DO CARÁTER NEFASTO DA ÉTICA


Como, hoje à noite, o cansaço da avalanche de serviço no foro não me permitiu escrever, vai aí, para que os leitores não fiquem na mão (que punheta literária é coisa braba), mais um dos meus “Sermões na Igreja de Satanás.

DO CARÁTER NEFASTO DA ÉTICA

Mais do que todas as dores e incômodos físicos, constrangimentos e humilhações psíquicos possíveis, a noção de culpa é, historicamente, a mãe dos maiores infortúnios que sofremos. Diversamente daqueles, que podem ser completamente involuntários, ela só pode existir, nos atormentar e induzir-nos às atitudes mais prejudiciais a nós mesmos, pela colaboração de nossa vontade e pela aceitação convicta dos preceitos e proibições com quem somos bombardeados desde a mais tenra infância.

Não é a transgressão destes (que, ao contrário de nossas suposições moralistas, constitui o único modo possível de atingir a felicidade) a responsável pelos desconcertos e tragédias públicas e subjetivas da atual humanidade, mas (por mais absurdo que possa parecer aos denunciadores de escândalos – os modernos ratos de confessionário) justamente o empenho angustiado e intenso com que nos impomos as mais infelicitantes regras, em nada derivadas da necessidade de bem-estar inerente a todo ser vivo, mas filhas do sadismo institucionalizado.

Bem ao inverso do que engolimos diariamente boca abaixo, a “moral” e a ética não possuem qualquer relação com a “harmonia” ou o “bem de todos nós”, mas se constituem, antes de mais nada, num conjunto de imposições e proibições absolutas que – pela sua simples natureza impositiva (acima e a parte de nossas necessidades, raciocínios, sentimentos ou decisões) – necessariamente se opõem à nossa legítima e inquestionável condição de seres conscientes e pensantes.

Se – afora seu caráter autoritário – examinarmos a fundo o conteúdo do que normalmente nos é recomendado em seu nome, verificaremos que a “ética” em muito pouco difere dos modos formais, mecânicos e rígidos de comportamento das “festas” aristocráticas de todo tipo (das velhas orgias “hierarquizadas” do escravismo – onde o prazer sádico dos senhores era absolutamente livre para satisfazer-se no lombo dos “criados”, mas o papel destes era pré-determinado e jungido às taras de seus amos – aos insossos saraus burgueses do século retrasado, devidamente macaqueados da velha nobreza feudal).

Ou seja, não passa, no fundo, de etiqueta, cuja natureza objetivamente irracional, injustificável e indiferente à essência das atitudes que pretende normatizar (da posição dos talheres à mesa à rigidez da ordem unida e das continências e cumprimentos em quartéis, hospícios e escolas) tem por objetivo nada mais nada menos que garantir a nossa cordada e sobressaltada submissão aos nossos “donos” (os “proprietários” de todos os matizes – dos capitalistas senhores de esposas e “empregados” aos feitores de escravos “executivos”, “gerentes” e simples peões “chefes de família” – tão dominados quanto todos os demais trabalhadores, mas a que a moral tradicional da burguesia garante uma parcela de “autoridade”, nem que seja sobre o seu cachorro) para conforto e satisfação de seu domínio sádico.

A própria idéia de que possa existir legitimamente um conjunto de regras de “comportamento” (uma moral) não derivado da consciência raciocinante e dos sentimentos de cada um nós, mas que justifica sua validade (e a necessidade de nossa “obediência” a ele) na sua característica impessoal e abstrata, além da existência concreta da humanidade, trai a sua verdadeira origem e finalidade. Ao invés de verdadeiro “deus”, eterno, anterior aos homens e deles independente – como se pretende apresentá-la na sua forma mais “intelectualizada” e filosófica – a ética é apenas o manual de domesticação e adestramento do rebanho humano para que seja dócil ao domínio da classe exploradora.

Justamente por estar a serviço de nossos subjugadores e dos bretes a que nos submetem, suas normas se apresentam como inflexíveis, ilegitimando qualquer circunstância que não se encaixe estritamente em seus padrões, e revestem-se de uma perversidade que assimila o prazer ao “mal” e ao “pecado” (a imperdoável quebra mística da “lei” ou do “mandamento”) e identifica o sofrimento (o da classe explorada, evidentemente) com a “virtude” e o “bem”.

