DA NATUREZA POLÍTICA DAS SOCIEDADES EXPLORATÓRIAS


Enquanto me curo da ressaca de champanhe (ando um bêbado chique ultimamente, ainda que o “espumante” seja daquele baratinho de R$ 5,00), deixo com os leitores mais um “Sermão na Igreja de Satanás”:

DA NATUREZA POLÍTICA DAS SOCIEDADES EXPLORATÓRIAS

Embora os nossos ilustrados revolucionários igrejeiros creiam piamente que todo drama do capitalismo consiste na “má distribuição de renda”, a mais banal e oculta (para os seus compassivos olhinhos) verdade é que, como todas as outras formas de sociedade de classes, a atual nada mais é do que o exercício da velha e boa pecuária aplicada à manada humana. Concentrar toda luta social na reivindicação de salários dignos supõe implicitamente a possibilidade da existência de patrões bonzinhos e reduz a revolução à expectativa infantil de uma oração ao Senhor para que nos dê uma boa burguesia, que nos faça felizes e não nos deixe passar fome”.

Ainda que o capitalismo esteja impregnado da psicologia da classe que, historicamente, lhe deu origem (cuja fé concentra no deus-dinheiro toda devoção), a sua essência em nada difere do escravismo ou da servidão feudal, a não ser na ausência dos pés acorrentados (a qual é mais produto da rebeldia parcial dos “explorados” que da vontade burguesa) e do título formal de vassalagem.

A mentalidade burguesa, filha das incertezas materiais de indivíduos que no Ocidente medieval encontravam-se à margem do sistema produtivo predominante, dá à atual sociedade de classes a cor da marcha ferozmente competitiva e ávida pelo progresso da riqueza (ou melhor, do butim)… do capitalista! (o senhor de escravos ou de feudos já se contentava em ter à sua disposição uma horda de rezes falantes que realizasse por ele todo o trabalho e lhe permitisse integral dedicação ao ofício da vadiagem). Não é, entretanto, o simples exercício da “esperteza”, e a vigarice herdada dos velhos mercadores (cuja sofisticação das técnicas se constitui na moderna gestão econômica), que permite aos ladrões protegidos por lei (com registro na Junta Comercial) sua posição sócio-econômica.

Como seus antecessores de outras eras, eles não possuem poder porque nos roubam, mas nos roubam porque se fazem poderosos. E sua pilhagem se mantém intocável através dos tempos porque não se resume à expropriação do que produzimos com nosso trabalho, mas porque nos roubam a própria vida, o tempo, os braços, a mente, convertendo-nos em sua propriedade!

Pouco importa se o “contrato de emprego” se constitui em compra, troca de serviços por “proteção”, ou aluguel, porque seu objeto não é apenas os braços, o cérebro, a buceta (ou tudo isto, no caso de uma santa esposa e “dona de casa”), mas todo o nosso ser e (ainda que não o percebamos) pelo tempo integral de nossa existência quotidiana.

Esta é a realidade num mundo em que a maioria de nós não possui tempo, dinheiro ou disposição para o prazer, o amor, o sexo, a doce e instigante gandaia de noites bêbadas e boêmias, ou mesmo a mole ternura familiar e a descontração satisfeita de uma conversa à toa, pelo simples fato de que a rotina exaustiva e obrigatória de trabalho que nos impõem os nossos senhores e as migalhas da riqueza que produzimos, e nos é devolvida em forma de “salário”, não o permitem, e não por nossa opção.

Bem observada, a nossa existência se resume a trabalhar e prover os meios de nos manter em pé e preparados para produzir, enquanto a classe que se arrogou o direito de organizar, e carrear em seu proveito, a produção econômica necessária pode viver, dentro das limitações que lhe impõe o próprio exercício do domínio, todas as possibilidades que a aventura da vida consciente de si mesma lhe permite.

Ou seja, não apenas na vontade e concepção de nossos dominadores, mas em nossas próprias atitudes habituais, em momento algum justificamos nossas vidas além da simples sobrevivência, vivendo não para nós mesmos e em vista de nossas necessidades e desejos de animais sensíveis e conscientes. Mas, da mesma forma que os “animais de criação”, toda nossa rotina está voltada para os interesses e necessidades de nossos “donos” e são eles que a definem em detalhes, seja quanto ao ritmo (condicionado pelos horários e dias de trabalho e descanso), quanto às possibilidades biológicas, materiais e mentais (rigorosamente fixadas pela escala de salários, que preenche, no caso humano, as funções da seleção e adestramento de raças destinadas a trabalhos específicos ou exposição: não por acaso um engenheiro ou uma “modelo” de moda têm remunerações diferenciadas das de um lixeiro ou peão de obra), e mesmo quanto às próprias idéias que fazemos do mundo e de nós mesmos (pela via do condicionamento ideológico profundo).

Somos, em suma, os apêndices, as ferramentas necessárias “empregadas” pela burguesia para a geração e perpetuação de seu requintado, vadio e, perfidamente, colorido quotidiano, verdadeiro carnaval de 365 dias por ano, a contrastar com a feiúra e melancolia gris de nossos farrapos e carrancas. Para que a minoria de salteadores prepotentes e maquiavélicos possa gozar permanentemente uma plenitude de deuses do Olimpo nos é imposta, em essência, a mesma e velha condição dos escravos (com a única diferença que, pelas necessidades e interesses decorrentes da moderna tecnologia, nos é dada uma maior mobilidade e uma aparente liberdade), cujas cadeias são ainda mais difíceis de romper que as das correntes físicas, porque disfarçada e fortemente introjetadas na própria alma e com a própria colaboração de nossas crenças.

Já não nos separam em compartimentos para machos e fêmeas, e nem nos retiram nossas crias para a educação impessoal de amas de leite e o adestramento de feitores. Nos permitem ter nossas próprias choças e viver nossas próprias ilusões domésticas, à semelhança das famílias burguesas, e temos liberdade, ao menos teoricamente, para definir a que profissão nos dedicaremos (se seremos cães pastores ou de caça) e em que empresa trabalharemos (a quem nos venderemos). Mas não temos liberdade, em momento algum, para trabalhar o mínimo necessário à manutenção de nossas vidas, nem para decidir qual o grau de sofisticação e prazer físicos e mentais que lhes pretendemos imprimir; se viveremos, dentro das possibilidades naturais, num mundo de alegre e satisfeito jogo, ou nos sacrificaremos em nome de qualquer ilusão grandiloqüente! São os nossos amos quem o decidem, no próprio proveito, e é o poder (calcado nos nossos mais recônditos condicionamentos de obediência servil) de mando (político, portanto) que mantém a vigente tortura universal e inevitável da escravidão assalariada, e não a sua pretensa maior habilidade na negociação de um “contrato” de trabalho entre partes pretensamente iguais.

Enquanto houver patrões, enquanto alguns impuserem na prática, e sob as mais abstrusas fantasias – como as noções de Direito e Estado, aos demais as regras e condições de comportamento e, por via disso, apropriarem-se do produto do trabalho alheio, haverá a miséria, a vida subumana e indigna da condição do mais vil vira-lata, ou, no máximo, a de “touro de exposição agropecuária” (que nem por bem alimentado e tratado, como é o caso da pequena-burguesia , deixa de ser touro e viver nos limites do curral e da mangueira). Ninguém funda uma empresa privada com intenções altruístas e é da própria natureza da propriedade burguesa (que é “propriedade” dos bens alheios, portanto expropriação dissimulada) o desejo de domínio e a conseqüente opressão da humanidade.

Ubirajara Passos

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