PEQUENO INFERNO PARTICULAR

Enquanto recarrego as baterias mentais e emocionais, exauridas nas reinas e desacertos políticos e funcionais, e sacudidas pelas surpresas amorosas (que, por ora, continuarão a ser surpresas para os leitores), deixo os amigos na companhia de mais um poema de fossa, este escrito no meio de fevereiro, logo no período pós-férias. Sei que a grande maioria vai se entediar e me mandar, intimamente, à puta que pariu: “lá vem o Bira de novo com esta merda; desde dezembro não sabe escrever em versos outra coisa senão esta lamúria alcoólico-depressiva repetitiva”. Mas me perdoem os mais exigentes. Pode ser que algum bi-polar tão doido quanto eu se console, nesta hora da madrugada, com a “pérola” que segue:

PEQUENO INFERNO PARTICULAR

Hoje me sinto qual uma tia velha,
Uma dessas solteironas de romance
Oitocentinta ou documentário,
Como um estéril personagem feminino
De “novela das seis” da Rede Globo,
Ou seca e raivosa virago patriarcal
De um mundo morto, ainda pulsante
Nos alfarrábios de um García Marquez.

Me sinto hoje qual aquelas doidas
Que ainda esperam aos oitenta o amor
Que um dia sumiu dobrando a esquina
De intemporais eras, na neblina
De uma vaga juventude não vivida.

Hoje, boêmio já meio aposentado
Da sacanagem ingênua mergulhada
Em rios de cerveja e irreverência,
Pareço uma beata azeda e insossa.,

Ou o arremedo medíocre de um Dante
Sonhando um paraíso semi-islâmico
Na doce nostalgia ressentida
De uma gostosa Beatriz nunca tocada.

Sou uma infeliz mistura ambulante
De boemia descomprometida
E romantismo nostálgico e choroso!

Sou a profundidade apenas sonhada
E a fria emoção superficial e falsa
A se esconder na altissonante gargalhada,
Gozando em ondas circulares, em orgasmos
Múltiplos auto-abastecidos
Da entusiasmada e oca irreverência,
Do pobre porre que esvai, no meio,

Na xaroposa choradeira cheia de glamour,
Na arenga lamentosa e intelectualizada
Ou falsamente expontânea e popular,
Mas tão medíocre, infeliz e comezinha
Quanto a de qualquer bêbado frustrado,
Tão cambaleante quanto a falta de sentido
De um pivete no barato da “loló”!

Gravataí, 17 de fevereiro de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 06/04/2008 at 1:29 am Deixe um comentário

PENUMBRA APENAS

Aí vai, para ajudar algum leitor entendiado a adormecer de aborrecimento, um triste produto da minha insônia, recém-parido:

Penumbra apenas

Três horas da madrugada.
Na rua os gritos pingunços
Sobressaltam a modorra
Dos ruídos uniformes
Dos carros na avenida.

A noite enjoada dormita
Sonhando as últimas horas
Dos butecos e bailões,
Transformando a euforia,
A dança de corpos, copos,
Na náusea das nebulosas.

Lua e estrelas bocejam,
Algumas até tropeçam
No canto desafinado,
No grito desatinado
Dos boêmios cambaleantes.

E eu, mais sem rumo que eles,
Mais entendiado que a lua,
“Lúcido” e ínsone, sem graça,
Ouço a noite e seus silêncios
Salpicados dos ruídos
Anônimos e tediosos.

Aborrecido, sou a noite,
Dos cães sou débeis ganidos,
Sou bêbados, sou motores
De carros, sou a penumbra
De uma madrugada eterna,
Repleta do sem-sentido
E falta de escuro ou luz.

Sou um eterno devir
Que jamais se faz presente
E carece de passado.

Gravataí, 20 de janeiro de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 20/01/2008 at 2:46 am Comentários (1)

INÉRCIA ABSOLUTA

O poema que segue me surgiu há pouco, em plena madrugada (são 3h 44 min), como resultado da minha falta de graça dos últimos dias e, apesar de estar sendo publicado no horário abaixo, foi programado neste instante, na página de administração do blog, para só ir ao ar no meio da tarde. Fiquem assim tranqüilos os toscos e autoritários burocratas que bloquearam o acesso a este blog, e a todos do “subsversivo” wordpress, na rede de computadores do judiciário gaúcho. Não a estou usando, como aliás nunca fiz, apesar de suas histéricas suspeitas, para publicar textos no Bira e as Safadezas…

Já os demais leitores, se possível, distraiam-se, mesmo cabisbaixos e ensimesmados atrás de seus gigantescos birôs.

INÉRCIA ABSOLUTA

Só a ridícula e insistente teimosia
Mantém-me vivo, a me arrastar, somente
Uma esperança vã, um vago devaneio
Faz crer que, ossificada e nula,
Da minha mente algo novo ainda surja.

Rastejo, uma absurda gravidade
Me imergindo, mais pesada que a Terra,
No fundo poço plúmbeo da rotina.

