AMOR LIVRE OU ROMANTISMO AUTORITÁRIO


O texto que segue é uma reflexão aberta e inconclusa sobre amor, que espelha, desde que o escrevi, a minha contradição íntima entre libertarismo e ideais de paixão introjetados da ideologia romântica ocidental.

AMOR LIVRE OU ROMANTISMO AUTORITÁRIO

Que maldição é esta que, apesar de toda liberdade sexual em que creio, me mantém aferrado ao ideal de um amor sexual romântico e apaixonado, exclusivista e tão rígido que pressupõe uma idéia de eternidade e destino? E é sobretudo eivado de um sentimentalismo exaltado e maníaco?

Examinado sob o frio olhar da razão materialista, o meu comportamento romântico só difere da monogamia patriarcal por sua coloração emotiva e sua estranheza em relação às motivações maiores do casamento compulsório tradicional: geração e “adestramento” da prole e organização do trabalho escravo doméstico das mulheres!

Afinal, mais do que o sexo livre – mutuamente prazeroso , desprendido de quaisquer “compromissos” (obrigações impostas pela ideologia institucional) necessários e heterônomos – o que me alimenta o ideal do amor é a paixão que exclui todas as demais aventuras sexuais instigantes com qualquer uma além da “deusa” (que figura o próprio êxtase absoluto e infindo) e aspira a uma permanência eterna. A troca de objeto do exercício sexual e amoroso é para mim o supremo e inaceitável crime!

Isto é paixão ou mera submissão aos padrões tradicionais – casamento monogâmico e indissolúvel e fidelidade absoluta? Padrões estes que são filhos da mentalidade exploratória, dominadora e sádica dos senhores masculinos e não do apego mais ou menos desamparado que desenvolvemos por amigos e amantes em substituição ao seio materno perdido conforme a visão freudiana.

O amor sexual, para mim, deve ser um instrumento de libertação e realização das criaturas e não de opressão e reificação! Mas como fica quando o ser amado tem de estar à disposição de nossos desejos exclusivos e não pode trilhar , por um momento que seja, os caminhos alternativos do prazer com os outros?

Gravataí, tarde de 23 de outubro de 2005

Ubirajara Passos

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