6 DE 6 DE 2006 – DIA DA BESTA OU DOS BESTAS?


O julgamento superficial da invasão do Congresso pelos petistas do MLST pode confirmar pra muita gente que no 6/6/6 (número que, segundo o Apocalipse do pirado apóstolo João, identifica o Capeta) o diabo andava solto em Brasília. Afinal, o quebra-quebra generalizado (chegou-se a quebrar até os cornos do chefe da segurança da Câmara, que foi parar na UTI) parece, para o senso comum, uma atitude que – além de inócua como arma de pressão política – constitui selvageria digna do famoso personagem.

Porém, mais preocupante do que a ensaiada pauleira fascista (que não deveria causar nenhuma surpresa já que liderada por eminente pseudo-socialista do partido do governo mais anti-povo desde a ditadura) é a reação dos ilustres parlamentares, apresentadores de programas radiofõnicos e televisivos e do próprio Luís Inácio. Para estes seríssimos detentores do poder (seja do Estado institucional ou da mídia burguesa, o que dá no mesmo) a quebradeira de vidros, terminais de computador e carros do parlamento se constitui em “atentado à democracia”! É ridículo, e extremamente preocupante, ouvir da boca de um deputado federal – membro de um poder cuja maioria dos membros chafurdou na lama dos mensalões e ainda teve a cara de pau de absolver os mais evidentes safados – que a tal “baderna” é inadmissível porque se constitui em “lesão ao patrimônio público” e que “a democracia tem limites”. Mais um passo e a direita assanhará seus pendores autoritários para nos impor as maiores limitações ao direito de manifestação e às liberdades individuais sob o pretexto da “baderna que está tomando conta do Brasil”!

Abstraindo-se os reais motivos da invasão e o grupo nela envolvido, quem de nós, sofridos e indignados cidadãos comuns, não gostaria não apenas de quebrar a pau este parlamento pau-mandado (que, desde a ditadura militar aprova todas as sacanagens possíveis que o Executivo cria contra o povinho trabalhador e a favor de banqueiros e multinacionais), mas de bombardear o Plenário em raro dia de grande comparecimento de deputados e senadores? Embora não resolva (pois o poder real está na mão de grandes empresários e transnacionais), com certeza o Brasil se livraria de uma boa carga de desgraça.

O detalhe é que os críticos da pauleira não ficaram de cabelos em pé com os prejuízos materiais e humanos, mas apenas com a forma e os autores do fato. Todo dia, numa única canetada, o mais bem-educado, cheirosíssimo e hipócrita governante ou proprietário toma decisões, neste país, que infelicitam e aprofundam a miséria, a fome e o sofrimento de milhões. Uma multidão de crianças morre de fome ou se joga no banditismo e na prostituição para poder sobreviver sem que os ilustres “donos” desta nação tenham de sujar seus branquíssimos punhos de sangue ou empurrá-las escadada abaixo como fizeram os “sujos e feios sem-terra” do MLST. A violência, portanto, é um detalhe. Tudo é uma questão de estética e etiqueta.

No Brasil, uma meia-dúzia de proprietários burgueses (donos de empresas de todo tipo ou gerentões de organizações transnacionais) determina, como bem entende, os horários e ritmos da vida quotidiana, o que pode comer e vestir e que nível de vida intelectual, emocional, e até mesmo sexual, as outras tantas dezenas de milhões de brasileiros – que só possuem de seu os braços e o cérebro – poderão ter. Isto se faz através dos sálários pífios, dos horários e normas de trabalho e das leis e decisões governamentais que são impostos à massa anônima de trabalhadores de forma totalmente unilateral. Esta grande maioria, quando chega em casa, depois do massacre de horas de trabalho mal-remunerado e exaustivo sob o tacão de chefetes e patrões, se vê submetida à lavagem cerebral diária de rádio e televisão a fim de convencer-se mais de sua condição de “gente de segunda categoria” e sonhar que, a ela se submetendo ou apostando na pequena vigarice, pode usufruir um mínimo do paraíso do consumo burguês. Assim, devidamente convertido em zumbi, o brasileiro médio se defronta, nas eleições periódicas, com o político vigarista e metido a herói e galã bem falante, que lhe garante – diante da vida miserável – qualquer esmola sacana em troca do voto. O resultado todos conhecemos: está aí a classe política mais corrupta e inerte das últimas décadas – com raríssimas excessões dos partidos de esquerda não ligados ao governo federal. Diante de tal cenário, cabe perguntar, quando um governador qualquer afirma que a quebradeira de Brasília foi um atentado à democracia: de que “democracia”, mesmo, se está falando?

 

Ubirajara Passos

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2 comentários em “6 DE 6 DE 2006 – DIA DA BESTA OU DOS BESTAS?

  1. * Em 16.06.06, às 11:07:31,
    * Denior disse :

    Muito pertinentes as questões. Na “democracia dos ricos” o povo, em especial os trabalhadores, tem que se manifestar apenas pelo voto. Nas democracias pré-existentes isso era explícito. Quem tinha direito a voto eram as classes proprietárias, tinha que ter rendas, posses. As mulheres também não votavam, elas pertenciam a alguém. Na nossa bela democracia burguesa, que se diz representar a todos, isso está mascarado pelo voto universal. Qualquer outra manifestação TEM LIMITE, e esse é dado pela polícia. Mas que poder de fato tem o voto, numa cidadania que “eles” mesmos chamam de “racionalidade de baixa informação”? Que poder tem o voto quando todos os meios materiais como a mídia e todas as insitituições que formam a “falsa consciência” popular estão nas mãos dos capitalistas? As eleições são um jogo viciado, e isso ficou flagrante nos episódios do mensalão. Tentam passar isso como anomalia, mas, longe disso, este é o mecanismo normal da democracia burguesa. Mas raramente isso vem à tona.
    (segue)

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  2. * Em 16.06.06, às 11:08:25,
    * Denior disse :

    (continuação)
    Os que financiam os Dudas Mendonças cobram o preço depois dos governantes. Os supostos representantes do povo no parlamento votam de acordo com o peso das propinas (“lobbies” de empresários) e malas de mensalão. E tudo para implementar os planos do Grande Irmão do Norte. Nas condições de alienação em que vivem os trabalhadores no capitalismo, mesmo quando o mecanismo fica exposto, em condições normais fica praticamente invisível para a classe trabalhadora imaginar que possa haver alguma alternativa ao regime democrático-burguês. Só em momentos extremos, em que a revolta explode em luta generalizada, a classe trabalhadora pode construir organismos de luta que se transformem em poder dual, uma alternativa de democracia operária direta, não representativa, em que a base esteja decidindo as questões fundamentais no dia-a-dia, e os representantes não tenham privilégios, não sejam controlados pelo poder econômico, e sim pela base, com poder de revogação dos mandatos.
    Abraço, camarada

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