“VESTIBURRAR”

No último domingo, às 8 h 30 min da manhã, lá me encontrava eu, em pleno surto de revolução existencial, arrebatado no vendaval das incertezas da perseguição política que estou sofrendo e que pode me usurpar o emprego e me jogar na valeta do banimento sócio-econômico, fazendo a besteira de que evado há mais de vinte anos, sentado, como todo calouro, mudo e taciturno, na “classe”  de uma sala de aula de uma faculdade local.

Em meio à década dos quarenta, com um atraso eterno e infinito, me expunha a outrora tão desejada, e tão evitada nos últimos anos, prova vestibular! É bem verdade que o curso não era o mesmo que, formando do Técnico em Contabilidade (especialização do chamado 2.º grau, hoje ensino médio), há um quarto de século, me propunha enfrentar. Ao invés de Sociologia (que só pretendia cursar em razão dos meus preconceitos de pretenso revolucionário social-democrata) a coisa agora era o Direito (que, por razões “práticas”, como a possibilidade de alçar cargos de chefia no serviço público do judiciário, apresentava-se como desafio necessário). E entre ambas as auto-imposições havia a vocação frustrada de antropólogo ou jornalista…

Mas este não era o único contraste entre o exame de admissão ao curso superior dos meus tempos de piá e o atual. Se em 1984 eu teria de me submeter a uma bateria de textes de conhecimento, da Matemática aos “conhecimentos gerais”, passando pela Física e pela língua estrangeira, em tempos em que Gravataí, já uma das mais populosas e industrializadas cidades do Estado do Rio Grande do Sul, nem sonhava em ter um curso de ensino superior (hoje além das diversas especialidades do campus local da Universidade Luterana, a Ulbra, possui os cursos da Faculdade Cenecista Nossa Senhora dos Anjos, a Facensa), a tortura do dia era uma simples prova de redação!

O que em nada me tranqüilizava, e me fazia suar frio na palma das mãos, pois a eventualidade de ter de discorrer sobre um tema idiota e mal conhecido como futebol ou o mundo das modelos (coisa que bem poderia ocorrer em seleção de faculdade de província) me deixava naturalmente tenso.

Mas, apesar do pavor de calouro quarentão, e até para ver se me distraia e relaxava um pouco, sentei-me exatamente em meio à sala e, dali, me dediquei, até o início da prova, ao esporte de observar os meus companheiros de infortúnio. E pude constatar que, no zoológico pré-universitário em que me achava, havia representantes de todas as famílias e espécies.

À minha direita, chamando a atenção até pela deformação que provocava no espaço à sua volta (que, exatamente como as adjacências de grandes astros, na teoria einsteiniana da relatividade geral, contrai-se e curva-se nas proximidades da massa estrelar) estava o típico gordo juvenil com excessiva massa corpórea e inversamente equivalente capacidade mental, estabanado e tímido.  À esquerda, o seu contraponto físico (e colega de mentalidade), o magrão pequeno-burguês tatuado, malhado, prepotente, metido a surfista, gostoso e conquistador, que se acha muito esperto e conta com o suborno do papai para entrar na faculdade, comprar o diploma e, depois  de formado, ganhar aquela grana, enrolando os trouxas com sua fantástica lábia e aquele ar irresistível de michê de luxo! Entre eles, podia-se ver toda espécie de histéricas filhas da peste emocional, das gatinhas metidas a “Barbie” às dolorosas senhoras de meia-idade, de ar conpungindo e cara amarrotada.

O que nos igualava a todos, entretanto, era a triste situação de gado humano, quieto e apreensivo, como ovelhas do rebanho, ante à pose dos fiscais e à burocracia típica do certame.

Até que,  abrindo o caderno de provas, quase tive aquele ataque de abobadice pura e simples. O tema da redação, numa estranha e feliz coincidência para mim, processado por manifestar meu pensamento, na reedição moderna do crime de opinião, era nada mais que “liberdade de expressão”. E, após alinhar três textos a respeito, a prova propunha a realização de uma dissertação, de 20 a 25 linhas, que respondesse ao questionamento: “Como as pessoas podem expressar-se com liberdade em nosso país?”. Para evitar acidentes de percalços aos mais tapados “tigrões” da classe média local, as instruções advertiam: “É necessário que tenha um título…” e “Organize sua própria argumentação” (não copie as frases  do texto como se fossem suas)”.

