ANGÚSTIA


Por mais que a minha mente se ocupe de mil assuntos, sempre há aqueles momentos em que o tédio e a falta de sentido me invadem sem trégua. O poema de hoje é um retrato típico destes momentos:

ANGÚSTIA

Tédio infinito que me fere a alma,
Melhor seria a morte completa
Do que viver cada segundo inútil
Na angústia de abreviar o tempo,
Na obrigação de suportar o instante morto
Cumprindo o protocolo de existir.

A extinção do próprio ser é bem terrível,
Porém pior do que ela é odiar a vida:
Querer eliminar tempo do que resta,
Gastando o saldo insosso de existência
Na náusea sem limites dela mesma.

Também a dor cruciante clama à morte,
Como remédio único aos seus transes.
Mas ele mesmo, o sofrimento desmedido,
É mais benéfico, ainda, que tu, tédio –
Maldito algoz que nulifica a alma
E faz-me em vida morto, conscientemente.

Por que não vens, ó Tânatos cretino,
Num golpe inesperado o ser furtar-me
Deste vazio que injustifica tudo,
Ou, pelo menos – como a covardia
Não me permite o próprio suicídio –
“Assassinar este poema horrível?”

Gravataí, 20 de setembro de 1999

Ubirajara Passos

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