“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:

 

Diz o velho aforismo que “cabeça desocupada é oficina do diabo”. Pois é o que parece que me aconteceu ontem, lá pelo meio-dia, entre uma navegada pela internet e uma ou outra risada gostosa e moleque da Isadora, brincando comigo – que acabou por desaguar no poeminha cretino e safado que segue, daqueles da série “sacanagens sociológicas empíricas da pequena-burguesia”:

“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um
banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:

Andava muito enjoada
De festinhas fashion, teatro,
Exposições e frescuras,
E, desejando loucuras,

Foi ao bar, sentou na mesa,
Logo veio um cafajeste
Com aquela conversa mole,
Lhe elogiou muito a beleza
E o papo intelectual
E convidou-a a beber.

Abobalhada com o tipo,
Tomou quatro uísques duplos
E acordou com hemorróidas.

Não sabia, até então,
Que “líquido alcoólico com gelo”,
Quando empinado em excesso,
Dor no cu causar pudesse.

Gravataí, 12 de novembro de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 13/11/2009 at 1:00 am Deixe um comentário

DISCUSSÃO DE TRÊS MILITANTES POLÍTICOS BÊBADOS NUM BAR DA “CIDADE BAIXA, EM PORTO ALEGRE

Nestes dias em que os velhos moralistas petistas desvelaram de vez sua máscara hipócrita para defender a pouca vergonha mais reles e vulgar (daquela vulgaridade de que não vale nem a pena falar para não se cair no lugar comum dos sermões anti-corrupção em que os petistas fora do poder eram tão exímios) dos corruptos mais óbvios e poderosos, acabamos, eu o Alemão Valdir, numa manhã destas, em conversa pela internet, por parir o argumento da peça teatral que segue (que está mais para número mambembe que peça propriamente dita), mais tarde escrita por nós a quatro patas. Pra variar, o Alemão é autor de alguns versos. Dou um prêmio pra quem descobrir quais são. Qual o prêmio só revelo se alguém descobrir, também.

Como se verá, a peça não é nenhum primor de literatura e muito menos de política ou filosofia. Seu texto é até ingênuo (poderia estar na boca de qualquer funcionário público revoltado de Passo Fundo, no interior do Rio Grande, por exemplo), mas cai como uma luva no fascismo explicitamente corrupto do governo do Inácio, em que a censura (com o disfarce de ação judicial) foi reinaugurada justamente para impedir que a imprensa possa denunciar a coisa mais óbvia e encardida das últimas décadas da política brasileira, qual seja o fato de que a família Sarney (catapultada ao trono feudal maranhense, como dinastia permante, pela ditadura fascista imperialista inaugurada em 1.º de abril de 1964) é corrupta, vive da corrupção e não comete um ato político ou econômico que não esteja relacionado a sugar o próprio estado burguês. O Estadão, entretanto, não pode divulgar as falcatruas do Sarney Jr. para não manchar-lhe a honra e o direito fundamental de imagem… Mas, enfim, vamos ao texto:

Discussão de três militantes políticos bêbados num bar da “Cidade Baixa”, às duas horas da madrugada, em Porto Alegre

(encenação em um único ato)

Cenário: um obscuro bar com duas portas paralelas na fachada, prédio do estilo dos anos vinte do século passado, mesas na calçada, numa das quais se acham sentados os personagens no início do ato, postes de luz ao lado esquerdo das mesas, de luz amarelada, com canteiros de grama molhada de chuva, salpicados de tocos de cigarro à direita das mesas.

Personagens: o Portuga Libertário, o Pelotense Petista, o Alemão Batata Vermelho, um garçom vestido da forma tradicional, alguns figurantes bebericando às mesas.

Abre a cortina.

