DA IDEOLOGIA DA QUALIDADE E O DESEMPENHO SEXUAL


Texto do livro “Sermões na Igreja de Satanás” – que, se não publicar pelos caminhos normais, um dia, ao menos terei feito circular na Internet:

DA IDEOLOGIA DA QUALIDADE E O DESEMPENHO SEXUAL

O sistema de dominação vigente (o capitalismo), ao contrário do que supõem os ingênuos apóstolos do economicismo (que nele vêem apenas uma forma técnica específica de exercício do logro), atinge tamanho grau de ingerência na vida dos indivíduos que sequer a instância mais íntima e instintitiva de seu comportamento (a da foda) escapa à sua influência ideológica.

A mais recente e sutil forma de indução à enrabação voluntária dos trabalhadores, a doutrina da qualidade, muito mais do que no espaço restrito das fábricas, lojas e escritórios, encontra eco e empesteia a vida de cada um na própria cama (na rede, na cadeira, ou em pé, como queira a ilustre assistência) pelo menos desde a metade do século xx. Não por acaso, fruto da mesma mentalidade controladora e disciplinadora, surge, concomitantemente aos modernos métodos de “gerenciamento de recursos humanos”, a cartilha do “bom desempenho sexual”, sob a pomposa denominação “científica” de Sexologia.

Desde que filhos da puta do quilate de um casal Hite (os pais do “Relatório”) tiveram o peito de reduzir à estatística o que fazemos com nossos paus, cus e bucetas, não há sujeito, por mais inculto e desinformado que seja, que não se torture com a duração cronológica da transa ou não se sinta frustrado pela incapacidade de reproduzir trezentas posições a cada idílio carnal.

Pouco importa a intensidade do prazer ou o entusiasmo alegre e sacana de uma cópula se o exigente discípulo da filosofia do desempenho não for capaz de gozar três ou quatro vezes seguida na mesma sessão de sexo!

A mulher mais fogosa e carinhosa classificar-se-á entre as frígidas e chatas se não conseguir cavalgar à velocidade recorde do melhor “puro sangue” e o alcance de seus gritos e gemidos não tocar a barreira do som (caso em que pouco lhe adiantará ser um avião: é preciso ser um concorde!).

O mais viril dos “touros reprodutores” será considerado brocha se não mantiver uma ereção digna de uma coluna de concreto desde o primeiro segundo em que adentra a alcova e não demonstrar a força e o entusiasmo de uma britadeira.

Ambos (ou seja lá quantos forem) os parceiros sexuais devem ter a virtuosidade de um contorcionista e a agilidade um malabarista, sem o que pouco importará a emoção, os sobressaltos e as gratificantes surpresas com que o “ato” for praticado.

Qualquer um que não preencher tais requisitos “técnicos” e qualitativos, por mais prazerosa que seja a trepada, estará condenado como inepto e não merecerá da mentalidade vigente em nossa sociedade o certificado “Iso 9001” dos fodedores. Seu destino será uma vida monástica ou a danação eterna no “masturbodromus miserabilis sexualis” (conforme o capítulo 1, versículo 24 do Apocalipse de Mefistófoles, segundo Belial).

Se a musa erótica de um macho não encarnar nas suas curvas a própria Sharon Stone ou seu companheiro não for digno do próprio Adônis, pouco valerá o tesão e a empatia mútua que a simples visualização do corpo nu ou a proximidade lhes proporcionar.

O breviário dos fiéis desta religião da sensualidade empresarial é antes conquistar a medalha de ouro do Atletismo Sexual do que fazer amor!

Incapazes de ter orgasmo (não apenas físico, mas emocional) em uma foda despretensiosa, moleque e bem-humorada, pautada pela cumplicidade maliciosa e afetividade dos participantes, os doutores do sexo com qualidade criaram, para desrecalque de seu enfado íntimo, a ditadura dos manuais sexológicos e, não contentes com a própria desgraça, supliciam seus amantes com ela.

A repressão já não se exerce pela interdição direta (a ética da virgindade e do sexo exclusivamente destinado à reprodução), mas mediante a regulamentação social do êxtase, sob a máscara da sofisticação e do “status”.

De tal forma criaram-se exigências artificiais e cretinas que aquele que deveria ser o mais espontâneo e delicioso dos prazeres tornou-se para nós o reino dos mais profundos tormentos e neuroses. A necessidade de controle dos exploradores sobre nossas vidas, para que sejamos animais produtivos de seu rebanho, tornou-se tão grande, e perfidamente sofisticada, que acaba por negar e transtornar mesmo o simples prazer de fazer sexo!

O cu seja louvado!

Ubirajara Passos

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2 comentários em “DA IDEOLOGIA DA QUALIDADE E O DESEMPENHO SEXUAL

  1. * Em 31.07.06, às 08:49:38,
    * Fada Safada disse :

    Bira, estou encantada com a clareza, profundidade e objetividade de teu texto.
    Se todos pensassem assim (ou melhor, deixassem de pensar tanto)e se dispusessem a brincar, divertir e desfrutar espontaneamente a vida sexual seria naturalmente maravilhosa.
    Virei fã.
    Beijos,

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  2. Garry Haus disse:

    Wow this is lookin great, i saw many blogs but this one is really something, great job dude.

    (tradução: Uau, este é um grande olhar, eu vi muitos blogs mas este é realmente uma coisa, ótimo trabalho,cara.)

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