“VESTIBURRAR”

No último domingo, às 8 h 30 min da manhã, lá me encontrava eu, em pleno surto de revolução existencial, arrebatado no vendaval das incertezas da perseguição política que estou sofrendo e que pode me usurpar o emprego e me jogar na valeta do banimento sócio-econômico, fazendo a besteira de que evado há mais de vinte anos, sentado, como todo calouro, mudo e taciturno, na “classe”  de uma sala de aula de uma faculdade local.

Em meio à década dos quarenta, com um atraso eterno e infinito, me expunha a outrora tão desejada, e tão evitada nos últimos anos, prova vestibular! É bem verdade que o curso não era o mesmo que, formando do Técnico em Contabilidade (especialização do chamado 2.º grau, hoje ensino médio), há um quarto de século, me propunha enfrentar. Ao invés de Sociologia (que só pretendia cursar em razão dos meus preconceitos de pretenso revolucionário social-democrata) a coisa agora era o Direito (que, por razões “práticas”, como a possibilidade de alçar cargos de chefia no serviço público do judiciário, apresentava-se como desafio necessário). E entre ambas as auto-imposições havia a vocação frustrada de antropólogo ou jornalista…

Mas este não era o único contraste entre o exame de admissão ao curso superior dos meus tempos de piá e o atual. Se em 1984 eu teria de me submeter a uma bateria de textes de conhecimento, da Matemática aos “conhecimentos gerais”, passando pela Física e pela língua estrangeira, em tempos em que Gravataí, já uma das mais populosas e industrializadas cidades do Estado do Rio Grande do Sul, nem sonhava em ter um curso de ensino superior (hoje além das diversas especialidades do campus local da Universidade Luterana, a Ulbra, possui os cursos da Faculdade Cenecista Nossa Senhora dos Anjos, a Facensa), a tortura do dia era uma simples prova de redação!

O que em nada me tranqüilizava, e me fazia suar frio na palma das mãos, pois a eventualidade de ter de discorrer sobre um tema idiota e mal conhecido como futebol ou o mundo das modelos (coisa que bem poderia ocorrer em seleção de faculdade de província) me deixava naturalmente tenso.

Mas, apesar do pavor de calouro quarentão, e até para ver se me distraia e relaxava um pouco, sentei-me exatamente em meio à sala e, dali, me dediquei, até o início da prova, ao esporte de observar os meus companheiros de infortúnio. E pude constatar que, no zoológico pré-universitário em que me achava, havia representantes de todas as famílias e espécies.

À minha direita, chamando a atenção até pela deformação que provocava no espaço à sua volta (que, exatamente como as adjacências de grandes astros, na teoria einsteiniana da relatividade geral, contrai-se e curva-se nas proximidades da massa estrelar) estava o típico gordo juvenil com excessiva massa corpórea e inversamente equivalente capacidade mental, estabanado e tímido.  À esquerda, o seu contraponto físico (e colega de mentalidade), o magrão pequeno-burguês tatuado, malhado, prepotente, metido a surfista, gostoso e conquistador, que se acha muito esperto e conta com o suborno do papai para entrar na faculdade, comprar o diploma e, depois  de formado, ganhar aquela grana, enrolando os trouxas com sua fantástica lábia e aquele ar irresistível de michê de luxo! Entre eles, podia-se ver toda espécie de histéricas filhas da peste emocional, das gatinhas metidas a “Barbie” às dolorosas senhoras de meia-idade, de ar conpungindo e cara amarrotada.

O que nos igualava a todos, entretanto, era a triste situação de gado humano, quieto e apreensivo, como ovelhas do rebanho, ante à pose dos fiscais e à burocracia típica do certame.

Até que,  abrindo o caderno de provas, quase tive aquele ataque de abobadice pura e simples. O tema da redação, numa estranha e feliz coincidência para mim, processado por manifestar meu pensamento, na reedição moderna do crime de opinião, era nada mais que “liberdade de expressão”. E, após alinhar três textos a respeito, a prova propunha a realização de uma dissertação, de 20 a 25 linhas, que respondesse ao questionamento: “Como as pessoas podem expressar-se com liberdade em nosso país?”. Para evitar acidentes de percalços aos mais tapados “tigrões” da classe média local, as instruções advertiam: “É necessário que tenha um título…” e “Organize sua própria argumentação” (não copie as frases  do texto como se fossem suas)”.