É inverno. Um vento forte (o minuano) corre o cenário, carregando folhas secas de árvores e fazendo esvoaçar guardanapos de papel e as melenas dos personagens. Os três militantes se encontram sentados na mesma mesa, bebericando. O Portuga Libertário à esquerda, o Pelotense Petista à direita e o Alemão Batata Vermelho ao fundo. O Portuga sobe na mesa e principia a falar.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (de cabelos desgrenhados, casaco preto cheio de caspa, óculos ensebados de gordura, de pé sobre a mesa, cuspindo fogo… e cachaça):

Republiqueta colonial,
semi-feudal,
neo-capitalista…

O PELOTENSE PETISTA (gordo e baixinho, cabelo preto penteado para trás com gel, terninho preto e gravata cor de rosa choque, com o nó frouxo atado pelo meio, um broche de estrela pespegado no peito, jogado na cadeira, segurando um copo de uísque Nato Nobilis cheio de gelo derretido):

Por culpa dos anarquistas,
só querem baderna.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que peida, enquanto tenta se equilibrar sobre a mesa):

… em que não serve simplesmente fuder-se o operário,
mas, sobretudo, para que o poviléu bovino
fique tranqüilo com sua bolsa-esmola,
é necessário,
pra caralho,
na republiqueta,
dar de mamar, muito mamar, mamar demais,
com toda “honra”, só mamar na teta,
a Sarney, ao irmão do irmão do primo
filho da mãe do bodegueiro,
da sobrinha
do industrial,
do feto que nem mãe ainda tinha…

O PELOTENSE PETISTA (derramando o uísque “chique” sobre a gravata, com aquele olhar esbugalhado de quem perdeu a propina no bolso furado):

Cala a boca, subversivo,
horrendo
comunista comedor de criancinhas.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se levanta após um trambolhão, tira o copo da mão do Pelotense com um safanão, dá um talagaço, e o joga contra a parede):

… republiqueta maldita! A etiqueta
dos punhos brancos se mistura com a farinha
rala do escaveirado sertanejo,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos “sem-teta”,
e algoz e torturado dão-se as mãos
nesta ciranda sádica (punheta
que o “dono” bate com a mão alheia
do servo submisso,
no seu sócio
de vigarice,de orgia e vício…)

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (de cor e ideologia… vestido dos pés à cabeça de farda militar camuflada, óculos escuros em plena noite, com um copo de underberg à mão):

Mas que negócio é este de punheta?
olha a censura!

O PELOTENSE PETISTA (furibundo, avançando sobre o Portuga, que se esconde de quatro em baixo da mesa):

Censura não há, seus desbocados pecadores!
O que há é o chicote exemplar da Lei
que só existe para que os senhores,
e os do seu tipo não desgracem tudo
e desonrem a República Mãe Nossa
com esta conversa fiada de falsos moralistas…

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que sai, de gatinhas, do outro lado da mesa e se volta para o Pelotense, abrindo a braguilha e brandindo o censurado, que logo esconde, para desapontamento do Pelotense):

Punheta sim! Que os descarados socam
pra se esporrar, com seus punhos rendados,
sobre as cabeças miseráveis do rebanho
de cuja angústia, do medo, do castigo
provém o hábito de lamber o sapato
dos entojados “proprietários” da nação!

O PELOTENSE PETISTA (que olha para o sexo do Portuga entre fascinado e furioso, e murcha quando a braguilha é fechada):

Olha, “bandido”, desregrado, “fiô da puta”,
pra ti, terrorista debochado,
censura é pouco,
tens que ser banido
do convívio austero e disciplinado
de nossa honrada e impoluta sociedade!

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (secando o copo de underberg e pedindo um chope):

Vê o que diz este safado pelotense
autoritário,
que só quer submeter-nos
pra impedir que se mexa em “seus” pertences
havidos com a expropriação
do suor alheio
(expropriação séria e honrada!)

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se aproxima da mesa e toma um gole do chope do alemão):

Ele só diz e faz tudo isto
porque existe o rebanho submisso!
Como se há de aclarar a consciência
do servo massacrado cujo braço
é o único capaz de esgoelar o algoz
explorador, sem a menor pena,
para poder realmente então viver?

