DO SENTIDO DA VIDA E O SUICÍDIO


A minha cara de pau está cada vez maior (já ia escrever “mais grande”, influenciado por alguns litros de cerveja, e dar a desculpa de que confudira com o espanhol, onde o “más grande” é o equivalente matemático do nosso maior; em castelhano mayor é um sujeito mais velho) e, fudido emocionalmente que me acho te nos últimos três dias, deu-me nas guampas xaropear os leitores eventualmente identificados com igual “reina”. E aí vai não uma reina do momento, como em geral se espera de um blog, mas uma reina que cristalizou-se, em fins de 1999, num “SERMÃO” específico “DA IGREJA DE SATANÁS”. Gracias!

DO SENTIDO DA VIDA E O SUICÍDIO

Repetir, pela centésima vez, que a vida não tem sentido, simplesmente não resolve a questão do vazio em que caímos quando a “vida não possui sentido para nós”, ou a “nossa vida não apresenta qualquer sentido”.

Se entendida a afirmação como uma constatação da falta de finalidade absoluta da vida em geral, ou pelo menos da vida humana, não há aí qualquer motivo para espanto ou lamento. Levado o questionamento ao último grau possível, só podemos concluir que a existência é um processo desvinculado de qualquer objetivo obrigatório – portanto, aberto (ainda que numa permanente tensão entre a vontade do indivíduo e as limitações impostas pelo jogo social) a todas as possibilidades.

O que é muito bom! O que seria de nós se não houvesse, inapelavelmente, possibilidade de fazermos, ou tentar fazer ao menos, de nossa vida o que bem entendêssemos e tivéssemos de seguir, sempre, os ditames de uma ordem estabelecida não se sabe se nos céus ou no inferno, mas, de qualquer modo, fora de nós! Toda a grandeza da condição humana reside justamente na liberdade, ainda que virtual, de construção de uma trajetória original, não submetida necessariamente a qualquer lei automática e não infringível!

O “vazio” da existência possui implicações bem maiores do que a simples questão filosófica acima exposta (que é, por sua vez, um ótimo remédio para as vidas “plenas” de conflitos e contradições decorrentes da crença num rumo absoluto a ser seguido).

O que se oculta sob esta pretensa falta de sentido é, na verdade, o dissabor permanente, a quase completa inexistência de prazer que vai-nos tomando a alma, ao ponto das mais caras fontes de gratificação perderem qualquer graça.

Um mendigo ou um fútil que leve uma vida sem qualquer direção objetiva pode ser feliz em extremo, desde que sinta prazer nas suas estripulias. Mas o indivíduo mais convicto e engajado possível num ideal a ser seguido, poderá, apesar de todo o direcionamento de si mesmo, estar mergulhado na maior e mais insípida infelicidade se suas emoções estiverem em descompasso com todo este entusiasmo racional.

Infelizmente, ainda que o nosso racionalismo libertário e questionador reivindique a autonomia completa do indivíduo de qualquer condicionamento ou padrão de comportamento, a verdade pura e simples é que, muito mais do que a filosofia individual e livremente estabelecida, o que “dá sentido” a nós mesmos é o prazer emocional que nos envolve em meio às peripécias da jornada.

Quando até mesmo os pequenos e básicos deleites (como o culinário) não nos despertam mais qualquer entusiasmo, quando a aridez de nosso horizonte mental chega a tal ponto que concluímos não fazer diferença a possibilidade de estar morto no dia seguinte, a encruzilhada com que nos deparamos é tão concreta quanto a possibilidade do suicídio físico, ainda que ele não se realize.

Ou matamos a “vidinha” quotidiana (grávida das mais variadas exigências sufocantes e infelicitantes), ou mandamos à merda todas imposições de uma existência sem cor nem jogo (quando não com cor e jogo obrigatórios e desvinculados de um prazer genuíno); ou só nos restará o caminho da morte da alma, atolados numa vida de obrigações perpétuas, de mero cumprimento de rotinas, protocolos ou ideais artificiais introjetados sob a desculpa do livre arbítrio.

Ubirajara Passos

Anúncios

Um comentário em “DO SENTIDO DA VIDA E O SUICÍDIO

  1. * Em 04.09.06, às 17:44:40,
    * JORGE CORREA DANTAS disse :

    SALVE, SR. U.PASSOS, TRABALHAS EM CARTORIO MAS ÉS ESCRITOR.SOU GRANDE ADMIRADOR DESTES TEUS ESCRITOS MALDITOS CHEIOS DE REALIDADES COMPLEXAS QUE NAO SÃO SONHOS NEM DEVANEIOS OS QUAIS ALIMENTAM MUITO AS MINHAS FANTASIAS E ME DAO FORÇA PARA EU PERSISTIR, INSISTIR, RESISTIR, AS TODAS IDEOLOGIAS QUE PREGAM O ESVAZIAMENTO DA EXISTENCIA, DO CALOR, DA LUZ E DO TESÃO NESSARIO A VIDA HUMANO. AS IDEOLOGIAS PRONTAS, AS CACTERIZAÇÕES, OS ADJETIVOS FORMAIS QUEREM MATAR O ANIMAL QUE ESTA DENTRO DE NOS, QUEREM NOS TRANSFORMAR EM MEROS ROBO. NOS REBELAMOS AGORA, SEM MEDO DA MORTE, POIS TALVEZ UM DIA MILHOES DE VOZES SE ERGUERAO DESDE O MAR AS CORDILHEIRAS. NOSSAS HOMENAGENS AO ESCRIVAO ESCRITOR. NEGO DANTAS, DESCENDENTE DA NAÇÃO ZUMBI. MUITA LUZ, MUITA FORÇA, MUITAS PAIXOES E MUITA TEZÃO PARA AGUENTAR ESTE FARDO DE QUERER EXISTIR ALEM DO LIMITE ABSURDO QUE ESTE SISTEMA OPRESSOR QUER NOS IMPOR.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s