LULA, “O MONOPOLISTA DA LUTA SINDICAL”


Por Ubirajara Passos

Estava consultando o site do PDT-RJ quando dei com o artigo abaixo, que dispensa comentários:

História: Lula não recebeu Benedicto Cerqueira

Ascom PDT
25/9/2006

Luiz Inácio da Silva, então líder dos metalúrgicos do ABC, se recusou a receber o sindicalista Benedicto Cerqueira, também metalúrgico, quando este retornou em 1979 ao Brasil, após 15 anos de exílio. Trabalhista histórico, Cerqueira escrevera carta aberta a Lula cobrando posições equivocadas quando da fundação do PT. Companheiro de Brizola, Benedicto Cerqueira foi fundador do PDT. Vale a pena conhecer a carta à Lula – hoje um documento histórico.”

“CARTA ABERTA DE BENEDICTO CERQUEIRA A LULA

Prezado companheiro Lula:

Em primeiro lugar, receba o meu fraternal abraço e votos de êxito crescente em suas atividades sindicais na defesa dos interesses dos trabalhadores.

Em segundo lugar, desejo apresentar-me: BENEDICTO CERQUEIRA é o signatário desta. Trabalhador metalúrgico desde 1933. Exerci as funções de delegado sindical nas empresas em que trabalhei e fui dirigente da cooperativa dos metalúrgicos. Fui fundador da antiga União Geral dos Trabalhadores de São João Del Rei e participei de organismo similar em Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, de 1933 a 1939.

Em 1953, fui eleito Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Exerci a direção do nosso Sindicato até 1964, quando fui derrubado pelo regime. A partir de 1956, fui o organizador dos sete congressos nacionais da categoria até 1963, como Presidente da Comissão Nacional. Além de muitas outras atividades e os muitos contratempos, prisões, despedidas e de participar da Diretoria da CNTI, os trabalhadores do Rio de Janeiro me elegeram deputado federal pelo PTB. Fui cassado em 64. Estou no exílio há 15 anos, sem que pudesse voltar à Pátria como um trabalhador livre.

Tenho acompanhado, companheiro Lula, a sua trajetória desde o seu aparecimento no movimento sindical e, também, de outros companheiros. Sua evolução tem merecido meus aplausos, embora note alguns aspectos confusos e pouco claros em seus julgamentos quanto às lutas anteriores de seus companheiros. As lutas sindicais vêm de longe. No meu tempo, fomos continuadores de muitos que se sacrificaram até mais do que nós. E as lutas, companheiro Lula, de hoje, são a continuação das de ontem. E assim será amanhã, também, as lutas dos trabalhadores.

Muito breve pretendo regressar ao Brasil e uma das minha primeiras atitudes será procurá-lo para um diálogo aberto e franco sobre a situação brasileira e dos trabalhadores. Estou certo de que muitos teremos a aprender desse diálogo, tanto eu quanto você.

Hoje estive lendo os jornais brasileiros e verifiquei que o companheiro, em sua atuação política, está fazendo críticas aos governos de Juscelino e Jango, e também ao PTB, em suas declarações feitas em Porto Alegre e em São Paulo. Antes, já havia lido outras feitas em Recife. O companheiro tem viajado muito em sua campanha pela criação do PT. Pensei que seria bom escrever esta carta ao companheiro, porque estou convencido de que a maioria destas críticas que vem fazendo são frutos da falta de informações sobre o que passou em nossa pátria, tanto na política como nas lutas dos trabalhadores, que têm uma memória muito mais viva do que muita gente supõe. Eu não desejaria ver os meus companheiros, principalmente um dirigente do seu valor incorrer em erro.”

Por exemplo, veja estes pontos:

1º – Não se pode comparar os governos de Juscelino e Jango com o de Médici. Posso te afirmar que nunca os trabalhadores tiveram maior liberdade para lutar pelos seus interesses que nos governos de Juscelino e, principalmente, no Governo João Goulart, quando éramos recebidos em palácio e em qualquer repartição com consideração e dignidade. Nesses governos, nunca houve violência contra os trabalhadores, a não ser de governadores que não eram do PTB, como Lacerda, Ademar, etc.

2º – É uma injustiça dizer que a sigla do PTB foi um engodo e que o PTB não tinha raízes populares. O Partido Trabalhista tinha raízes profundas no povo. Agora, é só haver liberdade e, não tenho dúvida, voltará a ser o maior partido popular. Há 15 anos vem sendo reprimido, impedido de funcionar. Cumpriu na sua época, antes de 64, seu papel de defensor das classes trabalhadoras. Que os digam os líderes sindicais da época e não os de hoje que não conhecem o PTB. Não houve, em todos aqueles anos, uma única greve em que o PTB não estivesse ao lado dos trabalhadores. Enquanto esteve em jogo o interesse nacional, lá estava sempre o PTB fiel aos seus princípios nacionalistas. Já vi alguém dizer que o PTB foi o que de melhor existiu naquele período como Partido, e eu te afirmo, companheiro Lula, que isto foi uma verdade. O PTB sempre esteve ao lado dos trabalhadores, como recomendava o seu inspirador, o Presidente Getúlio Vargas. E porque, então, todos estes ataques a um Partido que vem sofrendo 15 anos de perseguição?

