A Multa do Law Pirâmide da 59

Law Pirâmide é um primo do Franja (Gílson Pirâmide) que caiu no conto da “Dinastia”, induzido pelo parente, e, depois de perder todos os tostões investidos e ainda ficar devendo o equivalente inverso em raiz geométrica proporcional (o fatorial de quatro elevado ao número de brasileiros componentes do mercado de trabalho formal), enlouqueceu e acabou se associando ao Dente Hugo num novo negócio espetacular: exportação de fio de cobre para o Paraguai.

O apelido foi justamente o resultado do logro e do novo ramo adotado, o que lhe rendeu uma ciumeira danada do Franja, que volta e meia é confundido com o primo, assim como ocorria com o Peruca e o Kadu, antes de se consagrar seu apelido no estágio forense (e neste blog).

Por incrível que pareça, o tal comércio exterior de metal recilado acabou por lhe render alguns cobres que lhe permitiram uma bizarra vida dupla.

Durante o dia circula na Várzea do Gravataí com aquela impecável camisa de seda branca, enfeitada com uma tradicional gravata borboleta preta de elástico (que não sabe fazer nó e muito menos tem grana para comprar uma legítima), cumprimentando educadamente todos os vizinhos, e não deixa de atender a um único “pedido” (isto é, ordem, dada aos trambolhões) da namorada gostosa, mas manhosa e autoritária que só lhe dá a cada trinta dias (isto se o Law apresentar o boletim da Ulbra sem nenhuma nota “vermelha”).

Mas basta tomar uma simples dose de absinto depois da meia-noite que, como um “Gremlin humano”, o sujeito se transforma totalmente. Veste uma camisa floreada, chapéu panamá branco fabricado em Santa Catarina, aquela indefectível calça jeans cheia de bolsos nas pernas, um par de mocassins brancos, e sai por aí, com seu sócio, dando saltos sobre os telhados como um cabrito e correndo, até amanhecer, a mais desclassificada zona do “baixo meretrício”, na qual sua predileção é pelas putas pobres que se escondem, na madrugada, intermediadas por seu chapado cafetão de bermuda e camiseta, na entrada da Igreja da parada 59, na divisa entre os municípios gaúchos de Gravataí e Cachoeirinha.

Pois foi como resultado de uma destas investidas que o doido levou uma pesada multa por excesso de velocidade e me enviou, mais pirado do que nunca, o e-mail abaixo reproduzido, que me autorizou a publicar no blog depois que lhe disse que podia interorpor, tranqüilamente, o recurso administrativo, na forma redigida, pois além de adaptado jurídica e factualmente de forma irretocável aos fatos e à natureza da demanda, era digno de figurar nos “anais” do Anarquismo heterodoxo. Segue, para o deleite dos leitores, que devem andar enjoados com o “bom comportamento” deste blogueiro, o texto:

“lustríssimo Senhor Diretor do Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN:

RECURSO Auto de Infração nº 6435987-9
Notificação nº 34536782998

Eu, Law Pirâmide da 59, brasileiro, solteiro , portador da cédula de identidade R.G. nº 69432471, do CPF nº69666171-18 e da carteira nacional de habilitação nº1716661824 domiciliado no Município de Gravataí Rio Grande do Sul, venho, por meio deste, requerer digne-se este respeitável Departamento Estadual de Trânsito de determinar a nulidade da multa em questão.

1. Trata-se de multa emitida no dia 02 de novembro de 2009,no Município de Cachoeirinha, em virtude de alegado excesso de velocidade (superior a 20% da velocidade permitida), com o veículo da marca FIAT, modelo Palio, de placa VTC6966, constatado na Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira – Flores da Cunha, altura da parada 59, às 4:35 horas desse dia.

2. Este recurso não tem por fim demonstrar a não ocorrência da infração em si considerada, mas apenas demonstrar os motivos que deram ensejo a essa, e, consequentemente, eximir-se das penalidades que dela decorrem.

3Sou assíduo freqüentador das boates e casas noturnas da região, trafegando diversas noites por semana nas vias deste bairro, sendo portanto profundo conhecedor da localização dos malditos radares que se escondem com o intuito de subtrair desavergonhadamente o tão arduamente dinheiro dos bons motoristas como eu.

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5Assim, não haveria por que exceder a velocidade exatamente no ponto onde se localiza o radar. Isto posto, segue uma breve narrativa do ocorrido na madrugada do dia 02 de novembro de 2009:

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6Alguns minutos antes da constatação da infração, estava sozinho no automóvel trafegando pela mencionada avenida , retornando alcoolizado de uma inglória tentativa de obter sexo oral gratuito com as moças que por ali exerciam suas profissões.