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (dando um soco na mesa, não se sabe se por entusiasmo ou contrariedade com o gole roubado pelo parceiro Portuga):

Meu caro Portuga anarquista,
tu muito bem conheces,
Eu que fui “estalinista”,
hoje concordo com o Reich:
o problema tá no rabo!
Ele não disse, mas acho:

Ou se arranca o rabo ou se lhe joga ferro em brasa
pro rabo parar de arder!
Senão como se há de dar cabo
de tanto idiota curvado
babando aos pés de outros tantos
imbecis, burros, vaidosos
que passam, com a anuência
dos idiotas de baixo,
o tempo esfregando o rabo,
roubando, e “lavando” o roubo,
e exercendo o poder?

Cai a cortina.

Gravataí, 4 de agosto de 2009

Ubirajara Passos e Valdir Bergmann

Publicado em:  on 05/08/2009 at 12:45 am Comentários (2)

JOÃO VELHACO

Já mencionei, há uns meses, o velha esquema da imprensa brasileira, no auge da ditadura militar fascista de 1964, de substituir matérias censuradas por meras receitas de bolo, trechos dos “Lusíadas”, de Camões, ou mesmo por, aparentemente, inocentes e ingênuas previsões de tempo.

Pois é, por falta absoluta de originalidade para abordar outros assuntos transbordantes de ardor, como os capítulos seguintes da “Bíblia do Peruca”, e não por imposição de qualquer censor externo ou interno, que resolvi acatar a sugestão do companheiro Valdir Bergmann.

E, assim, publicamos, em homenagem à maioria avassaladora de “gatos pardos” da política nacional (embora alguns bichanos se diferenciem pelo tamanho do rabo, que tende a crescer com a reposição de seus minguados salários em 143%, como é o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius), o poema que segue.

O texto foi escrito a quatro “patas” por mim e pelo alemão Valdir, há uns quatro anos, como sátira aos ilustres sindicalistas pelegos destes pampas, e serve como uma luva para advertir-nos contra falsos líderes, do quilate de Lula e de Stalin, especialmente neste momento em que setores do serviço público gaúcho, como os funcionários do Poder Judiciário, sofrem os mais descabelados ataques à sua condição salarial e funcional, destinados que estão, pela patronagem, a se transformar em meros robôs de carne e osso, sem direito a reajuste, nem dignidade pessoal em seu trabalho.

Deixamos claro, desde já, que qualquer coincidência com a trajetória de algum dirigente petista é mera semelhança. Vamos às “quadrinhas”:

João Velhaco

Dizem uns, foi em Pelotas,
Outros em Arroio Grande -
Lá pelas bandas do sul,
Nasceu há uns bons trint’anos
O bebezinho João!

Joãozinho, lindo moço,
Tão simpático e envolvente,
Rechonchudinha criança
Desde cedo revelou-se
Um primor de rebeldia!

Na festa de formatura,
Orador, do pré-primário,
Encantou toda assistência
Com um discurso veemente:
Cola tenaz (não havia
Ainda a super bonder)
Jogar aos cabelos da “tia”
Era um tremendo protesto
Contra os maus-tratos à infância!

Já jovenzinho, criado
Na escola forense da vida,
De pai Oficial de Justiça,
João, embora panfletário,
Da pompa dos gabinetes
Tanto viu-se fascinado
Que integrou-se ao Judiciário.

Mas ao pai que era o exemplo
Joãozinho não suplantou!
Fez-se apenas escrevente
E, rebelde novamente,
Resolveu ser o momento
De fazer algo medonho:
Tornou-se sindicalista
Pra balançar toda gente!

Greve, passeata, discursos -
Discursos e mais discursos -
João era um temporal!
E da sua boca saia
Não o inconformismo apenas!
Seu palavrório era belo,
Tão lógico, tão perfeito!
João, bonachão gordinho,
Homenzinho sem defeito,
Era a estrela do dia!

Mas, como isso não rendia
Nem um tostão, nem trazia
Fama maior, iracundo,
“Don Juan”, gay enrustido,
Na comarca, furibundo,
Frustrou-se e se foi ao mundo.

Como quando piá havia
Na primeira vez levado
Um tarugo na sua bunda,
Nosso caro Don Juanzito,
“Trespassado” de entusiasmo,
Finalmente descobrira
Como ser “alguém”,
Sem ser profundo!

