AMOR, NOITE E MADRUGADA


Após dias de muito trabalho como militante sindical e político (estive escrevendo panfletos e trabalhando em uma festa do PDT), que me impediram de chegar perto deste blog, lá vão uns três poeminhas para que os leitores não esqueçam que ele existe:

MULHER-NATUREZA

(anima mundi)

Em teu regaço deitei minha cabeça,
Extemporâneo guri recém-desperto
Do pesado de décadas de incômodos
E, outra vez lactente, embalado
Na doce preguiça,
Megulhei no êxtase
Da imobilidade satisfeita!

Todo o ímpeto embriagador e excitante
Das tuas tempestades, o intenso
Clamor do frenesi a reclamar
Os mais punguente gozos, os prazeres
Mais exaustivos que reprimes no teu seio

Pouco valiam frente à placidez
Envolvente
Da tua ternura sonolenta e mole,
Casual, displicente, mas profunda,
Bem mais autêntica que os arrebatamentos.

Porto Alegre, 18 de agosto de 2002

Ubirajara Passos

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NOITE

Espelho dos mistérios invulgares,
Que nos exila do mundo circundante,
Faz nossos passos trõpegos, embriaga
Nossas almas no luar
E no vinho, nossos corpos,

Tu nos roubas a luz plena do real
E, enquanto nos imerge em teu escuro útero,
Nos faz viajar ao profundo de nós mesmos
E, exilando-nos do mundo humano,
Nos conecta à imensidão do cosmos.

Só tu, noite do desconhecido,
Senhora dos medos e surpresas,
Só o teu breu espesso revelar-nos pode
O mais real, maior que nós,
O mar sidéreo onde espaço e tempo
Confundem-se, em que astros já extintos
Brilham acima de nós, na luz que viaja
Do nascimento do universo até o agora!

É no teu seio
De êxtases e sonhos
Que retornamos
À essência de nós mesmos:
O pó de estrelas de que somos feitos,
O luar prateado de nossas fantasias
E a imobilidade no teu ventre,
Mãe primeva nossa e do Cosmos.

Gravataí, 29 de maio de 2005

Ubirajara Passos

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A OMAR KAHYYÁM

O prazer não é irmão da alegria –
Ao menos da alegria fútil,
Dessas que encontra-se em bailões
Ou em boates “fashion” badaladas.

Mesmo sombrio e grave,
Há mais deleite
Na mesa de um buteco,
Em madrugadas

De cabarés despretensiosos,
Na conversa
A toa,
Nas rodas de amigos

Que os anos confundiram entre si
De tal maneira
Que as anedotas já não têm autor
E os grandes porres são domínio público.

Vila Palmeira, 5 de junho de 2004

Ubirajara Passos

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