LULA, O PROJETO DA “REDENTORA”


Os “gorilas” (assim eram conhecidos na época os generais fascistas que deflagraram o golpe), ao tomar o poder em 1º de abril de 1964, afirmavam cinicamente que o faziam para, depurado o Brasil do “horror comunista”, restaurar a democracia quando houvesse condições de se constituir um governo, diretamente eleito, isento de influências ideológicas “exóticas” nefastas.

Mas, estranhamente, mesmo após formalmente extinto o regime, continuaram a comemorar todo ano, em 31 de março, sua pretensa “Revolução Redentora” em missa solene na catedral de Brasília. Simbolicamente, a ditadura ainda não estava extinta.

E a solene “missa” ocorreu, sem falhas, até março de 2003. Ano em que, sintomaticamente, foi extinta sob o pretexto de que “agora que estava constituído um novo governo e, por respeito a ele, não caberia mais realizá-la” (é só consultar os jornais do dia, como o Correio do Povo – de Porto Alegre, para confirmar esta declaração, feita pelo comandante militar do Planalto).

Daí se deduz logicamente dois fatos óbvios: todos os governos desde Sarney foram (não só na prática, mas na visão dos herdeiros da “redentora”) mera continuação do regime dos generais, de Collor a Fernando Henrique. Embora eleitos “democraticamente”, seus compromissos e orientação eram os mesmos da ditadura (o que é óbvio se examinarmos a administração econômica e a linha social de tais governos).

A segunda conclusão é que, se Lula era o chefe do “novo governo”, para as velhas forças golpistas ele era a esperada redenção “democrática” que justificava a saída de cena, mesmo no plano simbólico (a missa comemorativa) da intervenção militar, pois realizava seus sonhos mais caros. Lula era o governo confiável, distante da “corrupção comunista”.

Mas isto não é mera casualidade! Afinal o Inácio, devidamente “instruído” pelos inspiradores e apoiadores (e maiores beneficiários) do golpe sem graça de 1º abril, os “irmãos yankees”, foi sempre tratado pela ditadura como um bom e obediente filho que era, investido na sua missão de falso líder esquerdista. Quando, apenas 4 anos após o assassinato de Vladimir Herzog pela ditadura, promovia as greves do ABC paulista, seus padrinhos milicos faziam questão de prendê-lo por alguns dias e devolvê-lo, sem um arranhão, às ruas a fim de gerar a bombástica cobertura de mídia que havia de catapultá-lo na liderança de uma esquerda alternativa, capaz de afastar Brizola ou os comunistas da hegemonia das massas.

Não é escandaloso que – apesar do clima de “abertura” da época (que era tão “democrático” que, até 1983, o governo Figueiredo volta e meia prendia líderes “comunistas” sob mero pretexto ideológico) – a ditadura que torturara e matara milhares de opositores, pela simples manifestação pública de sua contrariedade, que intervira direta e fortemente nos sindicatos para garantir a presença de líderes pelegos colaboradores, fosse tão liberal com as greves e o discurso “radical” do Inácio?

Ou será mera coincidência que, às vésperas de sua eleição, o Luizinho recebesse o apoio embevecido de uma das figuras mais funestas da ditadura (o ex-ministro de pastas econômicas, responsável pelo arrocho institucionalizado de salários e pela entrega da economia nacional defintivamente aos grupos imperialistas), o balofo Delfim Neto?

Será fruto apenas da troca de mensalões o apoio incondicional, desde a primeira hora, de ilustres tartufos políticos do regime gorila, como Sarney e Antônio Carlos Malvadeza Magalhães? Não é para menos que o grato Luís Inácio (se igualando historicamente ao ditador Castelo Branco, o único antes dele capaz de enviar tropas brasileiras para servir o golpismo yankee na América Latina – Republicana Domicana, em 1965) faz questão de retribuir a seus mestres e protetores americanos, enviando o exército para oprimir negros miseráveis no Haiti!

Contransenso dos contransensos, a História do Brasil atinge, com o Inácio, a dimensão kafkiana absoluta: o campeão do “socialismo ” e da “ética” se revela o mais servil, burguês e corrupto governo, digno da sacanagem do regime militar e – porque exercido em regime de pleno direito à informação e expressão – escandaloso ao cubo em relação a ela. Macunaíma e o infiltrado cabo Anselmo eram amadores perto do homem dos nove dedos. Uma boa eleição para todos!

Ubirajara Passos

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Um comentário em “LULA, O PROJETO DA “REDENTORA”

  1. Em 08.10.06, às 16:31:03, Arthur Maciel disse :
    Parabéns pelo Blog…
    Dá uma passada lá no meu

    http://essaeaquestao.blog.terra.com.br
    É sobre política também!!!

    Curtir

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