Tornou-se mais contudente,
Relinchou, deu coice, fez-se
Tão intenso e Presidente
Já era do sindicato!
No cargo, traiu, roubou,
Praticou todos conchavos
Que a arte da vigarice
Supõe e, sempre irado,
Aos traídos encantou.
Enrustiu, como enrustido,
Veado ele sempre fora!

porcos

Até que, em recompensa,
De um bode velho e safado,
Demagogo deputado,
Nos braços foi elevado
Ao gabinete. Assessor,
Hoje a João todos conhecem
E proclamam, com estrondo,
“Um roliço burguês redondo!”

Entre Vila Palmeira e Santa Rosa, 18/19 de setembro de 2004

Ubirajara Passos & Valdir Bergmann

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Nossas reverências ao poeta e político Ramiro Barcelos, cujo poema Antônio Chimango transmitiu o seu espírito, inconscientemente, ao nosso João Velhaco, na época em que o escrevemos.

 

Publicado em:  on 22/07/2008 at 10:41 pm Deixe um comentário

A MADAME DO BALCÃO

Há quinze dias sem escrever nada neste blog, nem em parede de banheiro masculino, depois de entornar uma garrafa de 960 ml da cerveja uruguaia “Norteña”, nada bêbado que estou para os padrões comuns (mas em porre de andar de quatro segundo a última legislação de trânsito fascista promulgada no Brasil, que penaliza até o pobre e idiota pequeno-burguês sem imaginação que tomou um copo de licor e foi dar uma voltinha de Pálio), fui possuído (no “bom sentido”) mais uma vez por um espírito repentista nordestino e, bêbado não-motorizado que sou, acabei parindo, do nada, o poema cretino que segue. Que, já vou avisando, não é nenhuma homenagem a gatinhas ou onças velhas que conheço. Qualquer coincidência é mera semelhança!

A MADAME DO BALCÃO

Foi dar o cu nas macegas
Ao som de músicas bregas
E acabou perdendo as pregas
Uma peruazinha chique,
Daquelas que tem chilique
Só de ouvir um palavrão.

Dizem que era funcionária
De repartição falida,
E, enjoada da lida,
Do diminuto salário
E das asneiras do chefe,
Caiu de boca na vida
E Resolveu se divertir
Com o primeiro “mequetrefe”
Que lhe cantou no balcão!

E, de entojada que era,
Cheia de não-me-toques
E afetada etiqueta,

Tornou-se uma “devassa”:
Muito pouco dá a buceta,
Só quer tomar no cuzão!

Gravataí, 6 de julho de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 06/07/2008 at 1:16 am Deixe um comentário

PANEGÍRICO A SANTA BUNDA

Por incrível que pareça (o que no meu caso não é tão incomum), passei o feriadão no maior tédio, com exceção do dia de finados, em que, repetindo episódio já ocorrido em uma sexta-feira santa, fui transar com a minha gata preferida.

Ontem, pretendia ir à Feira do Livro de Porto Alegre, mas recebi visita: nada mais que a dona Preguiça. E assim, só saí de casa para ir ao Carrefour, recentemente inaugurado em Gravataí, onde acabei comprando a minha primeira garrafa de absinto, o “Lautrec”, que experimentei à noite. E não é preciso dizer que me apaixonei pela “fada verde” ao primeiro gole. Mas isto é outra história.

O fato é que, há dias sem nenhuma inspiração para escrever nada, após dormir até o meio-dia, e ler o blog da minha amiga “K.” – o Incompletudes -, não sei como, baixou em mim (gaúcho dos quatro costados) um estranho santo nordestino, o caboclo repentista do cordel (vai ver é efeito retardado do absinto), e acabei por parir o poema abaixo. Divirtam-se, se for possível:

PANEGÍRICO A SANTA BUNDA

Traseiro rima com travesseiro -
E, ainda que aconchegante,
Recostar nele a cabeça
É um desperdício solene
E um desprezo completo
À sua irmã menor,
Dita cabeça de baixo!