Não tive dúvidas! Tendo de resumir e simplificar ao máximo o texto, para não acabar escrevendo um ensaio, e seguindo as regras burocráticas típicas, como a estruturação de um parágrafo introdutório, dois de desenvolvimento e um de conclusão (com no mínimo cinco linhas os dos extremos do texto), escrevi (com direito a rascunho e transcrição para a folha definitiva), na metade do tempo previsto (que era de três horas) a dissertação abaixo, em vinte e seis linhas (talvez tenha sido este o meu imperdoável pecado estilístico e gramatical), que reproduzo exatamente na forma como foi apresentada para que os leitores possam ter idéia de sua “correção”:

“Há Liberdade de Expressão no Brasil?

A Constituição de 1988 garante a todos os cidadãos brasileiros o direito de expressar o seu pensamento sem sofrer quaisquer limitações ou sanções em decorrência de seu exercício. O indivíduo pode até ser responsabilizado civilmente por possíveis danos à imagem de outrem, mas ninguém pode impedi-lo de manifestar-se. Até que ponto isto é uma realidade?

Se levarmos em conta que vivemos em uma sociedade desigual, em que o abismo entre os mais aquinhoados e a massa dos trabalhadores é dos maiores do mundo, esbarramos, de imediato, em sério empecilho concreto à liberdade de expressão. A “opinião pública” é, em geral, o resultado do que circula na imprensa, e esta, dominada pelo monopólio do grande capital, espelha os interesses de seus financiandores, não deixando margem para o  ‘Zé Ninguém’.

Há também limitações à liberdade de expressão dos servidores públicos, nos estatutos das mais diversas instâncias do Estado, com sanções absurdas como a demissão por “crime de opinião”.

A liberdade de expressão do brasileiro comum é, portanto, hoje em dia, mais teoria que prática efetiva. E só se tornará realidade tensionando-se as estruturas sócio-econômicas e os preconceitos culturais e ideológicos que a limitam. É preciso que não nos calemos diante de seu impedimento e exijamos, pelos meios legais, como ações no Judiciário, seu pleno cumprimento.”

Como o leitor pode constatar, posso ter engolido uma vírgula ou uma preposição que outra, mas segui exatamente a cartilha da boa dissertação, não fugindo do tema, nem quebrando o esquema clássico de introdução, desenvolvimento, conclusão, e praticamente não cometi erros ortográficos ou de concordância.

E, chegado em casa, anunciei para a minha mulher, agora em crise de euforia auto-apaixonada, que era impossível ter sido reprovado e o negócio era uma barbada. Foi assim que, trepidante de ansiosa e confiante alegria, abri o site da “ilustre” faculdade, às vinte horas do modorrento e abrasador domingo, para descobrir, assustado e raivoso, que meu nome não constava sequer da lista de “suplentes” aprovados e que, com certeza, o gordo babão ou o brucutu (desculpem-me os leitores com menos de quarenta anos) de bermuda e regata deviam ter uma capacidade intelectual e literária fantástica, digna dos mais sofisticados  e sábios escritores deste país, para se classificarem, enquanto eu, reles mortal sem grana e ligações na “boa sociedade”, era tão ignorante que sequer fora classificado (o que, segundo as regras da prova, só ocorre se o candidato obtiver nota inferior a 2,0).

Como a vigarice legalmente aceita do “manual do candidato” publicado dá a lista de aprovados por “irrecorrível”, e eu não estava a fim de me molestar ajuizando mais uma ação por tão pouco, resolvi me recolher à minha “insignificância” de rebelde letrado (condição que, no país do pretens0 semi-analfabetismo célebre, corresponde à completa debilidade mental) e apenas trazer a público a triste e real anedota. Como há muito venho escrevendo nos panfletos ou matérias do movimento Indignação, em mais este caso, “quaquer semelhança é mera coincidência”.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 11/12/2008 at 1:32 am Comentários (1)

À GUISA DE RESPOSTA AO ÚLTIMO COMENTÁRIO SOBRE “O CHAMADO DO DEMÔNIO”

Cara Linda:

Infelizmente não és a primeira criatura que, diante de “satânicos” ensaios como o comentado, e movida pelo fanatismo, confunde o sarcasmo metafórico e a gaiatice antropológica com a pretensa defesa de uma suposta seita diabólica (assim como os meus perseguidores político-patronais – os senhores manda-chuvas do judiciário gaúcho – confundem linguagem espontânea e pura, ausência de hipocrisia e contundência sem rodeios e bem-humorada com obscenidade e agressiva “injúria”).

