ÁUREO FANTASMA


Se no último poema publicado se encontra a mulher “abstrata e universal”, a característica psicológica primária que se identifica com o modelo construído concretamente no imaginário social do “feminino”, no poema de hoje trato da mulher de carne e osso, ainda que envolta na meia-luz da fantasia.

Como os leitores devem ter notado, os meus poemas anteriores a 1997 padecem de um certo formato “clássico” (no sentido de corresponder a grandes modelos pré-estabelecidos e consagrados) e distante do quotidiano. Pois foi com este poema que os eventuais leitores da época, colegas de trabalho e alguns amigos, reconheceram, pela primeira vez, a mudança do meu estilo para algo mais vivo e próximo da sensibilidade sem frescuras.

ÁUREO FANTASMA

Era pura poesia aquele anjo
Do céu caído. O ar dormente, vago,
Com que encarava o mundo a sua frente
Prometia-me mil êxtases celestes,
Na aura loura de sua cabeleira,
Em que, transparecendo, o luar dourava-a.

Quanto mistério, quanta dor profunda
Vive, ignota, talvez, sob esses cachos.
Quanta lágrima ardente, sufocada
Na quotidiana opressão, quanta desgraça…
E eu, no entanto, só via, em sua beleza,
A encarnação apaixonante do sublime.

A realidade nunca saberei.
Os meus próprios recalques, o clamor
Paralisante da rotina me deteve
E deixei-a ir sem abordá-la.
Da linda mulher de carne e osso
Restou somente o eterno enlevo do momento.

Gravataí, 19 de julho de 1999.

Ubirajara Passos

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