O MÁRTIR NACIONALISTA


Por Ubirajara Passos

No dia de ontem, 24 de agosto, há exatos 52 anos, um ex-ditador “fascista”, descendente de latifundiários republicanos e forjado na cartilha do positivismo comtiano, rompia o coração com uma bala em nome do direito dos brasileiros, especialmente os trabalhadores, que são a maioria absoluta desta nação, a viver e trabalhar para si próprios, como gente de carne, ossos e emoções e não como meros escravos do imperialismo internacional.

Getúlio (que, embora sempre houvesse sido nacionalista, mal ou bem, jogou – durante seus primeiros quinze anos de governo – com os interesses da elite burguesa e latifundiária nacional) havia se tornado, nos últimos anos de vida, definitivamente um sincero defensor da classe trabalhadora brasileira e um oponente feroz do neo-colonialismo de americanos e europeus, ainda que – dadas as limitações de sua formação social e do jogo político típico da época – não se possa compará-lo a um Fidel Castro ou a um Che Guevara. Seu estilo jamais foi revolucionário, nos termos da mística socialista dos anos 60, mas (na sua característica clássica de manobra política entre os diversos grupos de interesse das cúpulas), foi tão ou mais radical do que aqueles na defesa do nacionalismo e do povinho sofrido, cujo suor e sangue regam o luxo de meia-dúzia de abobalhados burgueses e gerentões de multinacionais, neste país.

Acossado pela manobra mais torpe e moralista dos interesses norte-americanos e entreguistas (representados pela tragicômica figura do ex-comunista Carlos Lacerda), vilmente acusado de estar envolvido na tentativa de assassinato desta versão udenista antecipatória de cínicos Lulas e Genoínos, Getúlio – diante da iminente tomada do poder pelos capachos civis e militares do imperialismo yankee – tomou a única atitude capaz de detê-los. E, com o custo da própria vida, impediu a quartelada da direita histérica e rançosa.

Quase dez anos depois, as mesmas forças que levaram Getúlio ao suicídio deflagraram o golpe de 1964, apavoradas com a possibilidade da concretização de reformas mínimas que pudessem dar uma vida decente ao povo brasileiro, como a reforma agrária, urbana e universitária. A ditadura que dele resultou criou o Brasil da miséria e ignorância absoluta, da total desproteção da peonada diante da sanha dos patrões e dos traidores sob encomenda (os Lulas forjados por Golbery para manter a dominação do povo em nome dos “trabalhadores”) dos dias de hoje.

Nos tempos de Getúlio a pouca vergonha travestida de seriedade conservadora e defensora dos valores tradicionais da família patriarcal escondia, sob tais andrajos, os mais pérfidos interesses anti-nacionais e anti-povo, mas foi desmascarada pelo ato de suprema coragem e coerência de um homem que, pela formação e classe social a que pertencera e pelos hábitos arraigados no exercício do poder, poderia simplesmente ter cedido à pantomima “democrata” das elites golpistas e “composto” com elas sua sobrevivência política em troca do martírio sócio-econômico dos trabalhadores brasileiros. Hoje a mesma safadeza, agora travestida de vermelha e revolucionária (mas que chegou ao poder com o discurso moralista da ética e da “cidadania”, não casualmente aparentado da “austeridade” dos puxa-sacos de yankees e latifundiários) debocha em grande estilo da cara do país inteiro e nos atira as migalhas do bolsa-família em troca de mais vinte anos de ditadura (que é a suprema aspiração do Luís Inácio).

Entre um e outro momento resta a nós, povinho fudido que se esfalfa diariamente nas fábricas, escritórios, lavouras, repartições e lojas, a reflexão necessária para, ao menos, revoltarmo-nos e gritar que somos GENTE e não gado a serviço da sacanagem sádica dos patrões daqui, da América do Norte ou “d’além mar”. E a carta testamento de Getulio Vargas é um instrumento cada vez mais atual para tanto, um desafio, ainda infelizmente não respondido, que expressa no drama de um líder político o drama de um povo e de um continente. Vamos a ela, que ela fala por si, e vale, muito além de seu profundo conteúdo revolucionário, por espelhar o desespero e a coragem de um indivíduo que se sente só antes de consecutar o próprio suicídio do que por ser um “panfleto” político. Sua humanidade é comovente e transcende a mera retórica do poder e da politicagem:

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás. Mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até quinhentos por cento ao ano. Nas declarações de valores do importávamos existiam fraudes constatadas de mais de cem milhões de dólares por ano. Veio a crise do café. Valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportado em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e por vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas este povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma, e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”

Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1954

(a) Getulio Vargas

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Um comentário em “O MÁRTIR NACIONALISTA

  1. * Em 31.08.06, às 07:39:52,
    * xupaxota disse :

    Karíssimo companheiro, não lembro de já ter lido antes a carta do Getúlio. Pelo que li, me pareceu que o mártir tinha complexo de Jesus Cristo. Em verdade vos digo: não existe político em quem se votar que tenha a abnegação no saudoso mártir. Abnegação duvidosa, pois mesmo no suicídio, pensou mais nele e na possibilidade de ser lembrado como mártir, do que no povo. Escolheu o mais fácil, o melhor para si. Não vejo uma solução para a questão política da atualidade, até porque as pessoas que se candidatam a cargos públicos têm um determinado perfil que não é o ideal para um político verdadeiro. É um perfil de criminoso. Ninguém está preocupado com o povo, apenas com si mesmo, com o próprio bolso. O povo que se foda, que se vire, assim como ele próprio – político – está se virando. Por mais que eu procure, não vejo em quem votar. Acabo escolhendo o que penso ser o menos ruim, mas que certamente continuará a fazer o que qualquer outro político faria: cuidar com muito zelo do próprio bolso.

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