Não vou, portanto, repetir-me e repisar tudo o que já foi dito a respeito deste tema. Mas gostaria de lembrar, sem qualquer ânimo de deboche, que Cristo era o sujeito mais tolerante, “bon vivant”, racional  e livre do contexto social em que vivia. Não é por acaso que seu primeiro milagre foi justamente transformar água em vinho (uma terrível droga corruptora das “virtudes morais” e do “dever”, segundo os beatos secos e chatos cujo maior gozo é o falso auto-flagelo altruísta e o concreto sofrimento alheio) e que adorava conversar com os “malditos” da sociedade judaica: mulheres, cobradores de impostos, ladrões e putas (porque sabia que, vítimas que eram do poder iníquo dos lacaios coloniais lambedores do saco romando, a elite sacerdotal e letrada do lugar, tais membros da “ralé”, estavam mais próximos da condição legítima de “gente” do que seus algozes).

Logo, se Cristo vem em breve, não vai acabar meu culto, porque, se tenho um, ele é o da liberdade, do prazer e do direito à própria dignidade e bem-estar puro e simples a que cada bicho humano deveria ter. E, ao invés de temer o teu suposto Cristo bronco, sádico e vingativo, amo apaixonadamente uma mais criaturas mais revolucionárias, sensíveis e sem rodeios que já habitou este planeta e que, se realmente pudesse retornar a ele, estaria agora, de braços dados comigo, lutando pelo gozo, pela liberdade e pela santa loucura de fazer e dizer o que se pensa e o que se sente, sem qualquer temor nem compromisso tacanho e redutor da condição humana (que vai muito além da rotina mecânica e utilitarista).

Publicado em: on 10/12/2008 at 12:08 am Comentários (1)

A “UTOPIA” DA “VIDA”

A necessidade de manter atualizado o blog do Grupo 30 de Novembro (grupo30.canalblog.com) levou-me a revisitar, nesta semana, alguns poemas políticos deste blog (como O Sonho do Peão  e Desabafo de um “Peão-Padrão” ante o Domínio), assim como alguns ensaios dos Sermões na Igreja de Satanás (entre eles, Das Vantagens da Ignorância), acabando por publicar os citados.

E, no estado de consciência totalmente “bipolar” em que me encontro, acabei por lhes achar um sabor e uma profundidade que a devastação de um quotidiano monótono e a depressão haviam há muito sepultado. Daí às memórias afetivas que envolvem tanto o parto destes textos, quanto a rara divulgação entre conhecidos e colegas de trabalho, na era pré-blog, foi menos que um tropeço…

Logo saltou-me às guampas a ocasião em que dei uma cópia dos sermões à alemoa Glacy, faz aí já uns cinco anos, e tendo eu reclamado que a criatura só lera os “trechos picantes” de sermões como Do Comércio Sexual e Da ideologia da Qualidade e o Desempenho Sexual, sem dar por conta dos textos mais “sérios”, de profundo e “engajado” anarquismo, ela me veio com a notícia de que seu marido se dera ao trabalho de percorrer todo o livro. E chegara à conclusão óbvia e padronizada de um velho militante vermelho que era: Como todo anarquista, eu era utópico e libertador!

Não é nem necessário contar a fúria que me incorporou com este negócio de “todo”, que vai logo nos jogando na padronização reducionista e senhoril da destinação utilitária, como perfeitas reproduções que somos todos dos parâmetros “universais” deduzidos pela mente imbecilizada de qualquer teórico cartilhesco.

Mas o que me deixou mais puto da vida foi a adjetivação de utópico!

Afinal eu não me julgava nenhum idiota messiânico e otimista, destes que insistem em rebentar o cu, contra todas as indicações “concretas” e duras de uma realidade filha da puta, no exercício de um radicalismo ingênuo e crente. Isto é esporte que deixo para a turma do chafariz da praça da prefeitura de Gravataí, que pelo menos ganham alguns cobres suados e melados com as taras do Peruca!

Como todo DDA tonto , só hoje, me dou conta, entretanto, da implicação efetiva do pretenso “anarquismo utópico”! Utopia para o meu crítico de plantão era a própria liberdade, o direito ao prazer e ao bem-estar, a condição de indivíduo humano, pensante e sensível, cuja existência se justifica por si mesma!