Não tive dúvidas! Tendo de resumir e simplificar ao máximo o texto, para não acabar escrevendo um ensaio, e seguindo as regras burocráticas típicas, como a estruturação de um parágrafo introdutório, dois de desenvolvimento e um de conclusão (com no mínimo cinco linhas os dos extremos do texto), escrevi (com direito a rascunho e transcrição para a folha definitiva), na metade do tempo previsto (que era de três horas) a dissertação abaixo, em vinte e seis linhas (talvez tenha sido este o meu imperdoável pecado estilístico e gramatical), que reproduzo exatamente na forma como foi apresentada para que os leitores possam ter idéia de sua “correção”:

“Há Liberdade de Expressão no Brasil?

A Constituição de 1988 garante a todos os cidadãos brasileiros o direito de expressar o seu pensamento sem sofrer quaisquer limitações ou sanções em decorrência de seu exercício. O indivíduo pode até ser responsabilizado civilmente por possíveis danos à imagem de outrem, mas ninguém pode impedi-lo de manifestar-se. Até que ponto isto é uma realidade?

Se levarmos em conta que vivemos em uma sociedade desigual, em que o abismo entre os mais aquinhoados e a massa dos trabalhadores é dos maiores do mundo, esbarramos, de imediato, em sério empecilho concreto à liberdade de expressão. A “opinião pública” é, em geral, o resultado do que circula na imprensa, e esta, dominada pelo monopólio do grande capital, espelha os interesses de seus financiandores, não deixando margem para o  ‘Zé Ninguém’.

Há também limitações à liberdade de expressão dos servidores públicos, nos estatutos das mais diversas instâncias do Estado, com sanções absurdas como a demissão por “crime de opinião”.

A liberdade de expressão do brasileiro comum é, portanto, hoje em dia, mais teoria que prática efetiva. E só se tornará realidade tensionando-se as estruturas sócio-econômicas e os preconceitos culturais e ideológicos que a limitam. É preciso que não nos calemos diante de seu impedimento e exijamos, pelos meios legais, como ações no Judiciário, seu pleno cumprimento.”

Como o leitor pode constatar, posso ter engolido uma vírgula ou uma preposição que outra, mas segui exatamente a cartilha da boa dissertação, não fugindo do tema, nem quebrando o esquema clássico de introdução, desenvolvimento, conclusão, e praticamente não cometi erros ortográficos ou de concordância.

E, chegado em casa, anunciei para a minha mulher, agora em crise de euforia auto-apaixonada, que era impossível ter sido reprovado e o negócio era uma barbada. Foi assim que, trepidante de ansiosa e confiante alegria, abri o site da “ilustre” faculdade, às vinte horas do modorrento e abrasador domingo, para descobrir, assustado e raivoso, que meu nome não constava sequer da lista de “suplentes” aprovados e que, com certeza, o gordo babão ou o brucutu (desculpem-me os leitores com menos de quarenta anos) de bermuda e regata deviam ter uma capacidade intelectual e literária fantástica, digna dos mais sofisticados  e sábios escritores deste país, para se classificarem, enquanto eu, reles mortal sem grana e ligações na “boa sociedade”, era tão ignorante que sequer fora classificado (o que, segundo as regras da prova, só ocorre se o candidato obtiver nota inferior a 2,0).

Como a vigarice legalmente aceita do “manual do candidato” publicado dá a lista de aprovados por “irrecorrível”, e eu não estava a fim de me molestar ajuizando mais uma ação por tão pouco, resolvi me recolher à minha “insignificância” de rebelde letrado (condição que, no país do pretens0 semi-analfabetismo célebre, corresponde à completa debilidade mental) e apenas trazer a público a triste e real anedota. Como há muito venho escrevendo nos panfletos ou matérias do movimento Indignação, em mais este caso, “quaquer semelhança é mera coincidência”.

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 11/12/2008 at 1:32 am Comentários (1)

À GUISA DE RESPOSTA AO ÚLTIMO COMENTÁRIO SOBRE “O CHAMADO DO DEMÔNIO”

Cara Linda:

Infelizmente não és a primeira criatura que, diante de “satânicos” ensaios como o comentado, e movida pelo fanatismo, confunde o sarcasmo metafórico e a gaiatice antropológica com a pretensa defesa de uma suposta seita diabólica (assim como os meus perseguidores político-patronais – os senhores manda-chuvas do judiciário gaúcho – confundem linguagem espontânea e pura, ausência de hipocrisia e contundência sem rodeios e bem-humorada com obscenidade e agressiva “injúria”).