Outra não é a razão da pretensa “imoralidade” do sexo, ainda subjacente em nossas mentes modernosas, das noções de “honra” (orgulho pessoal revestido de pretenso altruísmo) e “probidade” que implicam na prioridade do cumprimento dos “compromissos assumidos” (sejam eles de caráter explicitamente financeiro, como os empréstimos que devem ser pagos, ou economicamente implícitos, como o casamento compulsório que não deve ser rompido), ainda que dele derive a miséria e a fome de quem teve de emprestar ou a infelicidade emocional do cônjuge cujo fogo amoroso e sexual extinguiu-se, mas não pode separar-se em nome da “integridade psicológica da prole” ou da própria “moral sexual” abstrata. Não é por acaso que tais “crimes” ou “violações” da sacrossanta ética atingem justamente os interesses maiores de seus criadores: a sua sanha de riqueza (em razão da qual os crimes contra a “propriedade” burguesa dos bens alheios são em geral punidos mais severamente que os contra a vida de outrem) e a utilização dos seres humanos como coisas em favor de seus recalques e prazeres sádicos.

É este caráter de verdadeiro adestramento de bois e cavalos – disfarçada sob os conceitos de “dever” racional, dos “bons costumes”, do “bom senso” e do “temor a Deus” (ou seu substituto, a moral laica abstrata) – da ética que desmascara sua contrariedade à nossa legítima integridade biológica e emocional (o que a faz a maior mãe dos sofrimentos psicológicos). Ela é um sistema de prêmios e punições, que castiga os que não se submetem ao auto-flagelo e não reprimem suas legítimas necessidades de prazer e bem-estar de corpo e alma (para contemplar as mesquinhas “necessidades” de fausto, pilhagem e ócio dos donos da sociedade) e mima com o mínimo de conforto a que tem direito (quando não se limita a “reconhecer-lhes” a “honradez” e precedência de “operário padrão”, “pai de família exemplar” ou “esposa ‘honesta’ e dedicada”) os que permitem lhes seja aplicada a canga e as rédeas.

Afinal, o que significa a “honestidade” para um operário senão a absurda crença de que deve se esfalfar oito (ou mais horas) trabalhando arduamente para produzir riquezas capazes de sustentar dezenas de homens com o suficiente a uma vida digna de gente (de carne, ossos, mente e emoções e não simples zumbis) – quando ele próprio pode no máximo manter-se em pé trabalhando com o rendimento de fome canina? Significa o dever absoluto de não furtar-se um segundo ao suplício a que é submetido em nome da sacanagem institucionalizada de seu patrão e penitenciar-se a cada vez que sua precariedade biológica o obriga a “faltar” ao trabalho por se encontrar “doente”?

Qual o sentido dos remorsos de um empregado de escritório ou funcionário público, cujo salário equivale a 7 vezes o deste peão, quando “engana” o chefe imediato e usa a folga solicitada com a desculpa do médico para encontrar-se clandestinamente com uma parceira sexual, cujas “normas” da sociedade verticalizada impediram-no de constituir uma relação à plena luz do conhecimento público? Ou “subtrai” para uso próprio um simples pacote de “papel-ofício” que nada representa em sacrifício econômico para o patrão, mas falta ao filho estudante e pesa no orçamento da família? Significa expor-se à permanente condição de criancinha de 2 anos, submetendo-se a “puxar o saco” de um chefe de setor qualquer, balbuciando os mais cretinos elogios ou calando às mais absurdas afirmações de superioridade de criaturas muitas vezes mais medíocres que uma vítima (irrecuperável) da hidrocefalia?

A ética, qualquer que seja o seu formato alegórico, que nos é imposta sob o pretexto da incontrolável tendência humana à “rebeldia” (que se identifica com a “maldade” por colocar em cheque a dominação), só serve mesmo aos destrutivos e safados interesses dos “poderosos”. E debaixo de seus canônes funestos, filhos do pior ímpeto de redução de seres livres e criativos a meras ferramentas, ela só pode conduzir-nos ao absurdo da psicologia da tortura: se não nos negamos, como indivíduos válidos por si, a servir senhores, se não antepomos o puro prazer de respirar e estar vivo à necessidade do martírio quotidiano, se não rejeitamos deuses abstratos cuja única glória é a nossa própria desgraça, tanto mais “dignos” seremos da prisão a que, por falta de questionamento, aderimos e que é tão moral que sua supremacia importa na vasta legião dos infelizes!

Ubirajara Passos

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