Nádegas me lembram águas
(Não baleias entre algas!),
As nadadoras gostosas
De qualquer uma olimpíada,
Mas, lhes tirando o “assento”,
A coisa vai pras adegas
E só resta do porre o orgasmo .

Já os “glúteos” mais parecem
Coisa de glutonaria,
Rabo de gorda ou engulhos
De tarado embriagado,
Com má cachaça, perante
O lombo de uma matrona.

A verdade pura e simples
É que no luso idioma
Não há termo mais perfeito
Para as carnes que revestem
O trecho final da coluna
Vertebral da humana espécie
Do que a quente e boa bunda!

Os sinônimos são insossos,
A bunda é bem mais profunda!
Não há como pronunciá-la
Sem se encher bem a boca
Como quem degusta, sôfrego,
Um excitante bombom,
Ou chupa uma doce manga!

Bunda não tem quebra-língua,
Até gago diz direto,
E tem um som explosivo
E ao mesmo tempo envolvente,
Que é o gozo do idioma!

Bunda com funda não há
Como confundir, embora
Tanto usado seja o adágio.

Na verdade a bunda afunda
Todo humano desespero
Sob um mar de entusiasmo
E ao êxtase aprofunda,
Quando arrebitada e bela -
Seja alva como a estrela,
Ou da cor da madrugada,

Boêmia pele morena
Que, rebolando ao batuque,
Na cadência dos tambores,
Revirou com as cabeças
Da velha portuguesada
E pintou um Brasil tisnado!

Se nádega é palavra fria
Da gélida Europa,
Bunda esquenta o sangue e cria
Um mundo de sensações…
Com a bunda não há tesões
Que, extintos, não se revolvam
E tragam à vida defuntos!

Na própria Bíblia está
Muito mal contada a história.
Pode até ter sido o Cristo
Que chamou do túmulo Lázaro,
Mandando-o erguer-se e andar,

Porém, o pobre cadáver
Só ressuscitou, afoito,
Porque, além do Nazareno,
Na sua frente avistou
Com dengo se remexendo
A bunda da Madalena!

Gravataí, 4 de novembro de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 04/11/2007 at 4:13 pm Comentários (2)

DESVARIO NO PUTEIRO: O ENCONTRO DE CASTRO ALVES E GREGÓRIO DE MATOS

 

Antônio de Castro Alves, o “poeta dos escravos”, morto de turberculose aos 24 anos de idade, em 1871, foi o grande inspirador literário da minha adolescência e juventude. Seus poemas grandinloqüentes e em tom de oratória fascinaram-me e me impregnaram profundamente. Já o safado Gregório de Mattos Guerra, pândego comedor de mulatinhas e madames, e hilário satirista político, só vim a conhecer quando avançava na década dos meus trinta anos, quando muito me diverti (desbocado e boêmio que sou) com seus poemas. Ambos os poetas baianos (um do século XIX, outro do XVI) estão na lista dos meus prediletos e, de certa forma, são arquétipos dos meus contraditórios sentimentos – apaixonado romântico e ingênuo e desbocado, boêmio, metido a malandro e rebelde que sou.

O que nunca imaginei, porém, é que um dia, parodiando Castro Alves, na onda que ando curtindo de transformar clássicos da poesia nacional oitocentista em poemas de putaria, eu viesse a produzir uma peça digna do espírito de Gregório de Matos, sem a menor intenção consciente.

Assim, ai vai para diversão dos leitores entediados e horror dos inimigos da “pornografia” (que este blog está finalmente se aproximando de uma cena de sexo “explícito), a publicação da última estrofe do “Navio Negreiro” (justo o primeiro que li de Castro Alves, e que foi o responsável pelo meu fascínio) e a paródia que lhe escrevi:

O NAVIO NEGREIRO (6.ª estrofe)

E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves

Castro Alves

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O DESVARIO DO PUTEIRO

Eu vou de novo à bandalheira, à festa
P’ra cobrir tanta dama e guria!…
Com a gueixa lambuzar-me é o que me resta,
Mandar pau duro na bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! Mas que rameira é esta,
Que, se impotente, ela do “cara” tripudia?
Silêncio. Puta… Chorna, e chorna há tanta,
E o paspalhão aqui foi cair no teu encanto! …

