DE AMOR E FALTA DE ASSUNTO


Este blog foi criado com o intuito de me criar o desafio de escrever diariamente alguma coisa que valha a pena e, quem sabe, me converter num escritor de prosa razoável. Poeta extemporâneo desde os quinze anos de idade (lá vão 26 anos!), nunca escrevi mais que uma dúzia de poemas por ano e tudo em prosa que já produzi (mesmo os textos trabalhados, não meros artigos de jornal para o sindicato, panfletos para o partido ou burocráticas cartilhas e ofícios destas entidades) não ultrapassam uma cem páginas de letra bem gorda.

E, embora me ache um poeta razoável e um bom ensaísta, nunca me aventurei na narrativa além de meus diários íntimos e uma fábula que rumino há mais de um ano (de que só existe, por enquanto, a introdução e um pequeno capítulo), sob o título de “Erótilia”. Assim, este blog deveria se constituir num pretexto para o portador de DDA (outra hora explico o termo) aqui desenvolver hábitos de escrever além da inspiração eventual e custosa. A divulgação de textos e poemas já escritos fazia parte do plano, mas era secundária. Tanto que o blog deveria espelhar um mundo alternativo às minhas elocubrações literárias. Nele eu deveria desfazer-me do personagem quotidiano do meu “eu escrevinhador” e partir para outras pirações.

Mas eis que, ao inverso da tradicional e simples “falta de assunto” de todo cronista diário (que, por pago pelo jornal, acaba escrevendo sobre a própria falta de assunto, mesmo) a coisa comigo é bem pior. Os assuntos, depois que me resolvi a expor-me neste blog, até que voejam, volta e meia, junto com uma folha de árvore levada pelo vento, no caminho diário até o foro. O problema é que, diante da tela branca do computador, eles insistem em fugir e ficam lá, nos remotos recantos da minha alma, a rir da minha cara e dar guinchos homéricos. Creio mesmo que, um dia desses, pilhei (expressãozinha mais velha esta, hein?) um deles se retorcendo e rolando no chão de tanto entusiasmo no deboche!

Mas já que é assim que anda a coisa, divirtam-se um pouco, caros leitores. Que este solteirão embriagado, hoje, quer mais é morrer de tédio… nos braços da deusa da cerveja!

ASNEIRAS DO AMOR

Coisa bizarra, mórbida, o amor.
O que é prazer ou apenas vã promessa
Sacode-nos num vórtice frenético
E põe em ruínas todo nosso ideário.

Não há princípio racional, vantagem
Que, frustrada, nos demova da paixão
Quando nos toma um metafísico tesão.

Se justificam todas as besteiras
E o próprio sofrimento se faz doce.
Um belo rosto, um corpo voluptuoso,
A malícia misteriosa de um sorriso,
E até se vai feliz ao cadafalso.

Gravataí, 25 de outubro de 2000

Ubirajara Passos
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SONETO AOS PEQUENOS CABARÉS

Homenagem saudosa à Cláudia Drink e aos extintos Bagdá Café e Gauchinha.

É madrugada. Corre solto o álcool.
Quem tem um mínimo de assanhamento
Rodopia embriagado no salão.

E os mais embriagados vão ao fundo
De olhos, seios, bocas, coxas,
Tão famintos
Da fantasiosa volúpia, impregnados.

A madrugada é uma promessa de aventuras,
De expedições ao fantástico do gozo,
Mas na profundidade escura dos olhares
Não há o calor de corpos confundidos.

Na angústia disfarçada destas almas,
A gargalhada boêmia é um lamento
Do torturante vazio de suas vidas.

Porto Alegre, 11 de maio de 2002.

Ubirajara Passos

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À feiticeira que me enlouqueceu:

Eu te amo como só os loucos
Ou os santos são capazes de jogar-se
A uma causa irreal perdida no horizonte.

Eu te amo com um amor de vida e morte,
Que, não correspondido, se alimenta do sofrer,
Pouco importando como tu me queiras.

Eu te amo com o ânimo de um doido
Capaz de enfrentar a fúria do universo
Pra te fazer feliz, mesmo eu não sendo.

Eu te amo com a certeza inabalável
De que ninguém amarei com esta intensidade,
De que és a única paixão da minha vida,

E, ainda que distante e rejeitado,
Por mais ninguém, mas só por ti,
Arrebatado, em fogo, eu arderei.

Gravataí, 1.º de junho de 2000.

Ubirajara Passos

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Um comentário em “DE AMOR E FALTA DE ASSUNTO

  1. * Em 14.08.06, às 08:33:05,
    * xupaxota disse :

    karíssimo companheiro, como sempre, acho fantástico o que escreves. o soneto aos pequenos cabarés veio diretamente ao meu íntimo e senti o toque n’alma, assim como o poema que fizeste para a tua putinha preferida (ou amada, se preferires). pena que ela não o veja, ou já estaria indissoluvelmente ligada ao teu incorrigível espírito boêmio. desde a nublada poa, aceite o meu forte e fraterno abraço pelas costas.

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