A Gata Menor de Trinta


A copa do mundo parece ter reservado algumas surpresas muito além do desempenho molóide e da fragorosa, mas merecida, derrota da seleção brasileira ante a França. Aproveitando a folga da repartição no dia do jogo com o Japão, abandonei a tela da TV (desconsolada e chorosa a coitadinha) no final do primeiro tempo, e fui fazer algo mais útil e prazeroso que assistir aos sofríveis mega stars do futebol nacional.

Num dos meus motéis preferidos, com a gata preferida, lá estava eu, seis horas da tarde (o Brasil inteiro comemorando sua última vitória na copa), frente à hierática atendente da portaria, pedindo uma suíte com hidromassagem. E, ao contrário do que supunha, havia mais gente interessada em empurrar as “bolas” na cálida goleira feminina do que fanáticos machões se acabando frente ao jogo que rolava na telinha. O fato é que o motel estava lotado e a única suíte disponível estava recém sendo limpa da última partida lá jogada (parece que, após um “carrinho de mão”, o artilheiro havia investido sobre a adversária e entrado com tudo em goleira alternativa, mas isto é outra história…).

Puto da vida, mas resignado (eu estava a pé e o próximo motel de qualidade ficava há uma boa dezena de quilômetros), resolvi esperar na ante-sala e quase deixo a bola cair quando a burocrata da casa do prazer, com toda a seriedade de um papa-defunto, me dispara: tudo bem, só o senhor me passe a identidade da menina.

Conhecendo bem a gata, que por muito pouca coisa vira onça furiosa e ataca de unhas e dentes (pra lanhar mesmo e não como fetiche sado-masoquista), interroguei-a com o olhar para ter a resposta óbvia: pra que eu tenho de mostrar o documento? Questionada a “serva de Deus” da portaria – que parecia estar lá antes pra evitar que eu cometesse o pecado da luxúria – a resposta da múmia não pode ser mais burocrática: “são as normas, senhor”. Depois de ouvir trezentos xingamentos (“as normas que vão à puta que pariu”, “sempre venho aqui e nunca me exigiram documento”, etc.), a encarnação do “estado policial” (garanto que era petista) finalmente se explicou: “eu preciso da carteira de identidade pra ver se a menina não é menor, senhor!”.

Foi aí que me vi na cena mais patética desde que peitei um porteiro que queria me reter, às três da madrugada, numa pousada em Brasília (onde fora participar de uma manifestação anti-Lula na caravana do Sindjus) para que eu e meus companheiros não fôssemos nos entregar à devassidão do álcool. Tudo bem que eu fora ao motel com um boné de garotão, usava um casaco esportivo (do estilo destes de abrigo) e deixava pender ao peito um pentagrama (simpatizo com a bruxaria e a magia européia, mas quem sabe a moça pensou que eu era metaleiro?). Tudo bem que a minha gata é bem gostosinha e não fica a perder em nada pra nenhuma pirralha de dezoito anos! Mas parece que a burocracia “motelística” tomara de tal modo o corpo da nova funcionária da portaria que até cega ela ficara. E eu tive de arrancar o boné, para mostrar o cabelo grisalho, e declarar aos brados: “minha senhora, pro seu governo, eu tenho quarenta e ela aqui tem trinta anos! “Posso até ser meio comunista,” (anarquista doido aceita tudo) “mas olhe bem pra minha cara e veja se eu me pareço com algum velho gagá e brocha comedor de criancinhas! “

A esta altura, a quilômetros de distância do tesão, em plena fúria libertária, pensei que havia vencido a partida. Mas, impávida e fria como um cínico juiz de futebol ladrão, a minha cara atendente disse: tudo bem, mas eu preciso da identidade.

Já noite, após séculos de espera, cada vez que ia servir-lhe um copo de champanhe ou praticar um carinho mais safado, a gata fulminava: isto é coisa proibida pra menores!

 

Ubirajara Passos

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Um comentário em “A Gata Menor de Trinta

  1. * Em 31.07.06, às 08:42:09,
    * Fada Safada disse :

    Muito legal o teu texto. Você escreve muito bem, parabéns.
    Divertido mesmo, passarei aqui mais vezes.
    Beijos,

    Curtir

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