AMARGO MATE DA AMARGURA


A “república” do Valdir, às vezes, se esvaziava (se restringindo a mim e ao dono da casa) e se impregnava de tédio. O poema de hoje é o resultado de um modorrento feriado gaúcho de 20 de setembro, de alguma pretensão “erudição” nativista e da minha mania de poeta.

Amargo Mate da Amargura.

É vinte de setembro e, neste ano,
A mítica bravura escafedeu-se.

O velho espírito revolucionário
Do irredentismo guasca hoje não veio
Me visitar na madrugada fria.

Filho de velhos heroísmos medievais,
Cid defunto a correr mouros de Castela,
Crioulo Tiaraju, Bolívar inca,

Alma fundida no ferro da conquista,
Da crueldade e destemor aventureiro
(Luso ou castelhano)
E nas profundezas melancólicas do Pampa,
A lamentar a extraviada liberdade
(Índio e gaudério),

Que só deixou vestígio no vento principal
(Hoje Minuano gélido e impávido,
Ontem arisco e hábil cavaleiro),

O arquétipo teatino, o guerreiro
Rebelde, mas atávico,
Encarnação da independência absoluta
Abandonou-me nos braços da tristeza

Brasa dormida transmutada em cinzas,
A minha alma perdeu todo o entusiasmo
E se debate na amargura infrutífera,
Sem criar forças no amargo mate.

Mas o meu desconcerto não é imposto
Pelo fado do mundo em que existo,
Embora ele se alimente da injustiça
Que me reduz a objeto do sadismo alheio.

É a minha própria incoerência encarcerada
Que se nega, absurda, mas eficiente,
A abandonar-me,
É a impotência perplexa e auto-imposta
Que não me permite romper a couraça!

Porto Alegre, 20 de setembro de 2003.

Ubirajara Passos

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