinal é ela a “culpada” do desastre, “quem manda pobre fazer tanto filho”), os nossos ilustres “representantes do povo” precisam garantir o caviar e a foda nos bordéis de luxo (ou na boate gay), sob pena de se ver decretada a “convulsão social”. Nem o PCC é tão competente nas suas “reivindicações” carcerárias apoiadas pelas execuções programadas (no seu terror fascista mafioso).

O contraste é simplesmente nauseante, para não dizer coisa pior, e revela o óbvio, de forma defintiva. A classe política brasileira formal (dententora de mandatos públicos) se constitui num escaninho à parte, entre a população ralada e a meia dúzia de burgueses, a serviço dos últimos, e não é para menos que sustenta, com a pantomima da oratória oca e dos debates “intelectualizados” e demagógicos, a maior injustiça social do planeta. E para garanti-la, às vésperas de proceder a revogação de toda legislação trabalhista que ainda guarda um mínimo de proteção do povo frente à sanha patronal, Inácio e seus amigos fazem questão de conceder ao Congresso Nacional o mimo de um aumento salarial escandaloso e cretino.

Qual deputadinho fru-fru, por mais radicalóide que seja em seus discursos, terá coragem de se contrapor às “reformas” sindical, trabalhista e previdenciária planejadas por Lula, com um presente de Natal destes?

Não fosse a maioria do nosso povo vítima de uma passividade proverbial, empenhada ferozmente em “obedecer” e dar o couro no labor penoso (no proveito do sádico patrão), teria a coragem de fazer o que lhe resta diante de uma classe política que “apodreceu” tanto que está morta e surda – vivendo das próprias farras – e tomaria nas suas próprias mãos o destino do país. Porque da corja servil de parlamentares e governantes bem cevada no privilégio, solenemente reverente aos interesses do imperialismo e da burguesia nacional, nada mais a de se esperar.

Ubirajara Passos

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