TRATADO DA HIPOCRISIA


 

Antes que os leitores tenham um chilique de gozo literário, paremos um pouco com esta putaria dos dois últimos dias e vamos a algo mais sério. O texto abaixo foi o precursor dos “SERMÕES NA IGREJA DE SATANÁS” e devia ser a introdução de um “Tratado da Hipocrisia”, que acabou ficando apenas nele. Seu estilo, porém, meses depois daria a luz os “Sermões”.

TRATADO DA HIPOCRISIA

Apesar de toda propalada modernidade (há uns bons vinte anos eu usaria essa frase com um ar já tanto ridículo de velharia) ideológica e comportamental, a nossa “sociedade” (e aí vai incluída toda a parcela da espécie humana letrada ou filha da mídia) condena, ainda, de forma contundente a prostituição!

Dizem que as putas* são uma das piores categorias de seres sobre este nosso infausto planeta. Além da decantada capacidade de furto e engodo, cometem o horrendo crime de vender o corpo, de perder toda a dimensão humana e transformar-se, em troca do vil e indispensável metal, em mero objeto da vontade alheia.

Linda, impoluta** e louvável sociedade! Quanta nobreza e despreendimento de interesses! (que o diga um certo ditador institucionalizado deste nosso continentezinho que vivia, há alguns anos,tão preocupado com a “prostituição infantill”).

Realmente, temos de admitir que não existe maior degradação para um ser humano do que tornar-se uma coisa, uma simples ferramenta destinada à satisfação de mesquinhos, absurdos e inconfessáveis desejos e interesses alheios. Não há realidade mais “hedionda” do que este aluguel do próprio corpo, da alma (impossível separar um ato físico tão envolvente da nossa vida mental), da própria existência – enfim – a algum tarado que possua o dinheiro suficiente para pagá-lo.

A ONU, o Vaticano, a Anistia Internacional e outros tanto “atores político-sociais” deveriam se engajar até o limte do absurdo numa campanha pela erradicação desta suprema mácula de nosso mundo!

(Não se ria – nem se escandalize*** – o caro leitor com a ironia deste escritor provinciano. Levemos a sério, por método, as afirmações moralistas deste velho freqüentador de cabarés.)

No entanto, esta sociedade falsa e sem-vergonha, esta mesma madame pudica e fina que condena a putaria profissional, vive da exploração desumana, alienante e degradante, do trabalho da maior parte dos seres humanos.

Qual a diferença a diferença objetiva entre uma puta e um trabalhador que “se aluga” durante oito horas por dia, debaixo do autoritarismo e degradação mental (reduzido a obediente moleque de escola primária da época dos nossos avós), a um fofo e pedante patrão**** em troca de migalhas que não lhe permitem viver com a dignidade, que seja, de um touro de exposição agropecuária?

A despersonalização e a coisificação, o “comércio do corpo” e do ser é o mesmo. A única, e irrelevante, diferença é que o trabalhador aluga os braços e a puta, a buceta, ou (como diria um velho amigo) “as partes nobres da galinha”!

Ubirajara Passos

________________

*essa deusas mensageiras do prazer legítimo, não só as primeiras profissionais da História, mas mães de toda tecnologia e toda arte, pois sabem trepar e fingir-se apaixonadas com o máximo refinamento.

**terminho tão puro e “intocado” que, provavelmentge, a maioria da nossa nobreza capitalista não tenha menor idéia do seu significado.

*** reação mais provável nestes sisudos tempos de imbecilidade politicamente correta do novo milênio.

****tão “alto” e tão distante que sequer se aventaria a possibilidade de ter conhecidas, ainda que através da mídia televisiva internacional, suas fuças pelo escravo.

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Um comentário em “TRATADO DA HIPOCRISIA

  1. * Em 02.08.06, às 18:13:37,
    * xupaxota disse :

    Karo companheiro, esta realidade da sociedade capitalista é muito foda. Creio que no caso das putas que trabalham em cabarés, a situação é pior ainda. Como teoricamente é crime agenciar putas, elas têm de viver naquele ambiente insalubre sem o benefício dos poucos direitos adquiridos pela classe trabalhadora, já que se os agenciadores forem legalizar a situação delas como trabalhadoras, vão estar assumindo que cometem um crime. Dessa forma, a putaria tem de funcionar por baixo do pano, beneficiando apenas os donos de puteiros e policiais e políticos corruptos, que são pagos para fazer vista grossa. Assim, considero que seria melhor legalizar os puteiros, pois as putinhas poderiam ter a sua carteira assinada, FGTS, aposentadoria e demais benefícios. Tô preparando as bases companheiro. 2008 tá nas portas…

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