Não vou, portanto, repetir-me e repisar tudo o que já foi dito a respeito deste tema. Mas gostaria de lembrar, sem qualquer ânimo de deboche, que Cristo era o sujeito mais tolerante, “bon vivant”, racional  e livre do contexto social em que vivia. Não é por acaso que seu primeiro milagre foi justamente transformar água em vinho (uma terrível droga corruptora das “virtudes morais” e do “dever”, segundo os beatos secos e chatos cujo maior gozo é o falso auto-flagelo altruísta e o concreto sofrimento alheio) e que adorava conversar com os “malditos” da sociedade judaica: mulheres, cobradores de impostos, ladrões e putas (porque sabia que, vítimas que eram do poder iníquo dos lacaios coloniais lambedores do saco romando, a elite sacerdotal e letrada do lugar, tais membros da “ralé”, estavam mais próximos da condição legítima de “gente” do que seus algozes).

Logo, se Cristo vem em breve, não vai acabar meu culto, porque, se tenho um, ele é o da liberdade, do prazer e do direito à própria dignidade e bem-estar puro e simples a que cada bicho humano deveria ter. E, ao invés de temer o teu suposto Cristo bronco, sádico e vingativo, amo apaixonadamente uma mais criaturas mais revolucionárias, sensíveis e sem rodeios que já habitou este planeta e que, se realmente pudesse retornar a ele, estaria agora, de braços dados comigo, lutando pelo gozo, pela liberdade e pela santa loucura de fazer e dizer o que se pensa e o que se sente, sem qualquer temor nem compromisso tacanho e redutor da condição humana (que vai muito além da rotina mecânica e utilitarista).

Publicado em:  on 10/12/2008 at 12:08 am Comentários (1)

DO DOCE DE COCO À BOSTA DE VACA

Apesar da importância das decisões e atitudes que tenho tomado nos últimos dias, esta semana uma clássica exaustão de DDA, aliada à falta de sono crônica, me tomou a ponto de me transformar num verdadeiro “zumbi” haitiano, completamente sonolento, burro e robotizado. Uma criatura daquelas que consegue cumprir apenas as “tarefas” mais burocráticas e insossas do trabalho e do quotidiano diário – da cagada protocolar pela manhã ao cálculo judicial urgente das 3 h da tarde, do pagamento da conta de água no caixa do Banrisul ao peido incontido no meio do cartório, e da assistência do noticiário televisivo à esculhambação privada dos mais vaidosos inimigos políticos.

E foi em meio a esta jornada de “morto-vivo” que, num lampejo dos mais infantis e, por isto mesmo, criativo, acabei por parir com o Kadu, no finalzinho desta tarde, uma das  conclusões filosóficas mais geniais da história humana sobre a terra. A coisa pode cheirar a Machado de Assis (sem nenhuma conotação onomatopaica!) e ser digna de figurar no discurso do filósofo Quincas Borba (quem sabe até na cartilha positivista do próprio Comte, na sua  versão escrita em “absinto”), mas o fato é que ultrapassa, em originalidade, até o próprio Einstein!

Depois de ver, pela segunda vez nesta semana,  o Peruca encher a barriga de doce, inclusive banana, torta de chocolate e coca-cola, e sair correndo com a mão nas calças para casa – não para “esvaziar a barriga”, mas trocar de roupa – me dei por conta, “a las cinco en punto de la tarde”, como diria o velho Garcia Lorca (poeta andaluz gay e revolucionário assassinado pelo fascismo franquista no início da guerra civil espanhola), de que, nesta nossa vidinha de animais humanos, primatas precários, “evoluídos” mas desconectados das raízes mais básicas e benéficas da vida, tudo que começa doce acaba se transformando em merda!