O resto, a escravidão babaca e imbecilizada, a vida de permanentes sobressaltos ante os “caprichos” de um senhor ou chefe temperamental e retardado qualquer (não sei por que logo imagino o Nero abobalhado, vaidoso, cretino e pérfido daquele velho épico yankee, Ben Hur, ao escrever este trecho) é, na versão do meu exegeta de então, a mais perfeita e inquestionável regra – rotineira e comum -, cujo questionamento só poderia ser obra de um insano ser “excepcional” e extra-humano!

E o detalhe é que tão preciosa apreciação filosófico-político-estética não é exclusividade dos filhos da cartilha camarada, mas a visão comum do gado humano nos últimos seis ou dez mil anos! Qualquer coisa diferente da funesta condição de escravo, de instrumento conformado e sem humanidade, submetido às piores torturas psicológicas que nem um cachorro de moleque irrequieto suporta, para a maioria avassaladora da humanidade, é algo estranho e doentio! Uma múmia ressecada e tesa é  seu ideal de perfeita humanidade!

O bom-humor, o prazer puro e pueril do corpo e da alma, a piada instigante e ágil, a mente aberta, inteligente, questionadora e livre, a natural simpatia com os parceiros da jornada de vida, a tendência humana (terrivelmente reprimida, mas subjacente, sempre que o aparato autoritário pisca por um segundo) à convivência mutuamente gratificante, até mesmo no anedotário típico das pequenas vilas, são o mais próximo e “razoável” da nossa natureza de animais mamíferos “evoluídos”. Mas a perfídia filha da puta do sadismo sofisticado vê nisso, quando não um crime, algo impossível, longínquo e inválido.

Ubirajara Passos

DO DOCE DE COCO À BOSTA DE VACA

Apesar da importância das decisões e atitudes que tenho tomado nos últimos dias, esta semana uma clássica exaustão de DDA, aliada à falta de sono crônica, me tomou a ponto de me transformar num verdadeiro “zumbi” haitiano, completamente sonolento, burro e robotizado. Uma criatura daquelas que consegue cumprir apenas as “tarefas” mais burocráticas e insossas do trabalho e do quotidiano diário – da cagada protocolar pela manhã ao cálculo judicial urgente das 3 h da tarde, do pagamento da conta de água no caixa do Banrisul ao peido incontido no meio do cartório, e da assistência do noticiário televisivo à esculhambação privada dos mais vaidosos inimigos políticos.

E foi em meio a esta jornada de “morto-vivo” que, num lampejo dos mais infantis e, por isto mesmo, criativo, acabei por parir com o Kadu, no finalzinho desta tarde, uma das  conclusões filosóficas mais geniais da história humana sobre a terra. A coisa pode cheirar a Machado de Assis (sem nenhuma conotação onomatopaica!) e ser digna de figurar no discurso do filósofo Quincas Borba (quem sabe até na cartilha positivista do próprio Comte, na sua  versão escrita em “absinto”), mas o fato é que ultrapassa, em originalidade, até o próprio Einstein!

Depois de ver, pela segunda vez nesta semana,  o Peruca encher a barriga de doce, inclusive banana, torta de chocolate e coca-cola, e sair correndo com a mão nas calças para casa – não para “esvaziar a barriga”, mas trocar de roupa – me dei por conta, “a las cinco en punto de la tarde”, como diria o velho Garcia Lorca (poeta andaluz gay e revolucionário assassinado pelo fascismo franquista no início da guerra civil espanhola), de que, nesta nossa vidinha de animais humanos, primatas precários, “evoluídos” mas desconectados das raízes mais básicas e benéficas da vida, tudo que começa doce acaba se transformando em merda!

Não é preciso ser nenhum Sócrates, muito menos um Heidegger ou Witgeinstein (perdoem-me os leitores eruditos a possível grafia errada, pois já estou meio bêbado – o que é um mal hábito: o bom é estar embriagado por completo) para determinar tal comezinha equação. Mas, com certeza, muito pouca gente já se deu conta disto e levou o troço a sério. O fato é que o mais delicioso manjar, o mais sofisticado, “nobre” e raro prato, daquele quindim de sabor inigualável a um exótico caviar ou escargot (lesma fresca de francês muito comentada no Brasil dos anos 1980), passando pela pamonha de um colono açoriano (pasta de milho ralado cozida na palha da própria espiga) ou por um bronco xis-burger gaúcho, tudo, no fim, percorrido o trajeto de um arrogante e vistoso corpo humano (até o daquela gatinha linda, miona e gostosa) acaba por virar uma grande bosta!

