DA REBELDIA SAGRADA


Mil perdões aos leitores pela preguiça dos últimos dois dias. Logo em breve estarei publicando uma série de crônicas, contos e comentários sobre o Luís Inácio (Lulinha, “o eruditchio”) e mais algumas “safadezas”. Por enquanto, saboreiem mais um ”SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”:

DA REBELDIA SAGRADA

A liberdade, a autonomia de pensamento e ação, a consciência (tanto a derivada da reflexão racional, quanto a verbalização dos sentimentos e emoções mais autênticos e profundos) não nos garantem o prazer, a ausência da dor e a felicidade. Mas sem elas não há qualquer possibilidade!

Quando os acontecimentos e questões que nos dizem respeito são decididos por qualquer outro que não nós mesmos, ou porque qualquer instituição na qual não temos a menor ingerência prática (ou agimos sob tais influências), a única certeza que podemos ter é de que viveremos segundo as inspirações, humores, apetites e interesses alheios e que, salvo um imponderável lance de sorte, 99,99% das vezes estes não coincidirão com os nossos e não levarão a outro caminho que o da infelicidade e do sofrimento.

Nem mesmo o mais desinteressado amor de mãe poderá nos conduzir ao conforto ou ao deleite de uma vida válida e instigante se impuser os seus critérios e sonhos ao nosso roteiro pessoal, pelo simples fato de que eles são o produto de suas vivências e não possuem qualquer intimidade com os nossos processos subjetivos de sentir e pensar, por mais universais que possam ser!

Infelizmente, embora a experiência incontestável demonstre uma unidade nos modos de raciocínio e conhecimento imediato, comum a todos os seres humanos, pela mera contingência de sermos criaturas individuais (corpos limitados, separados uns dos outros, nos quais toda experiência mental se dá “dentro” do cérebro e dos nervos de cada um), as mais indubitáveis “verdades universais” (mesmo aquelas sem as quais nem mesmo poderíamos nos comunicar) só existem como realidade à medida em que se tornam “verdades para nós”, pela construção interna que as impregne de algum sentido além da aceitação frouxa e acomodada da tradição ou do “costume” inquestionado.

Isto é suficiente para renunciarmos a toda passividade de comportamento, por mais prazeroso que seja o deixar-se conduzir, imóvel e cômodo, no fluxo inerte dos dias e das noites, do vento e da chuva, das fofocas de esquina ou dos escândalos e maravilhas do imaginário jornalístico.

E, desde o momento em que resolvemos seguir nossos insights e asneiras auto-inferidas, só podemos realmente ser livres e tentar escapar à fatalidade de nossa condição animal (ainda que só possamos ultrapassar as barreiras da existência material e da morte no íntimo de nossas mentes) se nos colocarmos numa posição de permanente luta e vigilância, em um mundo que está organizado para que sejamos membros do rebanho, sem direito à mais mesquinha individualidade.

Numa sociedade em que a maioria é submetida (com a própria colaboração de seu conformismo) a existir segundo os padrões definidos pelos dominadores (no proveito destes), o exercício do livre arbítrio só é possível como rebelião, pois, a todo momento, estará chocando-se com as regras de comportamento exigidas pela dominação.

Onde há senhores que precisam de autômatos humanos para executar por eles todo o trabalho intolerável e penoso, quem quer se arrogue o direito à própria singularidade jamais o poderá fazer na ingênua crença de ter como justificar sua vida por si, e para si mesmo (uma vez que, como toda gente, é um ser que pensa e sente). Tal disposição é contrária à ordem que nos é imposta e a realização concreta da liberdade só poderá dar-se na forma da rebeldia, já que, permanentemente, os mais diversos condicionamentos e exigências, as mais sutis punições e chantagens, as mais explícitas seduções e sabotagens cairão sobre o indivíduo livre para reconduzi-lo à procissão do fatalismo ou até mesmo ao próprio desaparecimento da Terra, se necessário à manutenção desta ordem.

A cada instante da existência, ou nos opomos às ondas construídas pela sociedade hierarquizada e pela opressão de todo tipo (principalmente a das idéias, crenças e condicionamentos jogados sobre nós em prol das mórbidas necessidades de prazer de nosso amos), ou nadamos ferozmente contra a correnteza do poder e da inércia dos subjugados, ou contestamos tudo o que não seja genuíno e são (que não nasça do âmago de nossos corpos e mentes e a eles não se manifeste como satisfação e gozo), ou nos tornamos rebeldes, transgressores de toda ética vinda dos poderosos e seus adoradores, ou só nos restará o doloroso, e ainda assim inconformável, papel de bufões da inteligência e da liberdade! Mais valeria, não nos rebelando, fôssemos pedras e não houvesse a natureza viva evoluído até nos dotar de consciência.

Ubirajara Passos

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