Ao rever-te, bundão de minha terra,
Que a piça, em desvario, beija e balança,
Quero saudar este teu cu em que a enterras,
E cujas pregas há perdido desde a infância…
Tu, que na sacanagem pôs-te em guerra,
Foste puteada, porque errou a dança?
Antes tivesses o cu roto na bandalha,
Que de ti rirem por tão pouca maravalha!…

Imensidade atroz que se mete até às bagas!
Que espirra nesta hora a todo mundo,
Ao trilho que no lombo abriu das magras
Como não íres, em pé, até o fundo?
Mas é da fêmea demais venérea praga!
Levantai-vos, fodei a todo mundo!
Da égua mansa trepai a este bundão nos ares!
No lombo mexa a porra até gozares!

Gravataí, 29 de setembro de 2007

Ubirajara Passos

auto-retrato.gif

 

E, para coroar, um poema de Gregório de Matos:

 

DÉCIMAS

Estais dada a Bersabu,
Chica, e não tendes razão,
Sofrei-me Maria João,
pois eu vos sofro a Mungu:
vós dais ao rabo, e ao cu,
eu dou ao cu, e ao rabo,
vós com um Negro diabo,
eu com uma Negrinha brava,
pois fique fava por fava,
e quiabo por quiabo.

Vós heis de achar-me escorrido,
não vo-lo posso negar,
eu também o hei de achar
remolhado, e rebatido
assim é igual o partido,
e mesmíssima a razão,
porque quando o vosso cão
dorme c’oa a minha cadela,
que fique ela por ela,
diz um português rifão.

Vós dizeis-me irada e ingrata,
c’oa a mão na barguilha posta”
eu me verei bem disposta”
e eu digo-vos: “Quien se mata?”
eu vou-me à putinha grata,
e descarrego o culhão,
vós ides ao vosso cão,
e regalais o pasmado,
leve ao diabo enganado,
e andemos c’oa a procissão.

Chica, fazei-me justiça,
e não vo-la faça eu só,
eu vos deixo o vosso có,
vós deixai-me a minha piça:
e se o demo vos atiça
mamar numa e noutra teta,
pica branca e pica preta,
eu também por me fartar
quero esta pica trilhar,
numa grêta e nutra grêta.

Dizem que o ano passado
mantínheis dez fodilhões
branco um, nove canzarrões,
o branco era o dizimado,
o branco era o escornado,
por ter pouco, e brando nabo;
hoje o vosso sujo rabo
me quer a mim dizimar,
que não hei de suportar
ser dízimo do diabo.

Chica, dormi-vos por lá,
tendo de negros um cento,
que o pau branco é corticento,
e o negro jacarandá:
e deixai-me andar por cá
entre as negras do meu jeito,
mas perdendo-me o respeito,
se o vosso guardar quereis,
contra o direito obrareis,
sendo amiga do direito.

Sois puta de entranha dura,
e inda que amiga do alho
sois uma arranha-caralho
sem carinho, nem brandura
dou ao demo a puta escura,
que estando a tôdas exposta,
não faz festa ao de que gosta;
dou ao demo o quies vel qui,
e não para quem a encosta.

Quem não afaga o sendeiro,
de que gosta, e bem lhe sabe,
vá-se dormir cuma trave,
e esfregue-se num coqueiro:
seja o cono presenteiro,
faça o mínimo agasalho
ao membro, que lhe dá o alho,
e se de carinho é escassa,
ou vá se enforcar , ou faça,
do seu dedo o seu caralho.