O que não justifica, ou ao menos não deveria, com certeza, justificar os absurdos de uma revolução russa de 1917 desembocando no autoritarismo torpe e vaidoso de um Stalin (assassino de milhões de camponeses), uma revolta estudantil libertária e impetuosa de Paris em 1968 se tornando a sombra mal-concatenada de uma pretensa “malandragem” e uma forma “casual” de ser na vida privada, incorporada aos canônes do imperialismo capitalista; ou a  crença, ingênua mas determinada, de um povo oprimido num PT brasileiro resultando no governo mais fascista e, ridícula e atrozmente, coronelista e feudal da história nacional, sob o comando do Inácio dos Nove Dedos (Lulinha, o mais entusiasta “cabo” eleitoral latino-americano do candidato fascista ”republicano” John McCain à presidência dos United States of America).

E, muito menos, deveria ser motivo para que transformemos nossa vida, nós animais capazes de consciência de si próprios e do mundo, de raciocínio lógico profundo e, simultaneamente, de profundidade de sentimentos e emoções, numa verdadeira bosta, rotineira, insípida, sem criatividade, nem direito às próprias decisões. O velho aforisma daquela brincadeira infantil (quem tem mais de quarenta anos deve se lembrar, não sei se a molecada ainda a conhece) deveria ser invertido, na sociedade autoritária e hipócrita que vivemos, para derrogar toda opressão: Vaca amarela/cagou na panela,/Quem” não “falar primeiro”/Come a merda dela!“.

Ubirajara Passos

PEQUENO INFERNO PARTICULAR

Enquanto recarrego as baterias mentais e emocionais, exauridas nas reinas e desacertos políticos e funcionais, e sacudidas pelas surpresas amorosas (que, por ora, continuarão a ser surpresas para os leitores), deixo os amigos na companhia de mais um poema de fossa, este escrito no meio de fevereiro, logo no período pós-férias. Sei que a grande maioria vai se entediar e me mandar, intimamente, à puta que pariu: “lá vem o Bira de novo com esta merda; desde dezembro não sabe escrever em versos outra coisa senão esta lamúria alcoólico-depressiva repetitiva”. Mas me perdoem os mais exigentes. Pode ser que algum bi-polar tão doido quanto eu se console, nesta hora da madrugada, com a “pérola” que segue:

PEQUENO INFERNO PARTICULAR

Hoje me sinto qual uma tia velha,
Uma dessas solteironas de romance
Oitocentinta ou documentário,
Como um estéril personagem feminino
De “novela das seis” da Rede Globo,
Ou seca e raivosa virago patriarcal
De um mundo morto, ainda pulsante
Nos alfarrábios de um García Marquez.

Me sinto hoje qual aquelas doidas
Que ainda esperam aos oitenta o amor
Que um dia sumiu dobrando a esquina
De intemporais eras, na neblina
De uma vaga juventude não vivida.

Hoje, boêmio já meio aposentado
Da sacanagem ingênua mergulhada
Em rios de cerveja e irreverência,
Pareço uma beata azeda e insossa.,

Ou o arremedo medíocre de um Dante
Sonhando um paraíso semi-islâmico
Na doce nostalgia ressentida
De uma gostosa Beatriz nunca tocada.

Sou uma infeliz mistura ambulante
De boemia descomprometida
E romantismo nostálgico e choroso!

Sou a profundidade apenas sonhada
E a fria emoção superficial e falsa
A se esconder na altissonante gargalhada,
Gozando em ondas circulares, em orgasmos
Múltiplos auto-abastecidos
Da entusiasmada e oca irreverência,
Do pobre porre que esvai, no meio,

Na xaroposa choradeira cheia de glamour,
Na arenga lamentosa e intelectualizada
Ou falsamente expontânea e popular,
Mas tão medíocre, infeliz e comezinha
Quanto a de qualquer bêbado frustrado,
Tão cambaleante quanto a falta de sentido
De um pivete no barato da “loló”!

Gravataí, 17 de fevereiro de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em: on 06/04/2008 at 1:29 am Deixe um comentário

PENUMBRA APENAS

Aí vai, para ajudar algum leitor entendiado a adormecer de aborrecimento, um triste produto da minha insônia, recém-parido:

Penumbra apenas

Três horas da madrugada.
Na rua os gritos pingunços
Sobressaltam a modorra
Dos ruídos uniformes
Dos carros na avenida.

A noite enjoada dormita
Sonhando as últimas horas
Dos butecos e bailões,
Transformando a euforia,
A dança de corpos, copos,
Na náusea das nebulosas.