Não é preciso ser nenhum Sócrates, muito menos um Heidegger ou Witgeinstein (perdoem-me os leitores eruditos a possível grafia errada, pois já estou meio bêbado – o que é um mal hábito: o bom é estar embriagado por completo) para determinar tal comezinha equação. Mas, com certeza, muito pouca gente já se deu conta disto e levou o troço a sério. O fato é que o mais delicioso manjar, o mais sofisticado, “nobre” e raro prato, daquele quindim de sabor inigualável a um exótico caviar ou escargot (lesma fresca de francês muito comentada no Brasil dos anos 1980), passando pela pamonha de um colono açoriano (pasta de milho ralado cozida na palha da própria espiga) ou por um bronco xis-burger gaúcho, tudo, no fim, percorrido o trajeto de um arrogante e vistoso corpo humano (até o daquela gatinha linda, miona e gostosa) acaba por virar uma grande bosta!

O que não justifica, ou ao menos não deveria, com certeza, justificar os absurdos de uma revolução russa de 1917 desembocando no autoritarismo torpe e vaidoso de um Stalin (assassino de milhões de camponeses), uma revolta estudantil libertária e impetuosa de Paris em 1968 se tornando a sombra mal-concatenada de uma pretensa “malandragem” e uma forma “casual” de ser na vida privada, incorporada aos canônes do imperialismo capitalista; ou a  crença, ingênua mas determinada, de um povo oprimido num PT brasileiro resultando no governo mais fascista e, ridícula e atrozmente, coronelista e feudal da história nacional, sob o comando do Inácio dos Nove Dedos (Lulinha, o mais entusiasta “cabo” eleitoral latino-americano do candidato fascista ”republicano” John McCain à presidência dos United States of America).

E, muito menos, deveria ser motivo para que transformemos nossa vida, nós animais capazes de consciência de si próprios e do mundo, de raciocínio lógico profundo e, simultaneamente, de profundidade de sentimentos e emoções, numa verdadeira bosta, rotineira, insípida, sem criatividade, nem direito às próprias decisões. O velho aforisma daquela brincadeira infantil (quem tem mais de quarenta anos deve se lembrar, não sei se a molecada ainda a conhece) deveria ser invertido, na sociedade autoritária e hipócrita que vivemos, para derrogar toda opressão: Vaca amarela/cagou na panela,/Quem” não “falar primeiro”/Come a merda dela!“.

Ubirajara Passos

O APAIXONADO E O ASNO

Não, não se trata de dois personagens contrapostos, mas complementares, e cuja identidade comum sou eu próprio.

Tenho sofrido vida a fora, desde os meus doze anos, da terrível mania de me apaixonar pela gata mais linda e inacessível que estiver por perto e já cheguei a curtir anos de encantamento e dissabor romântico por uma colega do ensino fundamental (na época se chamava 1.º grau), sem que jamais a musa manifestasse o menor interesse amoroso a meu respeito e correspondesse por um único instante ao meu alumbramento. Esta, a paixão dos meus treze, quatorze, quinze e todos os anos que se contaram até os trinta, no princípio até foi um simples objeto do meu desejo, mas depois se transformou numa espécie de “deusa”, que, se cedesse ao meu interesse, se veria frustrada frente a um adorador capaz de se jogar aos seus pés, embasbacado com a beleza daquela descendente de italianos – de pele branquíssima, cabelos castanhos e lindos olhos verdes -, mas que talvez não lhe tocasse sequer o dedo mínimo, tímido e enredando numa contradição absurda entre um amor de idealização estética intelectualizada e o puro e simples tesão.

Eu era, adolescente, um verdadeiro “monge” do amor romântico! E graças à minha burrice, cevada num ambiente doméstico patriarcal e estreito, me empenhei em uma idolatria após a outra (ainda que as últimas musas, com o passar dos anos, fossem se tornando mais objetos do desejo reprimido e desenfreado que da idealização mental), até (passando por uma relação equivocada, onde amor e interesse financeiro se complementavam e se espicaçavam mutuamente) me tornar, tecnicamente, o que sou hoje: um quarentão solteiro que, ao invés de celebrar a sua liberdade, trocaria o mundo por um rotineiro e insosso casamento pequeno-burguês. Que, jamais tendo experimentado o amor mútuo entre dois seres, teria orgasmos cósmicos em fazer o rancho aos sábados, aturar crianças gritonas e agitadas, e sofrer a saraivada de críticas de uma jararaca doméstica, a condenar-me os livros e responsabilizar o dinheiro neles gastos (e nas revistas, jornais, CDs, DVDs, no cinema, e etc.) pela pindaíba financeira da família. Ou seja, uma perfeita família trabalhadora tradicional, o retrato do ambiente em que criei-me!

