OS DESCAMINHOS DA ESQUERDA BRASILEIRA


Como consta do título deste blog, sou um anarquista “heterodoxo”, o que significa que – apesar de crer que somente a liberdade e o prazer dão sentido à vida humana, de ser contrário a toda e qualquer estrutura de poder (inclusive o poder das maiorias convictas sobre as definições de cada um de nós sobre a “própria vida”) – me dou ao desplante, como parte que faço de uma sociedade organizada sob os ditames do “Estado” e da política formal, de opinar e atuar em organizações institucionalizadas como o sindicato e o partido.

E o faço na perspectiva de que (sempre que for possível combater – sem violentar minha crença no direito a não me vincular a crença imposta nenhuma – a opressão a que nos submetem nossos ilustres “donos” e avançar alguns milímetros no espaço de liberdade de cada peão fudido como eu neste país) estou sendo mais “libertário” que qualquer companheiro “purista”, que é tão livre que se sente “obrigado” a não “compactuar” com o “Estado” e seus instrumentos.

Mas, apesar do meu “empirismo” comportamental, jamais perdi (mesmo quando ainda não me conscientizara da cor profundamente libertária do meu pensamento e sentimentos, e me definia como um simples socialista democrático) a aspiração radical de completa transformação da sociedade. Jamais admiti a cooperação com as classes opressoras do Brasil e os fiéis vassalos do imperialismo multinacional, que infelicitam a grande maioria do nosso povo, fosse por que forma fosse.

Para mim a política “formal”, exercida através de mandatos nos governos e parlamentos podia e devia ser utilizada para criar os embates e condições de derrubada do capitalismo, que é propriedade “privada” dos bens alheios e expropriação dissimulada do produto do trabalho de multidões escravizadas de forma velada. Mas sempre soube que não seria através dela que criaríamos uma sociedade livre, solidária (não no sentido do “altruísmo”, mas do aconchego mútuo e espontâneo dos indivíduos) e humana.

Jamais me afastei da noção de que só a conscientização auto-inferida da grande maioria dos indivíduos explorados desta nação (que não se faz por decreto ou adesão acrítica às políticas oficiais da burocracia ou dos partidos registrados no TSE) possibilitaria, pela rebelião concreta a toda dominação, o surgimento desta sociedade.

E com o passar dos anos, me vi no constrangimento de, com esta postura, me encontrar à margem das práticas do meu partido, e da própria esquerda em geral (na qual não incluo o fascismo petista, porque sua coloração vermelha sempre foi uma farsa mal-encoberta sob a capa de um pretenso moralismo “socialista”). De repente pretender a extinção das classes, acreditar na organização quotidiana, e sem manobras, das grandes massas populares, descrer da transformação pela simples via de reformas legislativas parecia, até para mim mesmo, uma visão radical que me estranhava das práticas desta esquerda organizada sob a forma de partidos.

Outro dia, porém, consultando o discurso de Brizola no encontro de Lisboa, em 1979, que deu as definições mestras da reorganização do trabalhismo no Brasil (que foi, até 1964, a única corrente concreta que se opôs, em suas limitações ao capitalismo colonial vigente no Brasil), me dei por conta que eu, então piá de 14 anos, havia, até hoje, apenas me mantido fiel àquelas diretrizes. Lá estavam frases como: “De pouco adiantará que nós trabalhistas amanhã concorramos a eleições, elejamos companheiros, prefeitos, governadores, Presidente da República. Isto nada significará, pelo contrário, será até um retrocesso, se essas responsabilidades na condução do País forem conquistadas sem que tudo isso seja respaldado por um grande Partido, por quadros preparados e por soluções alternativas antecipadamente estudadas. Porque isso seria a condução de um companheiro para um cargo com uma multidão desorganizada atrás.” Ou: “Antes de convidar pessoas apenas para serem candidatos, antes de estar formando chapas, nós temos que organizar as nossas bases, temos que estar no meio do povo, no seio dos trabalhadores, com organismos os mais despretensiosos, modestos, simples, mas esparramados pelo Brasil inteiro. O nosso socialismo não pode estar no horizonte. O socialismo democrático para nós é um objetivo concreto. Vamos construí-lo a cada dia, em cada parte, ombro a ombro com nosso povo”.

Nos últimos 27 anos, desde então, qual foi a prática não apenas do PDT, que cito porque foi o berço ideológico em que me fiz ciente de mim como ser político pensante, mas de qualquer das nossas organizações esquerdistas e “revolucionárias” institucionalizadas? Ao invés de apostar na custosa e ingrata tarefa de organizar o povo, de formar indivíduos pensantes, críticos e dispostos a virar o jogo, simplesmente foi se emaranhando cada vez mais no jogo formal da política burguesa, das panacéias dos Executivos e das boas intenções dos legislativos que querem maquiar o drama dos trabalhadores e desempregados sem tocar na sua raiz profunda (a meia dúzia de privilegiados que nos submete a todos a seu capricho) e pela via mágica da “lei”, num país onde a única norma com força concreta vigente é a bala do crime “organizado” e a tendência do povo trabalhador a “obedecer” e “cumprir as normas”. O peão brasileiro, apesar dos velhos mitos de “vagabundo” é um dos mais cordados, produtivos e acomodados do mundo.

Hoje, o pobre e alienado brasileiro comum (que se fode o dia todo “ralando” no trabalho e se contenta em sonhar à noite com os luxos e mimos dos glamurosos personagens da novela das oito) encontra nos seus defensores “oficiais” (os partidos ditos socialistas ou social-democratas) tão-somente uma tribo de acomodados políticos capazes de produzir verdadeiros temporais nas tribunas parlamentares (ou nem isto), mas que não se permitem o menor deslize da imbecilidade oca e politicamente correta das “políticas públicas”, da defesa das “minorias”, da ética e do combate à corrupção, e que possuem verdadeiro pavor de trabalhar (ou sequer discursar) por temas como reforma urbana, expropriação de grandes transnacionais ou, na hipótese mais mansa para verdadeiros revolucionários, lutar pelo salário mínimo do Dieese (cerca de R$ 1.500,00). Para eles a velha revolução converteu-se na busca de votos a qualquer preço e para atuar, se eleitos, de qualquer maneira… que não coloque em risco o seu fofo conforto!

Se a postura da grande maioria de nossos políticos “esquerdistas”, hoje, espelha covardia, desilusão e abandono de entusiasmo diante das dificuldades de organizar o povo ou, simplesmente, traição é algo a analisar caso a caso e que não pretendo aprofundar neste texto. Mas o fato é que estamos a anos-luz, em 18 anos de vigência da “democracia formal” no Brasil, de qualquer embate político a favor do “povinho”

Ubirajara Passos

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