Gregório de Matos

Gregório de Matos

 

Publicado em:  on 02/10/2007 at 9:30 pm Comentários (5)

CANÇÃO DO ANDARILHO

Me perdoe Gonçalves Dias, mas o tédio, hoje, me inspirou a paródia da sua Canção do Exílio, de 1847, a moda do que já havia feito com as “Ilusões da Piça” (paródia à “Ilusões da Vida” de Francisco Otaviano). Com o que também satisfaço a fama de “pornográfico” do blog e homenageio meu amigo xupaxota, que, por mais que goste dos cabarés de Porto Alegre, curte suas saudades dos bordéis baianos (especialmente da “Tia Cleusa”). Deliciem-se os leitores, se puderem – pois, como o original, a paródia me saiu meio sem graça. Mas a culpa é do maldito tédio, que nem a primavera amenizou, pois o inverno, que havia sumido há vários dias, resolveu, após o equinócio de 23 de setembro, provar que ainda existe, aqui no Rio Grande do Sul.

Canção do Andarilho

Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;
As chinas, que aqui puteiam,
Não puteiam como lá.

No bordel tem mais “sereias”,
Nas suas alcovas mais fodas,
Nos seus boquetes mais línguas,
Nas suas línguas mais sabores.

Em punhetear, só, à noite,
Nenhum prazer tenho cá;
Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;

Em minha terra há amores,
Que não me deixam broxar;
Nem punhetear, só, à noite;
Só prazer encontro eu lá;
Minha terra tem puteiros,
Onde tanta puta dá;

Não permita Deus que a porra,
Sem que eu “monte” espirre já;
Sem que eu sugue os clitóris
Frementes que há por lá;
Sem qu’inda aviste os puteiros,
Onde tanta puta dá.

Gravataí, 28 de setembro de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 28/09/2007 at 2:09 am Comentários (1)

Às companheiras das minhas madrugadas

Sonhei-te em gozo absoluto e sem controle,
Fui calafrios nos teus pelos dourados,
Te tive enlouquecida, em cavalgadas
Sem freio, em redemoinhos
De êxtase profundo,

Fui dez mil mãos,
Cem mil línguas de fogo,
Fui tempestade ou doce envolvimento
Em tua superfície de reentrâncias e colinas,

Fui criança de peito abandonada,
No desamparo, ao teu olhar, envolto em transe,
Fui afogueado centauro, folha carregada
No temporal de um tesão asfixiante,

Fui teu igual na gargalhada bêbada,
Brinquei, guri de uma infância edênica,
Lado a lado contigo percorrendo,
Mãos rápidas, olhares hipnóticos,
O âmago fremente, os sexos pulsantes,
Picos e grutas das nossas geografias

Fui dançarino, palhaço, orador,
Enquanto foste loba, gata em cio, onça feroz,
Fomos atores no palco dos salões
E confidentes na penumbra da luz negra.

Te tive irmã, mãe, puta, amada altiva,
Amiga de folguedos, fatal maga,
Me usando como um rato amedrontado,

Te tive filha meiga, mimada, maliciosa
E fui, em raras noites, sol em meio ao tédio
Das tuas madrugadas, como foste
O consolo erótico possível,

Desarmada ternura de empréstimo,
A realidade delirante dos prazeres
Nos obscuros casarões da sacanagem.

Em ti vivi a experiência sem esforço,
As agruras, o desejo, a acolhida
De todas cores de pele e de cabelo,
Das faces e olhos de formatos
Os mais diversos,

Fui amante
Carente e delicado, fui esperto
Ladrão de delícias, enjoado
Bêbado, machão onipotente,
Fui divertido malandro,
Sábio Vaidoso.

Vivi em ti, na boemia embriagada,
Nos corredores da penumbra,
Em camas mudas,

Mil vidas negadas no sol claro
E por ti, em cada uma que eras,
No calor dos seios fartos, das sedosas coxas ,
De imensas bundas, empinadas,
Frementes e úmidas bucetas,

Em jovens rostos,
Em malícia mergulhados ,
Em olhos de dona,
Em mãos crispadas
De serva insubmissa ,

Fui carrasco e vítima,
Carinho e desencontro.

Mas o que fui,
O que vivi nas noites breves,
No mundo alheio do fortuito encontro,
O que não alcancei no quotidiano
“Normal” da vida burocrática,
O sofrimento ou êxtase famélicos,

Eu só vivi graças a ti que estavas
Sempre a espera, no refúgio alcoolizado
Dos deserdados do amor regrado.