Não fossem os cabarés e as “aproveitadoras” que souberam contemplar o meu romantismo incorrigível mediante um bom ajutório às suas necessidades econômicas, disfarçando o “comércio sexual” no eterno jogo de sedução e rejeição emocional (aquela criatura que transa contigo, te pede um dinheirinho emprestado pra comprar cigarros, dá a entender que está apaixonada e, na primeira besta declaração de amor que o sujeito faz, diz que, apesar da transa, gosta muito de ti, “mas como amigo”), por pouco não me transformei no último “virgem” sobre a face do planeta (ainda que o fato de ter nascido em 30 de agosto não possa ser mudado, nem mesmo pelo ascendente lunar em “escorpião” que me salvou de ser um virgem de signo e de sexo!).

Mas a verdade é que não posso me penitenciar de nunca ter sido amado! Algumas doidas houve, desde a outra colega do 1.º grau que tentou seduzir-me e, diante da rejeição, me xingou aos brados na frente da eterna musa, até a empregada doméstica de uns primos em segundo grau de parentesco que freqüentava a minha casa na época dos meus vinte e poucos anos, quando eu insistia em outra paixão frustrada e inútil, tentando fazer existir o escritório de contabilidade precário que fundei aos dezoito anos e que tive de abandonar, para ter um mínimo de rendimento digno de gente, me tornando funcionário público, lá pelos vinte e quatro.

O problema é que eu fazia com elas exatamente o que sofria das minhas adoradas: desprezava. E preferia sofrer atrás do impossível que me contentar com o comum e pouco fascinante afeto que andava ao meu lado. É que eu tenho uma mania terrível de amar a encrenca, o grandioso, o inalcançável, e, sobretudo, o imprevisível e mal-comportado. Não foi por acaso que me tornei um anarquista!

Mas houve umas destas minhas pobres adoradoras a que lamentei não ter correspondido. Contando menos quatro anos de idade do que eu, lá pelos meus dezessete, apesar de gordinha, me enlouquecia de tesão com seus seios lindos e fartos, ainda que então não manifestasse o menor interesse explícito e nem tomasse atitudes explícitas de sedução para o meu lado. Me lembro muito bem de um domingo em que, separados por uns três metros de distância, mudos e vestidos, a criatura me excitava tanto que o tesão chegava a doer!

Uma vez ela me disse que uma colega de escola sua, que havia vindo aqui em casa, e eu fiquei “secando” sem a menor reciprocidade, lhe comentara: “como é bonito o fulano” (o que me incendiou a vaidade, piá magro e desengonçado que sempre teve dúvidas sobre si mesmo). Mas jamais imaginei que a admiradora era ela mesma. Até que um dia, eu lá pelos meus dezenove anos, ela com quinze, caminhávamos a beira-mar e a gatinha (que havia emagrecido e se transformado na coisa mais linda e gostosa, e cujos seios moldados pelo vento na camiseta branca continuavam a me enlouquecer) deu a entender que queria me namorar, mas usou uma frase arrevesada e o imbecil do DDA aqui, que – na época – estava louco pra lhe satisfazer a vontade, se fez de bobo e perdeu eternamente a chance! O ideal artificial e intelectualizado da paixão espezinhava um fogo mútuo que poderia se tornado uma grande história!

Uns dez anos depois, ela vinda de um casamento frustrado, eu continuando a colecionar paixões inacessíveis e impossíveis, nos encontramos numa destas festas xaroposas de aniversário de crianças, numa tarde de domingo modorrento. Ela, simplesmente linda (anotei numa agenda, no dia 8 de outubro de 1995 o trecho seguinte, que há algum tempo reencontrei e me lembrou a cena passada logo após: “cintura fina, seios fartos – de minissaia e blusa branca e meias pretas – foi ao corredor do banheiro me cumprimentar, segurei-lhe a mão enquanto lhe beijava o rosto, e a gata me disse: ‘Já ficou rico? Como ficou bonito! Será que eu e o Bira nunca vamos ser normais… nos casar e ter filhos?”). Na época eu alimentava uma poupança rechonchuda (uma conta bancária! não vão supor outra coisa!) que viria a gastar quase toda na boemia nos quatro anos seguintes, e era 4.º vice-presidente do Sinjus-RS. Perdera a ingenuidade romântica, mas continuava tímido, e “fiquei na minha”, ao invés de ceder ao desejo mútuo.