Alguns débeis disparates tentam em vão
Inflar as asas e alçar vôo da minha alma,
Mas tão magrelas são e é tão densa
A idiotizante canseira sempre igual

Das horas mortas, dos procedimentos
Velhos e gastos, os embates
De uma vidinnha circunscrita,
A espessa asneira
Do velho teatro bufo do poder

Que os arroubos de idéias mal paridas
Logo perdem força e se transmutam
Numa infeliz caricatura do humano.

Gravataí, 20 de novembro de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 27/11/2007 at 4:30 pm Deixe um comentário

LAMENTO DO POETA ACABRUNHADO

No fim do beco,
Na tarde que morre

Flutua, cinza,
Fundindo céu e terra,
Uma tristeza imprecisa,
O chuvisqueiro

Divide o espaço com uma listra evanescente
De luz oblíqua,
O ar parado

Recende à terra úmida, indecisos
Espectros cruzam a esquina,
O pensamento
Suspenso, o livro
No regaço abandonado,

Sou sensação pura e não verbalizada,
Sou grama, sombra, transparências,
Sou cordilheiras muito além do horizonte,

Sou noite que nasce amalgamada
Ao branco véu que desce dentre as nuvens,
Sou um nada imenso, um todo espremido
Nos meandros da ruela irregular;

Sou um objeto mudo e inominado,
Um detalhe
No abandono do cenário,
Sou desejos,

Que ao nascer se esvaem,
Sobretudo,
Sou um inerme irmão da solidão.

Gravataí, 31 de julho de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 31/07/2007 at 1:54 am Deixe um comentário

DOIS POEMAS BESTAS

Em 1991, aos vinte e cinco anos, após meses de pânico quase permanente no ano anterior, e curtindo a primeira grande depressão da minha vida, eu mal imaginava que, em menos de um ano, eu seria líder sindical e, em menos de dois anos, estaria irreversivelmente ligado às grandes batalhas do Sindjus-RS. Os poemas que seguem dão conta da minha incapacidade de tornar ação, então, os ideais em que cria, e a minha impossibilidade de voltar a escrever algo válido, quando eu não supunha que pouco havia até então escrito e o que viria depois.

 

POEMETO DO ARREPENDIMENTO

Não. Não é possível que a vida se me esvaia
Sem ter jamais ao campo de batalha
Arrojado-me, sequer, a perseguir ideais;
E, derrotado sem luta e sem vontade,
Veja cair-me uma a uma as máscaras
De que cobri, em atroz engano, a face,
Vivendo a iludir-me e ao mundo
Na promessa vã, hipócrita, infinda
De principiar a grandiosa jornada;
A transformar-me a vida em imensa farsa.

Gravataí, 11 de maio de 1991

Ubirajara Passos

 

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ENLEVO FUGAZ

Ao iniciar da longa madrugada
Cantam os sapos nos longínquos banhadais,
Trazendo-nos à nostálgica memória
Velhas histórias e pungentes ais.

Sob a gélida e nívea cerração
Na invernal noite, melancólicos
Entoam velhos temas ancestrais,

A mergulhar-nos em vagos devaneios,
Fazendo-nos sonhar com tênues sentimentos
Que perderam-se na noite azul dos tempos

Gravataí, 26 de maio de 1991

Ubirajara Passos

MELANCOLIA

O meu estado de ânimo desde a surpreendente derrota nas eleições do Sindjus-RS tem sido de um marasmo e uma falta de entusiasmo total e completa, o que me impede de escrever qualquer coisa. Logo, para que os leitores não fiquem igualmente entediados com este blog, publico abaixo um velho poema que casa com as emoções deste dias de ressaca política e existencial.

MELANCOLIA

Sentar frente ao papel, na escrivaninha,
Para escrever,
Mas escrever o quê?
Se a alma minha
Nestes momentos em vazio se encontra;
Pegar a pena e imprimir os signos
Dos sentimentos presentes,
Estéreis, vagos,
Este o tormento porque passo agora,
Pois já não tenho os sonhos de outrora,
Já não vislumbro lá longe a vitória;
Já não expresso, sequer, de minh’alma
Os pensamentos hodiernos;
Reflito
Neste poema
Idéias e expressões passadas,
Nada de novo nasce desta pena,
Só a mim mesmo estranhamente imito.

Gravataí, 2 de dezembro de 1987

Ubirajara Passos

TRISTEZAS

A depressão em minha vida tem sido uma constante desde muito cedo. O poema seguinte, embora impregnado de um certo tom retórico e farsesco, expressa, no entanto, um dos meus momentos de falta de sentido, aos vinte e cinco anos de idade.

TRISTEZAS

Quando não resta mais que lamentar
Da vida os infortúnios
E o passado torna-se o refúgio
De antigos sonhos que o destino,
Nas suas vagas de redemoinho,
De louca tempestade a galopar,
Cobriu do pó eterno dos caminhos
E sepulto-os sob a lájea fria
Do desengano atroz;

Quando do dia a luz e a alvorada
Perderam o sentido de beleza
E não exaltam mais do homem
Os anseios,
Quando os ímpetos rebeldes
E inconformados de revolução,
De luta incessante e indomável
Pela transformação da sociedade
(Que, falida, na própria lama imerge,
Sobre a maior parte de seus membros
O sacrifício sem compensação,
O peso do suplício a arremessar)
Não mais alentam a alma do poeta;

Quando os amores murcharam e apagaram-se,
No caminho da rejeição eterna,
E o coração de gelo e cinzas recobriu-se,
À alma humana é possível
O renascer no vigor de uma quimera,
Da fênix o mito
Em vibrante realidade transformar?

