OBRIGAÇÃO DE SER FELIZ


Quero agradecer aos comentários postados ontem pelo meu irmão de fé e cachaça, o Nego Dantas do Sindjus-RS, da periferia porto-alegrense e dos incríveis butecos do Mercado Público (quem não conhece o mercado, gaúcho ou não, não sabe o que está perdendo). Muito me emocionaram e me convenceram que o companheiro Jorge Dantas tem bom potencial pra escrever. Basta seguir a sua receita para a vida: dizer as coisas com emoção e tesão, da forma como vêm das entranhas, grávidas de vida e disposição de luta. Escrevo apenas o que a vida me ensinou. Antes eu precisava de mil sistemas e teorias para justificar a existência humana. Hoje sei que a maior ventura é apenas viver, buscar e gozar de prazer e liberdade e, sobretudo, não permitir que nos usem e escravizem impunemente. Em homenagem a tão ilustre admirador segue mais um “sermão na Igreja de Satanás:

Da Obrigação de ser Feliz

Mais infausta ainda que a “infelicidade” objetiva é a felicidade obrigatória e pré-concebida do breviário revolucionário organizado (os partidos e grupos políticos “socialistas” institucionalizados – com autorização, ou alvará de funcionamento – da democracia burguesa ocidental ou do fascismo de esquerda remanescente).

Enquanto o infeliz (no sentido banal e aceito do termo) pode viver seu tormento, e identificar-se como tal, exclusivamente pela noção subjetiva de sua situação (derivada, muitas vezes, dos ideais de felicidade introjetados dos catecismos religiosos, doutrinário-filosóficos, e das prescrições implícitas da moda ou mídia burguesas), o indivíduo submetido aos reclamos iluminados e intelectualóides dos modernos profetas redentores (os ideólogos do bem-estar e conforto produzido em série) estará tanto mais afastado do prazer genuíno e benfazejo, quanto mais se esforçar em atender-lhes as exigências e padrões impostos.

Além de estar fatalmente condenado à desgraça, não terá qualquer oportunidade de alcançar o “paraíso” justamente por tê-lo congelado e normatizado dentro de si. Sua tão almejada ventura, na medida em que corresponder aos planos alheios, abstrusos e “objetivos” dos messias da “salvação” proletária, estará reduzida à frieza dos silogismos e “padrões” pré-determinados, que podem ter toda intimidade com critérios matemáticos e abstratos de excelência e insuficiência, à semelhança dos parâmetros de classificação de um cão ou gato de exposição, mas nada em comum possuem com a realidade e necessidades efetivas de seres feitos de carne e osso, com emoções e percepções próprias, cuja validade se justifique na sua íntima experiência e não em planos etéreos e cartilhas “deduzidas lógica e objetivamente”.

O ideal religioso, explicitamente autoritário e opressor, da salvação da alma justificava a submissão, e o conseqüente sofrimento, da maioria coisificada sob o argumento implacável do julgamento divino – que premiaria ou condenaria os indivíduos em uma pretensa vida futura, conforme estes se resignassem ou não à dominação e à “morte em vida” . Já o imaginário laico da “felicidade coletiva” (mesmo nos raros casos em que não está a serviço do domínio e da exploração velada, típica do fascismo “vermelho”) encobre o desejo de domínio absoluto sobre os mínimos detalhes da vida alheia sob o argumento do altruísmo de seus gurus.

Os “apóstolos” agnósticos da revolução autoritária (que hoje são, em sua maioria, inofensivos e devotados “socialistas democráticos” – e não “comunistas totalitários”) não pretendem manter as multidões oprimidas acorrentadas à uma existência inexoravelmente degradante, sob a desculpa da determinação extra-humana de deuses e princípios. Ao contrário, proclamam, aos brados histéricos e altissonantes, sua total devoção à “felicidade” humana! E, para que ela seja plena e infalivelmente assegurada, planejam, na solidão e aridez de seus gabinetes (modernos ermitões ateus), cada atitude e condição íntima do quotidiano de seus “beneficiários” para que estes não “se percam do reto caminho” rumo à realização programada.

Querem ardentemente um paraíso na Terra, e não num falso Além, mas um “paraíso” não “caótico” e “anárquico” (sujeito ao ao arbítrio das suscetibilidades individuais) que ponha em risco a perfeição de seu programa; um “paraíso” racional e “responsavelmente” determinado por suas brilhantes mentes, longe do qual não há qualquer possibilidade de “realização do ser humano”. Assim, como caudatários racionalistas do velho totalitarismo da sociedade de classes (“purificado” de irracionais e “preconceituosos” ideários monárquicos, religiosos e metafísicos) os nossos novos salvadores da humanidade “mensurarão” a “felicidade” de povos e grupos segundo índices “objetivos” de “desenvolvimento humano” – tais como o percentual de alfabetização, mortalidade infantil ou a “renda per capta” de determinada sociedade – e providenciarão para que seus “governados” se encaixem nas melhores estatísticas fixadas, pouco lhes importando o íntimo grau de satisfação e liberdade dos milhares e milhões de pessoas a eles submetidos.

Para nossos beneméritos novos “pais da humanidade” o acesso às mínimas condições materiais (como energia elétrica e água encanada) e culturais (o domínio do be-a-bá e da matemática), ou a “regalia” de possuir na residência um moderno aparelho de DVD, justificam a servidão humana, seja através da escravidão assalariada capitalista, ou – na melhor e mais remota das hipóteses – de um socialismo “coletivista” onde cada um, mesmo garantido o maior e mais justo bem-estar a todos, esteja submetido a interdições e prescrições de pensamento e comportamento. Esteja jungido a modos de sentir, raciocinar, gozar e agir pré-determinados e heterônomos – sem qualquer direito ao questionamento e originalidade na construção de sua biografia – sob a pretensa “necessidade” inapelável de regramento da vida (cerceamento e “fossilização” de todo movimento mental e emocional expontâneo) para a mais perfeita “harmonia” e “felicidade dos homens”.

Estas normas se apresentam como a encarnação mais perfeita e irrefutável da lógica, totalmente alheias a crenças e preconceitos irracionais. Mas sua pretensa raiz científica e especializada é justamente a face visível de seu estranhamento do raciocínio livre e isento de arbitrariedades derivadas da vontade de domínio.

Tal utopia de felicidade outorgada pretende validar o jugo de nossas vidas ao conhecimento de Psicologias, Sociologias, Economias, Éticas etc. gestadas segundo o ponto de vista totalitário e “não-envolvido” de seus “iniciados”, mas sem qualquer intimidade e participação efetiva de nossas emoções, percepções e pensamentos individuais. Sua transformação em realidade nos reserva a alegre e espetacular condição de autômatos infalivelmente programados.

Ubirajara Passos

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