Lua e estrelas bocejam,
Algumas até tropeçam
No canto desafinado,
No grito desatinado
Dos boêmios cambaleantes.

E eu, mais sem rumo que eles,
Mais entendiado que a lua,
“Lúcido” e ínsone, sem graça,
Ouço a noite e seus silêncios
Salpicados dos ruídos
Anônimos e tediosos.

Aborrecido, sou a noite,
Dos cães sou débeis ganidos,
Sou bêbados, sou motores
De carros, sou a penumbra
De uma madrugada eterna,
Repleta do sem-sentido
E falta de escuro ou luz.

Sou um eterno devir
Que jamais se faz presente
E carece de passado.

Gravataí, 20 de janeiro de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em: on 20/01/2008 at 2:46 am Comentários (1)

INÉRCIA ABSOLUTA

O poema que segue me surgiu há pouco, em plena madrugada (são 3h 44 min), como resultado da minha falta de graça dos últimos dias e, apesar de estar sendo publicado no horário abaixo, foi programado neste instante, na página de administração do blog, para só ir ao ar no meio da tarde. Fiquem assim tranqüilos os toscos e autoritários burocratas que bloquearam o acesso a este blog, e a todos do “subsversivo” wordpress, na rede de computadores do judiciário gaúcho. Não a estou usando, como aliás nunca fiz, apesar de suas histéricas suspeitas, para publicar textos no Bira e as Safadezas…

Já os demais leitores, se possível, distraiam-se, mesmo cabisbaixos e ensimesmados atrás de seus gigantescos birôs.

INÉRCIA ABSOLUTA

Só a ridícula e insistente teimosia
Mantém-me vivo, a me arrastar, somente
Uma esperança vã, um vago devaneio
Faz crer que, ossificada e nula,
Da minha mente algo novo ainda surja.

Rastejo, uma absurda gravidade
Me imergindo, mais pesada que a Terra,
No fundo poço plúmbeo da rotina.

Alguns débeis disparates tentam em vão
Inflar as asas e alçar vôo da minha alma,
Mas tão magrelas são e é tão densa
A idiotizante canseira sempre igual

Das horas mortas, dos procedimentos
Velhos e gastos, os embates
De uma vidinnha circunscrita,
A espessa asneira
Do velho teatro bufo do poder

Que os arroubos de idéias mal paridas
Logo perdem força e se transmutam
Numa infeliz caricatura do humano.

Gravataí, 20 de novembro de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em: on 27/11/2007 at 4:30 pm Deixe um comentário

O APAIXONADO E O ASNO

Não, não se trata de dois personagens contrapostos, mas complementares, e cuja identidade comum sou eu próprio.

Tenho sofrido vida a fora, desde os meus doze anos, da terrível mania de me apaixonar pela gata mais linda e inacessível que estiver por perto e já cheguei a curtir anos de encantamento e dissabor romântico por uma colega do ensino fundamental (na época se chamava 1.º grau), sem que jamais a musa manifestasse o menor interesse amoroso a meu respeito e correspondesse por um único instante ao meu alumbramento. Esta, a paixão dos meus treze, quatorze, quinze e todos os anos que se contaram até os trinta, no princípio até foi um simples objeto do meu desejo, mas depois se transformou numa espécie de “deusa”, que, se cedesse ao meu interesse, se veria frustrada frente a um adorador capaz de se jogar aos seus pés, embasbacado com a beleza daquela descendente de italianos – de pele branquíssima, cabelos castanhos e lindos olhos verdes -, mas que talvez não lhe tocasse sequer o dedo mínimo, tímido e enredando numa contradição absurda entre um amor de idealização estética intelectualizada e o puro e simples tesão.

Eu era, adolescente, um verdadeiro “monge” do amor romântico! E graças à minha burrice, cevada num ambiente doméstico patriarcal e estreito, me empenhei em uma idolatria após a outra (ainda que as últimas musas, com o passar dos anos, fossem se tornando mais objetos do desejo reprimido e desenfreado que da idealização mental), até (passando por uma relação equivocada, onde amor e interesse financeiro se complementavam e se espicaçavam mutuamente) me tornar, tecnicamente, o que sou hoje: um quarentão solteiro que, ao invés de celebrar a sua liberdade, trocaria o mundo por um rotineiro e insosso casamento pequeno-burguês. Que, jamais tendo experimentado o amor mútuo entre dois seres, teria orgasmos cósmicos em fazer o rancho aos sábados, aturar crianças gritonas e agitadas, e sofrer a saraivada de críticas de uma jararaca doméstica, a condenar-me os livros e responsabilizar o dinheiro neles gastos (e nas revistas, jornais, CDs, DVDs, no cinema, e etc.) pela pindaíba financeira da família. Ou seja, uma perfeita família trabalhadora tradicional, o retrato do ambiente em que criei-me!