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8Revoltado com minha má performance social, decidi por bem esvair minha cólera através da velocidade nas vias públicas, ciente de estar arriscando minha vida e as de outrem. Ao me aproximar do ponto onde foi constatada a infração, não diminuí a velocidade de meu veículo como de costume, pois na semana anterior havia disparado contra o instrumento de aferição de velocidade e fotografia conhecido popularmente como “radar” diversos tiros, sendo bem sucedido na tentativa de destruir o objeto pertencente ao município.

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10Entretanto, com a visão parcialmente inabilitada graças a ingestão irresponsável e desmedida (porém proposital e gratificante) de álcool etílico potável, não pude ver que o instrumento já havia sido prontamente reparado, vindo a ter ciência disso somente com o “flash” da fotografia, que, ao ser disparado me causou distração, fazendo com que eu derrubasse meu uísque e perdesse de vista uma gostosa que dirigia um Vectra a qual eu estava perseguindo.

8. Esse breve relato demonstra a inexistência de culpa na prática do mencionado ato, uma vez que esse se deu pelos seguintes motivos:

A) Incompetência do município em comunicar aos motoristas que o aparelho já se encontrava em funcionamento.

B) Má-fé do da administração municipal que providenciou o reparo do instrumento em um prazo infinitamente inferior ao padrão vigente no serviço público com o intuito de prejudicar deliberadamente os motoristas alcoolizados.

Assim sendo, peço que seja declarada a nulidade da infração, a desativação dos radares fotográficos e que os pontos sejam retirados de meu prontuário.

Ainda, exijo a reposição do uísque derrubado e a identificação e telefone da motorista do Vectra Prata, placa PQP2469, cujo flash do instrumento público me fez perder de vista.

Demonstro minha total insatisfação e desaprovação ao código de trânsito vigente, que impede que bons motoristas se valham de suas habilidades de pilotagem na via pública.

Termos em que,
Peço Deferimento.

Gravataí, 5 de novembro de 2009”

Submergindo na Inciência

Após quase dois anos sem escrever uma única palavra neste livro eletrônico, embalado neste renascer de primavera (que continua insistindo em ser inverno, os termômetros registram 14º C neste momento), resolvi dar seqüência, hoje, à fábula Erótilia. Segue aí mais um pequeno capítulo:

Submergindo na Inciência

Nos dias que se seguiram, mestre e discípulo imergiram totalmente nas brumas alcoólicas, e, porre após porre, ressaca, após ressaca, Pancius foi instruindo Epicuro nas artes do desapego absoluto e do desprendimento dos hábitos de comportamento automáticos e auto-limitantes. Todas as rotinas imóveis e encarceradoras de postura, todas as etiquetas, do falar, do comer, as dissimulações hipócritas do modo de olhar e de falar, as regras da rigidez nos gestos íntimos ou públicos foram colocadas em questão e demolidas. Não pelo discurso racionalista. Nem pelas exortações panfletárias e milenaristas dos místicos revolucionários. Mas justamente pelo descontrole pessoal das situações, o deixar-se levar e o rompimento fisicamente obrigatório com os “bons modos” e a autodisciplina.

Jogado num turbilhão incontrolável de vinhos, cervejas e destilados de ervas amargas e aromáticas, o noviço pagão perdeu completamente a vontade própria, conduzido pelo cansaço físico e a confusão de estados d’alma. E o gordo mestre tratou de ensinar-lhe então o prazer ou a simples satisfação de vomitar-se todo, no auge da bebedeira. De mijar na toga, cagar em qualquer canto de floresta, rolar-se no chão e sujar-se, caminhar pelado na chuva, comer qualquer fruta achada pelo caminho, com as mãos embarradas da terra mãe, e simplesmente respirar, comer e viver segundo as pressões imediatas do corpo, da luz solar e da escuridão, dos ventos, do calor tórrido e das neblinas.

No nono dia de “loucura mansa”, quando Epicuro se encontrava absolutamente envolto nas ondas do inconsciente, e preparava-se, extenuado, para dormir uns bons três dias sem intervalo, Pancius o acordou, seis horas enjoadas de uma madrugada de outubro e o conduziu para um banho gelado no lago local, o fez vestir-se impecavelmente e pôr-se em marcha por uma trilha pedregosa e completamente cerrada de mato, enormes troncos e cipós de ambos os lados.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 16/10/2009 at 1:43 am Comentários (1)

Peruca e as Mil e uma Virgens

Entusiasmado, o professor de Direito Público Internacional do Peruca finalmente encontrou, após ler o dicionário jurídico do ilustre pupilo aqui publicado, algo sobre o que o bocaberta mais esperto de Gravataí  poderia discorrer, sem risco,  para ser aprovado no semestre, após dez anos grameando na mesma fase, e possibilitar ao iluminado mestre se ver livre da criatura. E assim, encarregou o nosso herói de elaborar e apresentar, em conjunto com uma turma de colegas tão “excepcionais” (no sentido que se aplica àqueles portadores da síndrome de down e congêneres) quanto ele, um trabalho sobre o terrorismo islâmico contemporâneo em vista das normas internacionais.

