TÉDIO E POLÊMICAS


Acessava eu o site do companheiro xuxpaxota (xupaxota.com.br), que anda indignado porque seus leitores (inclusive o cretino que vos escreve) não estão colaborando com sugestões para suas enquetes de putaria, e me lembrei de lhe ter sugerido, há uns dois meses, uma safada pesquisa interativa: “Jesus era Pedófilo”? A reação de meu amigo baiano (velho putanheiro que há uma década vive em Porto Alegre) – apesar de toda sua sacanagem – foi de “bom senso”: a idéia não prestava, mas esta coisa de enquete bem que ele podia aprovetar no site.

O detalhe é que a tal perguntinha não havia me surgido, originalmente, como idéia a sugerir pro xupaxota. Outro dia, conversando com um colega de trabalho quase tão pirado quanto eu, recordei aquele trecho do evangelho: “deixai vir a mim as criancinhas”. De imediato imaginei a polêmica que haveria de inflar as visitas a este blog. Afinal, nestes tempos de espetacularismo fácil, meio mundo se impressiona com asneiras do tipo: Madalena fudeu com Cristo (coisa mais óbvia!) e tiveram filhos.

Sem falar no sucesso de mídia do tal “Evangelho de Judas”, que – afora a interpretação gnóstica mais próxima do misticismo cristão original – não traz nada que já não houvesse sido, pelo menos, insinuado nos evangelhos canônicos. Não consta deles que o próprio Cristo teria dito, na última ceia, para que aquele que o trairia, que o fizesse logo? E não está implícito que, na tese da redenção dos pecados humanos pelo suplício na cruz, Judas seria a peça necessária, desejada e prevista pelo “Deus onisciente”, à consecução dos “planos divinos?”

A idéia era, através da brincadeira safada (a insinuação de pedofilia tem tanto apoio no texto bíblico como a suspeita, esta admitida sem problemas por todos que o lêem, do idílio romântico e sexual da Madalena e do “Messias) suscitar o debate em torno do puritanismo anti-sexo e anti-prazer da sociedade ocidental (de que o cristianismo é a base profunda da psicologia e imaginário).

Mas bastou mencioná-la ao círculo de amigos, políticos e sindicalistas que me rodeiam e estes ilustres “filhos da cartilha” (cujo comportamento “revolucionário” se enquadra nos limites “aceitáveis” da mentalidade condicionada de seu “público-alvo”) me dissuadiram do projeto. Eu ia arranjar incomodação da grossa. O mínimo que poderia me acontecer era um processo judicial, sem falar em possíveis reações fanáticas. Podia aparecer até um assassino radical religioso que quisesse me arrancar o couro. E este não serviria nem pra tamborim!

É incrível, mas numa sociedade onde o mito religioso serviu pra fuder gerações de trabalhadores (acomodados na perspectiva de um paraíso na “outra vida” – proporcional aos sofrimentos desta, e apavorados com as punições do inferno – versão teológica amplificada do sadismo de seus amos – reservadas aos “rebeldes” e “egoístas” peões incapazes de amar o seu “senhor”), o simples gracejo com as pecualiriades de seu protagonista é capaz de mobilizar as mais irracionais histerias e amedrontar mesmo os mais inveterados boêmios!

A aura de seriedade e intocabilidade do “Messias cristão” se revela, nesta horas, bem pior que o pretenso fanatismo muçulmano, tão decantado pela mídia do Ocidente. O que só prova a profunda conexão do capitalismo vigente com as mesmas forças psicológicas que geraram a religião judaico-cristã. A repressão de todo prazer e – por conseqüência – a rejeição a todo bem-estar mental e físico da maioria dos indivíduos… para perfeita realização do gozo sádico da classe dominante!

Mas, como todo este discurso é apenas filho do tédio, vai a seguir um poeminha adeqüado a este insosso domingo (que, como todo bom domingo, se não for tedioso, não é domingo!):

Regurgitando o Fastio Meditabundo

Onde estará o tédio?
Nas coisas exteriores,
Nas horas mortas das noites antigas,
No tic-tac dos velhos relógios
Que a eletrônica fria emudeceu?

No enervante contínuo dos instantes,
No automatismo dos gestos repetidos
A horas certas, no sem fim dos ciclos,
Na sucessão das farsas reencenadas
Ou na imbecil rotina a que nos agrilhoamos?

Será a inércia o velho ruminar
De partículas e ondas previsíveis
Que se comprazem em arrotar mesmices
Ou é o produto da nossa indolência,
Desta hipnose auto-aplicada a cada dia?

Gravataí, 15 de outubro de 2005

Ubirajara Passos

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