Contentei-me, besta e burro, com a visão mais impressionante que já tive na vida. Eu nunca havia visto o corpo da minha linda amiga mais do que um decote ou uma saia curta permitisse. E, uma meia hora após o nosso encontro fortuito, ela ia saindo da porta da cozinha para o quintal dos fundos, quando um malicioso raio de sol de fim de tarde lhe bateu sobre a pele, tornando a roupa transparente, e eu pude ver, de calcinhas de renda, cinta-liga e seios nus, inteirinha a pele de neve daquela loira descendente de ucranianos e pretensos alemães (na verdade galegos) peladinha e maravilhosa! Foi a primeira e última vez! E hoje, oitenta mulheres após, ainda lamento a oportunidade perdida de não ter vivido com ela o amor natural, fogoso e arrebatador que teria botado no chinelo qualquer paixão “cabeça”, artificiosa, intelectualmente sofisticada e besta, filha do patriarcalismo disfarçado que ainda vige.

Mas chega de divagações chorosas! Já passa da meia-noite (grande coisa!) e amanhã tenho reunião da chapa de oposição do PDT gravataiense pela manhã, e à tarde vou com meu amigo xupaxota conhecer um novo cabaré no centro de Porto Alegre: a Michelle Massagens, na rua Otávio Rocha.

Ubirajara Passos

REINAÇÕES

O texto abaixo (que poderia ser parte dos meus diários, mas foi escrito como desabafo avulso) é uma versão um pouco piorada da minha tradicional auto-crítica, mas não deixa de ser um retrato do meu drama de peão remediado não alienado, e sacudido entre padrões introjetados de comportamento e a própria idiossincrasia.

Antes mais nada é o depoimento de alguém que passou dos trinta, e hoje, quase sete anos após, amarga a segunda “adolescência” da década dos quarenta sem acreditar muito nela (caso contrário seria um falso anarquista):

 

REINAÇÕES
(que não são de Narizinho*)

Há gente que nasce morta, com um tal espírito de chatice e inaptidão para as coisas práticas (inclusive para os prazeres) que, mesmo no auge da orgia, da beberagem e da putaria, acaba não tendo graça nenhuma. Infelizmente, eu sou um deles. Uma dor insaciável e filha da puta me corrói intensamente o âmago. Um amargor sem fim – sisudo e grávido de mais amargura – me habita há séculos e parece não fazer a menor questão de ir embora.

Não, não digas meu amigo, que o que falo são churumelas de amante frustrado, não correspondido, e virtualmente traído (já que encalacrado a sustentar uma cínica que não me quer, me usa e ainda reina à menor queixa).A minha desgraça, este mau humor eterno, e, sobretudo, este infantilismo besta de trouxa crédulo e inseguro é muito mais a constante de uma vida, uma espécie de pendor inato à rabugice, do que o resultado do momento.

Infelizmente, há almas que parecem condenadas, sabe-se lá por quem (já que Deus ou os diabos são tristes fantasias), a refugiar-se no sombrio, no obscuro e a viver como zumbis. Por mais que clamem por vida, por claridade, por fogo, por aventura, por prazer legítimo e descomprometido, só lhes satisfaz o auto-flagelo, a besta melancolia de um fim de tarde, a poesia doente e negra da quietude, e – no máximo – o entusiasmo destrutivo de um temporal grandiloqüente.

Não que não enxerguem (e isto é o pior, antes não tivessem consciência) a beleza, o sublime, o encantamento terra-a-terra e comum dos mais frugais e menos sofisticados prazeres. Não que não almejem, em meio à alheia ou à própria mediocridade, ao requinte, ao inebriante e descomunal prazer de alma e pensamento cumpliciados, a criar a arte. Simplesmente, tais espíritos, emaranhados na sua revolta (qual o mítico e anárquico Satanás bíblico), só encontram real valor, deleite intrínseco, no mórbido, tão ébrios se alimentam da profundidade.

 

Gravataí, 8 de julho de 2000.

