UM POEMA DE AMOR ENGAJADO


Ainda curtindo a fossa de um encontro mal acontecido, segue-se uma reflexão filosófica sobre os desencontros da palavra tão surrada, existencialmente desconhecida, e tão confundida com sentimentos estranhos à sua essência: o amor. Muito ao contrário das suposições românticas e idealistas (de que já comunguei e que hoje, ainda, chamuscam-me as idéias) que nele vêem só paixão, sofisticada, pelo ser amado, justificável além do próprio universo físico – e muito além da visão meramente “material” que o define como simples “atração” física e “necessidade biológica” a ser satisfeita, dissimulados pela ideologia dos sentimentos -, o amor apaixonado entre um casal é a mais sublime realidade na face da terra. Aquele encanto mútuo e aquela intimidade que juntam os corpos (não só os “órgãos”, mas a própria mente, que vive no cérebro e nos nervos) num deleite pelo simples contato de cada centímetro de pele, pela suave pressão de cada músculo de um no outro e não apenas no contato explosivo de caralhos e bucetas.

Encanto este que nos impele a estar junto o máximo de tempo possível, de que deriva um prazer sem fim, ao contrário das uniões forçadas por crença, dinheiro ou mera necessidade de “descarga” do tesão. Afinal não há nada mais grandioso no universo, se examinado do ponto de vista distante da realidade concreta e imediata, do que o fato de dois seres vivos, de carne e osso, só poderem sentir o maior prazer imaginável no contato um com o outro, de uma criatura humana ser ela própria, sem intermediações, a fonte imediata do prazer de outra! Mas vamos ao poema, que não idolatra e idealiza o amor nos dias de hoje, mas problematiza a coisa:

PARÁBOLA DO AMOR INSTITUCIONALIZADO

E eles viram-se e se amaram.
Um só olhar e o arrebatamento
Dominou completamente suas almas.
Um mundo indescritível de fascínio,
Um êxtase hipnótico e total
Explodia no simples contemplar!

Uma adoração embevecida e muda
Paralisou-lhes todo o ser ante a beleza
E não pediam um ao outro, para amá-lo,
Simplesmente, algo além do que existir.

Os gozos profundos de alma e corpo,
As atitudes surpreendentes que despertam
As emoções mais refinadas, os prazeres
Mais enlevantes, os mais estranhos entusiasmos
Completariam, mas não eram necessários
Àquele amor incondicional e obcecante
Nascido no relance de um olhar.

E eles se olharam, no primeiro instante,
E o seu ser todo ardeu apaixonado…
Mas, no segundo instante, os compromissos,
As exigências “racionais” da sociedade
Crisparam-lhes a alma e afastaram-nos.

Saltou a seus olhos o infinito sofrimento,
As dores, as renúncias de si mesmo,
O rosário imenso de incômodos,
O torturante e insosso teatro
Necessários à sua “conquista”.

Quanta cobrança permanente
De glamour, de falsos entusiasmos,
Quanta desnecessária “competência”
Ou sobre-humanas performances,

Quanta fidelidade a espezinhar
O prazer básico de amar livremente…
Quanta exigência antepomos à simples paixão!

Que volúpia tamanha e doentia
Domina-nos para que convertamos
O mais legítimo e puro dos prazeres
Num descomunal vórtice de dor?

Gravataí, 7 de novembro de 1999

Ubirajara Passos

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