PARÁBOLA DO AMOR NO PARADOXO


Enquanto curto a modorra de uma depressão cretina, vou mantendo este blog com textos escritos através dos anos. Outro dia, meu amigo Valdir Bergmann (que, tendo criado o seu blog “Farpas” – bergmann.blog.terra.com.br -, estimulou-me a abrir o meu) ironizava-me, diante da discrepância de posts entre nós, afirmando que ele não possui “estoque” literário para atingir a minha freqüência sem necessidade de esforço.

E não deixa de ser verdade, pois pouco escrevi de totalmente novo, salvo comentários políticos e alguns poemas datados de agosto e outubro deste ano, neste blog, que eu pretendia (e ainda pretendo, pretensão é uma cachaça que jamais deve-se parar de beber) se tornasse um exercício diário de prosa, especialmente narrativa. Mas chega de conversa mole, vamos ao poema em prosa que intitula o post:

Parábola do Amor no Paradoxo


Apesar do sentido de pecado, da secreta e irreversível transgressão, pairou sobre eles a despreocupação calma e infinita.

Os instantes tornaram-se mais lentos e, no paradoxo inevitável, cada segundo durava a eternidade. (Não a eternidade sobressaltada que procura no instantâneo da memória o evento fugidio, mas a imersão plena no momento, que extravasa o tempo e dele abdica.)

O constrangimento natural do artifício, contraditoriamente, converteu a cena, de uma farsa erótica fria e não convincente, na naturalidade da comunhão paradisíaca, anterior à consciência da intenção maléfica Havia a excitação e a contenção. A dele o próprio corpo denunciava, ainda que o discurso tentasse flutuar no abstrato.

Ela sentia apenas o êxtase infantil da imobilidade, imersa na banheira, e procurava fingir que não sabia do fogo que ardia no parceiro e que o inquietava, consumindo-o secretamente na melancolia de aproximarse-lhe ao corpo e ver distante a sua alma.

Ele sabia que, não sendo, ao menos conscientemente, objeto do desejo daquele corpo feminino (comum, mas lindo), uma comunhão indizível os unia.

E no rosto “satisfeito” da mulher contida, e na crispada face do apaixonado, podia ler-se a dissimuladíssima poesia e a irmandade d’alma.

Eram ambos exilados do paraíso do amor romântico e neles havia o descompasso entre a nudez compartilhada e seus motivos. Mas, apesar de tudo, havia uma estranha alegria, talvez filha do álcool, porém espontânea e sem sentido imediato, que os irmanava e perpetuava e até o fim dos tempos o gozo pueril daqueles corpos enroscados na banheira, como se fosse o ventre indefinível do nirvana, o próprio paraíso.

Vila Palmeira, 21 de dezembro de 2002

Ubirajara Passos

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