3º – Quanto à reunião de Lisboa, informo aos companheiro que fui um dos seus participantes. Esta reunião não se realizou aí no Brasil porque muitos de nós ainda estamos impedidos de voltar, amargando duro exílio, e só podemos ser agradecidos aos companheiros que vieram até aqui para se reunir conosco. Melhor seria se pudéssemos nos reunir aí, como vocês estão fazendo tantas vezes e livremente. Assim mesmo, tivemos aqui uma importante representação sindical, principalmente de nossa categoria. Aqui estiveram o Presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Dal Prá; o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio, companheiro Osvaldo Pimentel; o companheiro Derly Carvalho, seu antecessor no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, um dos promotores das primeiras greves após 1964, que vive ainda no exílio, como eu, e tem a lamentar a morte de três de seus irmãos na luta contra o regime de opressão.

4º – Não é de estranhar que o PTB, que recém-começa a reaparecer, ainda não tenha muitos dirigentes sindicais se movimentando. É uma questão de deixar correr os dias, num clima de liberdade, onde os trabalhadores puderem ir avaliando quem são os seus verdadeiros amigos e companheiros. Ademais, o PTB também é o Partido dos camponeses e de todo o nosso povo simples e sofrido que, infelizmente ainda na sua maioria, não está sindicalizado e cuja sindicalização em massa será tarefa nossa, dos trabalhadores e do novo PTB.

5º – O PTB não está surgindo de cima para baixo. Agora estamos recém-começando, como vocês do PT. Os inimigos também poderão fazer esta falsa alegação contra vocês, acusando-os, injustamente, de cúpula sindical, organizando um partido de cima para baixo, viajando de avião e discursando para auditórios de intelectuais. O mesmo que têm dito sobre o programa do PTB, poderiam dizer do programa do PT. Seria a mesma injustiça que estão propalando sobre o nosso programa, porque o PTB ainda não tem programa definitivo. Estamos levantando o assunto, colhendo sugestões, discutindo cada dia mais em assembléias populares, em seminários, até chegarmos ao nosso Congresso Nacional para sua aprovação.

6º – Ao contrário dos ataques que aí estão sendo dirigidos contra o PTB, reforçando as perseguições que sofremos há 15 anos, quero transmitir ao companheiro que, em nossa reunião de Lisboa, votamos uma moção de congratulações pela iniciativa da criação do PT e com todas as demais organizações políticas que venham surgir, vencendo as restrições do regime e principalmente de respeito aos princípios de todas as organizações progressistas.

Gostaria, companheiro Lula, de prolongar muito mais ainda esta carta, mas os muitos assuntos que desejaria discutir, deixo-os para quando eu voltar. Por exemplo, quero participar intensamente, com minha experiência, das discussões sobre o problema das relações entre partidos políticos e os sindicatos dos trabalhadores. Não é verdade que o PTB manipulava os sindicatos como se vêm afirmando. Nos sindicatos haviam companheiros de quase todos os partidos, e alguns nem eram filiados a qualquer partido. O PTB lutou para modificar a legislação sindical. Não tinha maioria para aprovação dos seus projetos no Congresso. E no Governo de João Goulart, todas essas leis opressoras dos sindicatos não tiveram qualquer aplicação. Tanto que funcionou, de fato, a Central Nacional dos Trabalhadores, representada pela CGT, grande aspiração de hoje da classe trabalhadora.

Já me alonguei demais, companheiro Lula, aceite com os demais companheiros o meu abraço fraterno e um até breve do

BENEDICTO CERQUEIRA Lisboa, 27 de junho de 1979.”

Após transcrever a carta do Benedito, o artigo termina com o texto seguinte:

Depois do Exílio, Lula não recebeu Benedicto

O sindicalista e ex-deputado federal Benedicto Cerqueira retornou ao Brasil em setembro de 1979. Neste mesmo ano, aproveitando um encontro entre Lula e um grupo político de Três Rios, no Rio de Janeiro, enviou-lhe um bilhete – através de seu companheiro Getúlio Ribeiro – propondo um encontro para conversarem sobre sindicalismo e partidos de esquerda. Lula não quis, alegando que a conversa “não teria nada a ver”.

Benedicto Cerqueira faleceu, em 1982, sem saber que Lula tinha levado Lisâneas Maciel – amigo e grande companheiro – para o PT, oferecendo-lhe vaga para disputar o Governo do Rio de Janeiro. Benedicto Cerqueira estava doente e hospitalizado e morreu sem saber que Lysâneas, meses depois, disputaria a eleição contra Leonel Brizola. “

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