Gravataí, 22 de agosto de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 22/08/2007 at 2:56 am Deixe um comentário

ILUSÕES DA PIÇA

O que não faz uma tarde de tédio? Depois de dormir até o meio-dia, apanhar alguns limões-bergamota no pé e almoçar, pobre solteirão desventurado que não sabe cozinhar, uma lasanha pré-fabricada com pepino, vieram-me à cabeça os versos dramáticos e filosóficos de Francisco Otaviano, poeta romântico carioca nascido em 1825 e morto em 1884, que fizeram o maior sucesso até a geração dos nosso avós (1920, 1930, por aí): “Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem – não foi homem,/ Só passou pela vida – não viveu”.

Como se percebe, o tom é dos maiores sérios e pessimistas possíveis. Mas o poemeto me veio à cabeça justamente na forma de uma paródia cretina, impagável, e nada original (centenas de poetas de buteco, quem sabe algum obscuro escritor do século XIX ou da primeira geração do modernismo brasileiro, e, com certeza, milhares de estudantes da velha guarda devem ter escrito coisa semelhante), que, após o primeiro verso surgido espontaneamente, redigi com as “Ilusões da Vida” em punho, e aqui publico na intenção da edificação moral de nossas crianças e jovens – com as quais tanto se preocupa o ditador fascista Inácio dos nove dedos, que até reviveu, de forma (mal) disfarçada, a velha censura do regime militar, obrigando as emissoras da TV aberta (com exceção dos intervalos comerciais, é claro, que o faturamento da burguesia não é digno de censura) a passar só depois da meia-noite os programas considerados indecentes por meia dúzia de classificadores (os novos censores) auxiliares do zeloso ministro Tarso Genro, a cujos éticos olhares a portaria ministerial recomenda sejam encaminhados os programas antes de sua exibição (a velha censura prévia).

Mas, como dizia Odorico Paraguaçu (protagonista de “O Bem Amado”, de Dias Gomes), deixemos os entretantos e vamos aos finalmentes. Pois este post já está virando panfleto político e a questão da nova censura (que é tão “democrática”, que a função de tesoura não será exercida diretamente pelo executivo, cabendo a honra ao judiciário, a quem os amigos do Inácio encaminharão os “causos”, para punir as emissoras rebeldes, tudo no mais puro espírito da “Constituição-Cidadã”) merece uma crônica a parte. Vamos ao poema:

Ilusões da Piça

Quem passou sua piça em brancas vulvas
E rápido, de gozo, adormeceu;
Quem não sentiu o gosto da cachaça,
Quem brincou com a prima e não fudeu,
Foi esperto só de nome – não foi homem,
Só passou pela foda – não fudeu.

Gravataí, 30 de junho de 2007

Ubirajara Passos

DOIS POEMAS SAFADOS E FILOSOFANTES

Estive desde domingo até hoje em campanha eleitoral para a escolha da próxima direção do SINDJUS – RS em 14 de maio, percorrendo as comarcas do interior do Estado nas regiões do Alto Uruguai, Noroeste, Missões e Planalto Médio, em razão do que foi impossível publicar novos posts no blog. Hoje, entretanto, deixo para o deleite dos leitores os dois poeminhas cretinos que seguem.

De intimidades…

No momento do gozo supremo
Haveremos de encontrar,
Em meio à explosão do “Big Bang”
(Que o universo é produto de um orgasmo)
A mesma besta e gratuita alegria
De uma pilhéria casual ao pé do fogo,
A intimidade e a descontração
Daqueles que primeiro riem juntos
E na corrente entusiástica do humor
Forjam a torrente incoercível do amor!

 

Vila Palmeira, 12 de março de 2004

Ubirajara Passos

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Anima Mater

Vem a mim, deusa loira da meiguice,
Vem a mim, mãe terna, louca amante,
Vem-me ninho de aconchego e doçura,
Ciclone de prazer forte e profundo!
Vem raiz de toda vida, seio
Fértil do mundo,
Mulher-mãe-de-tudo!

 

Gravataí, 14 de novembro de 2004

Ubirajara Passos