Gravataí, 4 de julho de 1990

Ubirajara Passos

DESENCANTO

Embora algumas idéias para postar no blog me passem raspando pelos cornos, a verdade é que não tenho o menor saco de parir algo novo. Assim, publico o poema abaixo que, além de exonerar da obrigação de escrever, é um espelho fiel do meu humor nas últimas semanas.

DESENCANTO

De que me vale o canto revolucionário,
O lírico encantamento
Das coisas e dos seres?

De que me vale o sentido íntimo e profundo
Da beleza e do mistério
De um campo solitário e desolado,
De verdes prados em tarde enuviada,
Da ventania que, gélida e arisca,
Na sua infinda jornada,
Cavalga os campos, tudo a arrastar?

De que me vale o enlevo do universo
Na solidão das noites
Estreladas ou de luar?

De que me vale conhecer da Humanidade
Profundas as mazelas em que imerge-se,
Nos turbilhões dos temporais da vida,
Perdida, sem farol, a navegar?

De que me valem os ímpetos
De rebeldia, buscando levantar
Do insólito sono crepuscular
As consciências desde muito adormecidas?

Se sou “uma voz que clama no deserto”?
Se não ouvem meus gritos, até fatigar?
Se a tempestade avassaladora da inconsciência,
Da falta da Razão, de Liberdade,
A tudo envolve e teima em arrastar?

Se a própria vida, em suas terríveis roscas,
Tudo esmaga e a mim mesmo
Envolve nas vagas frustradoras
De seu imenso mar?

Gravataí, 10 de junho de 1990

Ubirajara Passos

UMA REINA AMOROSA

Na volta de São Paulo, onde estive em 25 março (no Encontro Nacional em defesa da aposentadoria e dos direitos sociais, sindicais e trabalhistas) pela caravana do Sindjus-RS e da Conlutas (mais de 6.000 trabalhadores lotando o ginásio do Ibirapuera e dispostos a resistir aos ataques do fascismo lulista), tive uma paralisia do nervo radial do braço direito, que só após passar por dois hospitais e uma competentíssima neurologista (Mariana Dagnino Araujo) me convenci ser mera lesão local, decorrente de dormir pressionando o braço contra o banco do ônibus, na manguaça.

Mas a tensão gerada pelo episódio (imagina acordar com a mão direita dormente, sem força e sem condições de motricidade fina nos dedos menores que o indicador?), aliada à depressão que ando curtindo, os dias passados em torno de exames médicos e uma quase-broxada que dei com a gata preferida (resultado de ressaca e outro ataque de nervos que narro outra hora), simplesmente me afastaram completamente deste blog, cujas visitas diárias despencaram ao fundo do abismo.

Assim, para dar alguma distração àqueles leitores que ainda tenham algum interesse no que escrevo (que espero se tornar melhor à medida em que avance o tratamento anti-depressivo) e aos que andam desiludidos com suas buscas amorosas, publico o poema pessimista abaixo, que um dia há de deixar de ser realidade.

Apenas Vultos

Por quantas sombras sofri,
Por quantos olhos
Que prometiam fogos além do concebível;
Por quantas almas de fascínio imprevisível,
Por quanto gozo físico incomum
Ardi nas chamas da “paixão sem freio”?

Como sofri, apartado do amor,
Da encarnação do sublime,
Dessas mulheres arrebatadoras?

Quanto gastei em reais e madrugadas
Na busca do sagrado feminino
Pra descobrir que tudo é árida terra!

Gravataí, 29 de maio de 2005

Ubirajara Passos

SONETO EM VERSOS “BRANCOS”

O cansaço, a ressaca mal-curada e a depressão resultante, dos últimos dias é o responsável pela minha ausência deste blog, que está tão sem graça que ninguém mais acessa. Mas se houver, aí do outro lado, um leitor tão na fossa quanto eu, curta o sonetinho abaixo, parido às vésperas de me apaixonar pelo grande amor da minha vida.

SONETO EM VERSOS “BRANCOS”

Enlouqueci.
Um anjo mau tomou-me
Todo prazer de amar ou de viver.
Não sinto já o mínimo entusiasmo
E o mundo todo é cinza à minha volta.

Sem justificativa racional, um diabo interno
Decretou-me o infortúnio infinito,
A autopunição neste inferno
Em que sequer o sofrimento é sentido.

Tudo é aridez de alma, é marasmo,
Mediocridade e imersão no inanimado.
Até um rochedo do que eu possui mais vida!

O amor, então, foi pra tão longe
Que não restou nem o tesão dos brutos,
Mas apenas uma náusea enfastiada!

Gravataí, 15 de novembro de 1999

Ubirjara Passos

Publicado em:  on 13/03/2007 at 9:12 pm Comentários (1)