DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO


Nestes dias de desilução pós-eleição, em que nos resta, pelo caminho da política formal e institucional, escolher entre os canastrões da direita tradicional (os “Geraldos” da vida) e os fascistas vermelhos enrustidos (Inácio e seus corruptos amestrados), cai bem uma reflexão mais geral sobre as formas políticas de transformação do mundo (ainda que tenhamos de estar atentos para evitar o prejuízo maior de dar mais um mandato ao fascismo).

Assim, para desenfado dos leitores, enquanto concerto o meu “aparelho de pensar” (que está se recuperando de uma farra regada à cerveja praticada ontem), lá vai um dos primeiros “SERMÕES NA IGREJA DE SATANÁS”, parido originalmente sem o plano de ser um sermão (4 anos antes d’O Falatório Histérico em Política) e que adaptei após ter escrito os três primeiros

DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO

O Socialismo, o Projeto Revolucionário de Emancipação da Humanidade, deve levar, muito mais do que ao estabelecimento de uma realidade material igualitária, justa e digna da condição humana, à possibilidade de que a vida de cada homem seja uma aventura plena de encanto, de jogo, prazer e liberdade. Muito além, portanto, do utilitarismo economicista e do frio racionalismo do finalismo universal.

Assim, o livre pensamento, o questionamento, a postura do homem em encarar-se como válido em si mesmo são uma pré-condição do projeto revolucionário. O mental e o material se condicionam mutuamente e a emancipação econômica dos trabalhadores, da maioria da sociedade, será uma mera conseqüência de sua autoconscientização, da rebeldia e desafio às regras que lhes são externamente impostas.

Não será operando nos moldes tradicionais, na disciplina absoluta e obrigatória, na autoviolentação diária dos indivíduos que se alcançará uma realidade de plena liberdade, de consciência e realização do homem. O “dever” é uma invenção autoritária e destroçante da intuição e espontaneidade humanas, plasmada por aqueles que julgam-se “no direito” de impor sua vontade sem limites aos demais, em benefício dos seus exclusivos apetites materiais e totalitários.

O mal da praga que são as sociedades de classe, das sociedades exploratórias de todo tipo (capitalistas, feudais ou escravistas), ao contrário do apregoado por um certo “socialismo” vulgar, superficial e hipócrita defendido por pretensos setores políticos de esquerda, não está no “individualismo”, mas num esquema concreto de relações que só permite a plena realização individual – mesmo assim limitada por regras externas preconceituosas e heterônomas – a alguns indivíduos, barrando este caminho aos demais.

O altruísmo cristão extremado, por sua vez, tanto pode justificar uma sociedade solidária, justa e igualitária, quanto servir de suporte à entrega da maioria dos indivíduos – na condição de sacrificados voluntários – aos apetites de poucos, como “servos” convictos.

Não estamos no mundo “para servir uns aos outros” merda nenhuma!

Primeiro porque não há regra, forjada em uma instância abstrata qualquer acima dos homens, que possa determinar-nos a finalidade de nossas vidas. Cabe a cada um de nós construir, na interação com os demais, nossa realidade.

Segundo porque o homem, essa consciência concreta, só pode se realizar em si mesmo. Não sucedendo daí que a realização, a “felicidade” (para usar um termo universalmente compreendido) de uns possa, legitimamente, se fazer sobre o sacrifício da dos demais – o que é válido não somente no campo econômico, mas em todas as áreas da vida e das relações entre os homens.

A condição para o exercício desta violência, para a exploração dos trabalhadores, não está, porém, determinantemente na vontade do explorador, mas no consentimento semiconsciente do explorado.

O que constitui realmente a “propriedade” (uma abstração jurídica, uma regra de coexistência socialmente aceita) em elemento determinante do poder, da “dominação” de uma classe sobre a outra, senão a transformação em realidade concreta, mediante a submissão inquestionada, desta ficção de que alguém possa ser “dono” do trabalho alheio e dos bens materiais por outrem produzidos e, como tal, determinar as condições deste trabalho e da distribuição e gozo de seus frutos porque “tem direito”?

Nem mesmo a força física da minoria privilegiada tem condições de se impor efetivamente sobre a maioria explorada (pois esta, como tal, suplantaria qualquer tentativa de constrangimento) sem o seu consentimento.

A condição para a libertação da humanidade está, portanto, na conscientização (entendida como processo de autoconstrução de visão de mundo, de realidade mental individual), no questionamento, no exercício radical da liberdade pela maioria dos indivíduos.

Liberdade, consciência, questionamento, o auto-dispor de cada um sobre a “sua” vida, eis o “o princípio, o fim e o meio” da emancipação filosófica e política da humanidade. O prazer, o jogo, a realização lúdica da riqueza interior e multifacetária do Homem será sua conseqüência.

Quem disse que só o drama e o sofrimento dão graça, sal e cor à existência?

Ubirajara Passos

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Um comentário em “DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO

  1. Em 06.10.06, às 15:09:02, Vinicius Renato Alves disse :
    Apesar de não concordar com o conceito de liberdade esposado por esse pensar que muito admiro, só tenho a dizer que mesmo não concordando, defendo até a morte o direito que tem de dizeres, até parece que esse pensamento é meu heheheh, abraço mestre!!!

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