Não fossem os cabarés e as “aproveitadoras” que souberam contemplar o meu romantismo incorrigível mediante um bom ajutório às suas necessidades econômicas, disfarçando o “comércio sexual” no eterno jogo de sedução e rejeição emocional (aquela criatura que transa contigo, te pede um dinheirinho emprestado pra comprar cigarros, dá a entender que está apaixonada e, na primeira besta declaração de amor que o sujeito faz, diz que, apesar da transa, gosta muito de ti, “mas como amigo”), por pouco não me transformei no último “virgem” sobre a face do planeta (ainda que o fato de ter nascido em 30 de agosto não possa ser mudado, nem mesmo pelo ascendente lunar em “escorpião” que me salvou de ser um virgem de signo e de sexo!).

Mas a verdade é que não posso me penitenciar de nunca ter sido amado! Algumas doidas houve, desde a outra colega do 1.º grau que tentou seduzir-me e, diante da rejeição, me xingou aos brados na frente da eterna musa, até a empregada doméstica de uns primos em segundo grau de parentesco que freqüentava a minha casa na época dos meus vinte e poucos anos, quando eu insistia em outra paixão frustrada e inútil, tentando fazer existir o escritório de contabilidade precário que fundei aos dezoito anos e que tive de abandonar, para ter um mínimo de rendimento digno de gente, me tornando funcionário público, lá pelos vinte e quatro.

O problema é que eu fazia com elas exatamente o que sofria das minhas adoradas: desprezava. E preferia sofrer atrás do impossível que me contentar com o comum e pouco fascinante afeto que andava ao meu lado. É que eu tenho uma mania terrível de amar a encrenca, o grandioso, o inalcançável, e, sobretudo, o imprevisível e mal-comportado. Não foi por acaso que me tornei um anarquista!

Mas houve umas destas minhas pobres adoradoras a que lamentei não ter correspondido. Contando menos quatro anos de idade do que eu, lá pelos meus dezessete, apesar de gordinha, me enlouquecia de tesão com seus seios lindos e fartos, ainda que então não manifestasse o menor interesse explícito e nem tomasse atitudes explícitas de sedução para o meu lado. Me lembro muito bem de um domingo em que, separados por uns três metros de distância, mudos e vestidos, a criatura me excitava tanto que o tesão chegava a doer!

Uma vez ela me disse que uma colega de escola sua, que havia vindo aqui em casa, e eu fiquei “secando” sem a menor reciprocidade, lhe comentara: “como é bonito o fulano” (o que me incendiou a vaidade, piá magro e desengonçado que sempre teve dúvidas sobre si mesmo). Mas jamais imaginei que a admiradora era ela mesma. Até que um dia, eu lá pelos meus dezenove anos, ela com quinze, caminhávamos a beira-mar e a gatinha (que havia emagrecido e se transformado na coisa mais linda e gostosa, e cujos seios moldados pelo vento na camiseta branca continuavam a me enlouquecer) deu a entender que queria me namorar, mas usou uma frase arrevesada e o imbecil do DDA aqui, que – na época – estava louco pra lhe satisfazer a vontade, se fez de bobo e perdeu eternamente a chance! O ideal artificial e intelectualizado da paixão espezinhava um fogo mútuo que poderia se tornado uma grande história!

Uns dez anos depois, ela vinda de um casamento frustrado, eu continuando a colecionar paixões inacessíveis e impossíveis, nos encontramos numa destas festas xaroposas de aniversário de crianças, numa tarde de domingo modorrento. Ela, simplesmente linda (anotei numa agenda, no dia 8 de outubro de 1995 o trecho seguinte, que há algum tempo reencontrei e me lembrou a cena passada logo após: “cintura fina, seios fartos – de minissaia e blusa branca e meias pretas – foi ao corredor do banheiro me cumprimentar, segurei-lhe a mão enquanto lhe beijava o rosto, e a gata me disse: ‘Já ficou rico? Como ficou bonito! Será que eu e o Bira nunca vamos ser normais… nos casar e ter filhos?”). Na época eu alimentava uma poupança rechonchuda (uma conta bancária! não vão supor outra coisa!) que viria a gastar quase toda na boemia nos quatro anos seguintes, e era 4.º vice-presidente do Sinjus-RS. Perdera a ingenuidade romântica, mas continuava tímido, e “fiquei na minha”, ao invés de ceder ao desejo mútuo.

