UM POEMA INTIMISTA REBELADO


Compromissos partidários e sindicais, alguma farra e ressaca me impediram de escrever alguma coisa neste blog desde a eleição do Inácio. Assim, segue-se um poema que espelha um pouco o meu (mal) humor após a agitada e dramática última semana:

!

O sofrimento me gerou
E ele me levará!
Foi a frustração absoluta e pétrea
Do mundo-cão, a cada sonho ingênuo e bem-intencionado,
Que construiu-me tal qual hoje eu sou!

Sentir na própria pele o frio da impotência,
Bater no muro da indigência a cada instante,
Foi este o fado de que resultou
A minha inapetência prática, inflada de vaidade.

O mundo indiferente e frio,
Forjado na mais absoluta
Precariedade, que cria coragens
Onde o vacilo é o próprio suicídio,

Exigiu-me, sob pena de naufrágio,
A impassibilidade irretratável…
Filho da violência,
Da imposição cínica e nua,

Só o viver sem viver,
O cinza sem sentido,
A emoção nula
“Habilitou-me” a vegetar,
Besta babona e cheia de “deveres”,
Sobre a telúrica esfera mal-contida
De fogos sensuais, em cujo ventre,
O tesão possui a densidade
Dos mais pesados metais que se conhece.

No entanto, em tortura revolvendo-me,
Ainda acredito no entusiasmo fácil,
Ainda creio na ativa liberdade,
Na rebeldia gaiata e enlouquecida
Dos mais irreverentes “loucos”.

Porto Alegre, 20 de julho de 2003

(2)

Ainda creio na “futilidade”
Que lança ao ar o grave peso da opressão
E, maliciosa e zombeteira, nos revela
A face cômica, o rídiculo dos “senhores”.

As boçais feras adestradas na tortura,
Na imposição de seu domínio escravizante,
São implacáveis e não há como escapar
Ao gládio frio e cruel dos seus “castigos”,

Mas basta, em frente
A suas retorcidas máscaras,
Brandir a arma débil do deboche
Que, na hipocrisia furiosa e espumejante,
Transtornam-se os algozes impassíveis
E se transformam em bufões inábeis.

Mais que cinismo ou ingenuidade,
O sarcasmo é o único caminho
Aos que, apesar do peso da opressão,
A liberdade e a vontade de prazer,
A vida sem controles das moléculas,
Não abandonou de todo suas aflitas almas!

Gravataí, 27 de novembro de 2005

Ubirajara Passos

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