Juram acadêmicos do quilate de Camarguinho-chama-o-hugo que o Peruca elaborou tese profunda, de substanciosa e incontestável justificabilidade racional (Camarguinho não tem a menor idéia do que significa este fraseado bacharelístico todo, mas tem certeza de que se trata de coisa muito chique e importante), digna de figurar em discurso de embaixador da Gândia (paiz virtual em que se encontra exilado Gílson Pirâmide desde que perdeu os últimos tostões investido na “Dinastia”) na Assembléia Geral das Nações Unidas.

O problema, mesmo, foi,  o entusiasmo que o tomou na dissertação oral, em plena sala de aula, em que se encontrava presente o próprio reitor do campus da Universidade, convidado que fora pelo professor da cadeira (que andava necessitando montar a farsa necessária para provar sua competência como mestre, tão grande quanto a inteligência do Peruca). Para que a coisa não ficasse tão técnica e insossa, restrita à secura discursiva do Direito, resolveu adornar sua palestra com algumas informações eruditas, de poesia e rigor científico antropológico inigualávies, e foi dissertando, antes de aprofundar a parte técnica do tema, sobre as pretensas origens religiosas intrínsecas do terrorismo, dando conta dos primeiros atentados ocorridos na História, no meio da Idade Média (há cerca de mil anos), inspirados na promessa maometana de sete virgens gostosas e fogosas que se encontrariam no paraíso, esperando o mártir da guerra santa para a ele se entregar na maior putaria eterna, após sua morte a serviço de Alá.

O Peruca, neste trecho, ía “possuído” por um espírito barbosiano, dando relinchos de furor intelectual, quando sofreu a interferência de um encosto bêbado do velho poeta, matemático e astrônomo árabe-persa Omar Khayyám, e começou a conjecturar sobre as probabilidades do militante suicida ser realmente recompensando com tão doce prêmio.

E foi logo concluindo, com rigor algébrico absoluto, que, se na época havia sete virgens para cada doido muçulmano, passados mil anos, e milhares de terroristas suicidas pirados, dos simples soldados de frente de batalha ou assassinos a soldo do “velho da montanha” aos modernos homens-bomba, não era possível que, mantido o número fixo de virgens escaladas no plantão do éden maometano (que, sendo de puras vestais originárias do próprio paraíso, possuía a mesma quantidade desde a criação do universo, não podendo aumentar na proporção dos fiéis vindos do mundo dos vivos, submetida ao aumento geométrico da reprodução da espécie humana), houvesse por lá ainda virgens.

Ou esta tropa toda de terroristas suicidas era formada, em maioria, de brochas e veados, ou simplesmente as virgens de Alá eram todas, agora, experientes e espertas putas! E assim, caras como o tal de Bin Laden eram doido abestados ou simplesmente não escapavam do milenar sestro falcatrua de todo mascate turco, vendendo vestido de chita por cetim pupúreo.

Não se sabe como, mas se imagina, o Peruca foi promovido de semestre, e ainda foi agraciado com um prêmio inédito na faculdade: o “aproveitamento curricular integral automático” (qualquer coisa parecida com a antiga indulgência plenária concedida pelo Vaticano aos fiéis pré-reforma protestante que doassem vultosas quantias à Igreja). Com ele poderá permanecer mais cinco anos sem comparecer a uma única aula que seu diploma já se encontra desde já garantido. Já o professor parece que foi indicado para importante missão jurídica: nada mais que assessorar a equipe de defesa de Yeda e sua camarilha no processo escandaloso movido pelo Ministério Público Federal.

Ubirajara Passos

“Bernardinho” (o contestador galã de quatro patas) e Eu

Não se preocupem os leitores que não se trata de uma versão doméstica, pequeno-burguesa e sem graça do romance “Marley e Eu”, que ainda não li, mesmo tendo me tornado um “cidadão ‘sério”, casado e cumpridor dos seus deveres” (sem risos, por favor).