Ubirajara Passos

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* me perdoe Monteiro Lobato

Publicado em:  on 06/01/2007 at 12:07 am Deixe um comentário

DE AMOR E FALTA DE ASSUNTO

Este blog foi criado com o intuito de me criar o desafio de escrever diariamente alguma coisa que valha a pena e, quem sabe, me converter num escritor de prosa razoável. Poeta extemporâneo desde os quinze anos de idade (lá vão 26 anos!), nunca escrevi mais que uma dúzia de poemas por ano e tudo em prosa que já produzi (mesmo os textos trabalhados, não meros artigos de jornal para o sindicato, panfletos para o partido ou burocráticas cartilhas e ofícios destas entidades) não ultrapassam uma cem páginas de letra bem gorda.

E, embora me ache um poeta razoável e um bom ensaísta, nunca me aventurei na narrativa além de meus diários íntimos e uma fábula que rumino há mais de um ano (de que só existe, por enquanto, a introdução e um pequeno capítulo), sob o título de “Erótilia”. Assim, este blog deveria se constituir num pretexto para o portador de DDA (outra hora explico o termo) aqui desenvolver hábitos de escrever além da inspiração eventual e custosa. A divulgação de textos e poemas já escritos fazia parte do plano, mas era secundária. Tanto que o blog deveria espelhar um mundo alternativo às minhas elocubrações literárias. Nele eu deveria desfazer-me do personagem quotidiano do meu “eu escrevinhador” e partir para outras pirações.

Mas eis que, ao inverso da tradicional e simples “falta de assunto” de todo cronista diário (que, por pago pelo jornal, acaba escrevendo sobre a própria falta de assunto, mesmo) a coisa comigo é bem pior. Os assuntos, depois que me resolvi a expor-me neste blog, até que voejam, volta e meia, junto com uma folha de árvore levada pelo vento, no caminho diário até o foro. O problema é que, diante da tela branca do computador, eles insistem em fugir e ficam lá, nos remotos recantos da minha alma, a rir da minha cara e dar guinchos homéricos. Creio mesmo que, um dia desses, pilhei (expressãozinha mais velha esta, hein?) um deles se retorcendo e rolando no chão de tanto entusiasmo no deboche!

Mas já que é assim que anda a coisa, divirtam-se um pouco, caros leitores. Que este solteirão embriagado, hoje, quer mais é morrer de tédio… nos braços da deusa da cerveja!

ASNEIRAS DO AMOR

Coisa bizarra, mórbida, o amor.
O que é prazer ou apenas vã promessa
Sacode-nos num vórtice frenético
E põe em ruínas todo nosso ideário.

Não há princípio racional, vantagem
Que, frustrada, nos demova da paixão
Quando nos toma um metafísico tesão.

Se justificam todas as besteiras
E o próprio sofrimento se faz doce.
Um belo rosto, um corpo voluptuoso,
A malícia misteriosa de um sorriso,
E até se vai feliz ao cadafalso.

Gravataí, 25 de outubro de 2000

Ubirajara Passos
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SONETO AOS PEQUENOS CABARÉS

Homenagem saudosa à Cláudia Drink e aos extintos Bagdá Café e Gauchinha.

É madrugada. Corre solto o álcool.
Quem tem um mínimo de assanhamento
Rodopia embriagado no salão.

E os mais embriagados vão ao fundo
De olhos, seios, bocas, coxas,
Tão famintos
Da fantasiosa volúpia, impregnados.

A madrugada é uma promessa de aventuras,
De expedições ao fantástico do gozo,
Mas na profundidade escura dos olhares
Não há o calor de corpos confundidos.

Na angústia disfarçada destas almas,
A gargalhada boêmia é um lamento
Do torturante vazio de suas vidas.

Porto Alegre, 11 de maio de 2002.

Ubirajara Passos

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À feiticeira que me enlouqueceu:

Eu te amo como só os loucos
Ou os santos são capazes de jogar-se
A uma causa irreal perdida no horizonte.

Eu te amo com um amor de vida e morte,
Que, não correspondido, se alimenta do sofrer,
Pouco importando como tu me queiras.

Eu te amo com o ânimo de um doido
Capaz de enfrentar a fúria do universo
Pra te fazer feliz, mesmo eu não sendo.

Eu te amo com a certeza inabalável
De que ninguém amarei com esta intensidade,
De que és a única paixão da minha vida,

E, ainda que distante e rejeitado,
Por mais ninguém, mas só por ti,
Arrebatado, em fogo, eu arderei.

Gravataí, 1.º de junho de 2000.

Ubirajara Passos