Contentei-me, besta e burro, com a visão mais impressionante que já tive na vida. Eu nunca havia visto o corpo da minha linda amiga mais do que um decote ou uma saia curta permitisse. E, uma meia hora após o nosso encontro fortuito, ela ia saindo da porta da cozinha para o quintal dos fundos, quando um malicioso raio de sol de fim de tarde lhe bateu sobre a pele, tornando a roupa transparente, e eu pude ver, de calcinhas de renda, cinta-liga e seios nus, inteirinha a pele de neve daquela loira descendente de ucranianos e pretensos alemães (na verdade galegos) peladinha e maravilhosa! Foi a primeira e última vez! E hoje, oitenta mulheres após, ainda lamento a oportunidade perdida de não ter vivido com ela o amor natural, fogoso e arrebatador que teria botado no chinelo qualquer paixão “cabeça”, artificiosa, intelectualmente sofisticada e besta, filha do patriarcalismo disfarçado que ainda vige.

Mas chega de divagações chorosas! Já passa da meia-noite (grande coisa!) e amanhã tenho reunião da chapa de oposição do PDT gravataiense pela manhã, e à tarde vou com meu amigo xupaxota conhecer um novo cabaré no centro de Porto Alegre: a Michelle Massagens, na rua Otávio Rocha.

Ubirajara Passos

LAMENTO DO POETA ACABRUNHADO

No fim do beco,
Na tarde que morre

Flutua, cinza,
Fundindo céu e terra,
Uma tristeza imprecisa,
O chuvisqueiro

Divide o espaço com uma listra evanescente
De luz oblíqua,
O ar parado

Recende à terra úmida, indecisos
Espectros cruzam a esquina,
O pensamento
Suspenso, o livro
No regaço abandonado,

Sou sensação pura e não verbalizada,
Sou grama, sombra, transparências,
Sou cordilheiras muito além do horizonte,

Sou noite que nasce amalgamada
Ao branco véu que desce dentre as nuvens,
Sou um nada imenso, um todo espremido
Nos meandros da ruela irregular;

Sou um objeto mudo e inominado,
Um detalhe
No abandono do cenário,
Sou desejos,

Que ao nascer se esvaem,
Sobretudo,
Sou um inerme irmão da solidão.

Gravataí, 31 de julho de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em: on 31/07/2007 at 1:54 am Deixe um comentário

DOIS POEMAS BESTAS

Em 1991, aos vinte e cinco anos, após meses de pânico quase permanente no ano anterior, e curtindo a primeira grande depressão da minha vida, eu mal imaginava que, em menos de um ano, eu seria líder sindical e, em menos de dois anos, estaria irreversivelmente ligado às grandes batalhas do Sindjus-RS. Os poemas que seguem dão conta da minha incapacidade de tornar ação, então, os ideais em que cria, e a minha impossibilidade de voltar a escrever algo válido, quando eu não supunha que pouco havia até então escrito e o que viria depois.

 

POEMETO DO ARREPENDIMENTO

Não. Não é possível que a vida se me esvaia
Sem ter jamais ao campo de batalha
Arrojado-me, sequer, a perseguir ideais;
E, derrotado sem luta e sem vontade,
Veja cair-me uma a uma as máscaras
De que cobri, em atroz engano, a face,
Vivendo a iludir-me e ao mundo
Na promessa vã, hipócrita, infinda
De principiar a grandiosa jornada;
A transformar-me a vida em imensa farsa.

Gravataí, 11 de maio de 1991

Ubirajara Passos

 

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ENLEVO FUGAZ

Ao iniciar da longa madrugada
Cantam os sapos nos longínquos banhadais,
Trazendo-nos à nostálgica memória
Velhas histórias e pungentes ais.

Sob a gélida e nívea cerração
Na invernal noite, melancólicos
Entoam velhos temas ancestrais,

A mergulhar-nos em vagos devaneios,
Fazendo-nos sonhar com tênues sentimentos
Que perderam-se na noite azul dos tempos

Gravataí, 26 de maio de 1991

Ubirajara Passos