Fique claro, também, que não é nenhuma história infantil daquelas que éramos obrigados a ler nos manuais da quarta série primária, cujo caráter ingênuo e moralista já me foi sugerido para tornar este blog mais “decente” e evitar possíveis futuras retaliações caso continue a ser um espelho da “devassidão” ontológica deste arremedo de escritor (não é nenhum erro de digitação, não, me refiro exatamente à essência do ser e não ao caráter de anedótico ou digno de registro, “antológico”, portanto).

Seja como for, um dos efeitos colaterais do casamento foi a convivência com um cachorro mestiço, branco e preto, de nome “Bernardinho”, que mede atualmente seus 57 centímetros, aproximados, de comprimento, abstraído o saltitante rabo. Medida esta pra lá de aproximada, já que só é possível determinar sua posição exatamente da mesma forma que a de um elétron no acelerador de partículas, tantas são as constantes alterações na nuvem  de probalidade decorrentes de  seus saltos e correrias.

O bicho, se não fosse tão ágil, poderia ser o “Peruca” dos cachorros, pois é coisa quase totalmente impossível encontrar outro exemplar tão aloprado neste mundo. E a menor de suas façanhas foi me acompanhar, já uma meia dúzia de vezes, por mais de um quilômetro e meio, na caminhada diária que faço de casa até o serviço, pela manhã, e ficar me esperando, por meia hora, abanando o rabo em frente às portas de vidro, até desistir e voltar sozinho para casa.

flagrante inédito do elétron em ação

flagrante inédito do elétron em ação

 

Não fosse as portas, aliás, e certamente teria problemas com a segurança, já que Bernardinho seria capaz de fazer exatamente a mesma coisa que o feixe de elétrons disparado junto a dois buracos próximos, no efeito mais sensacional da física quântica, e seria visto quicando entre ambas as entradas do dectetor de metais, enlouquecendo os guardas.

Mas numa noite destas, no final do verão, entendiado com a impossibilidade de encher a cara com os amigos por infinitas madrugadas na noite de Gravataí ou Porto Alegre, resolvi ir à loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo de casa (e que fica vizinho à quadra da casa de meu octagenário pai) comprar umas latas de cerveja, para beber em casa mesmo e irritar um pouco a minha mulher, e evidentemente fui seguido pelo nada entediado cão. Que, além de não se entediar, impede qualquer espécie de monotonia a sua volta, e foi logo tratando de fazer, na loja de conveniência, umas sisudas e circunspectas senhoras avançadas na meia idade, de ar grave e xaroposo, saírem da sua inércia e exercitarem bastante suas cordas vocais, lambendo-lhes os pés.

Não é necessário mencionar que, no caminho, exerceu também o seu esporte favorito: provocar cada cachorro, de pit bull a reles e sarnento vira-lata esquelético, e deixar em histeria todo bairro pequeno-burguês do Jardim da Figueira (que fica entre a minha casa na rua Barbosa Filho e a Avenida Dorival de Oliveira, em cuja margem se situa o tal posto) com o ladrar enfurecido dos guardas de focinho e rabo da pomposa e amedrontada classe média.

O galã Bernardinho

O galã Bernardinho

Foi na volta para casa, entretanto, já no bairro São José, no lado oposto à casa do meu pai, em plena avenida, que o meu revolucionário Bernardinho resolveu unir aos seus pendores de cachorro anarquista e  baderneiro a qualidade detestável de conquistador e mulherengo, que causou-me uma inveja infinita (que mulherengo sempre fui, mas jamais tive o charme do galã canino). 

Íamos subindo a rua Ibirapuitã, na esquina da Dorival, junto a uma sólida e pequeno-burguesa casa de pedra que abriga uma loja de roupas para noivas e debutantes, quando uma poodlezinha saída do prédio se postou em plena calçada com aquele ar de poodle patricinha e safada (praticamente uma “putelzinha”) e ficou nos olhando e balançando, insinuante, o rabo.

Eu, que ando há meses um tanto afastado da putaria, em razão da coleira matrimonial, vendo a cachorrinha naquele estilo, tratei logo de alertar o meu companheiro de quatro patas, que até então não tinha o infortúnio de usar coleira (pois tive de providenciar, ultimamente, uma para evitar atropelamento ou seqüestro do maluco em suas investidas no asfalto), e lhe avisei: “ô Bernardinho, olha ali uma namoradinha pra ti”. O bicho safado não moveu, surpreendemente, um milímetro, mas a fogosa poodlezinha tratou de caminhar até ele e encostar, entusiasmada, os focinhos, o que não durou muito pois logo a cachorrada playboy, metida e arrogante da tal casa, partiu para o protesto, acoando fortemente, e correu o casal peludo para o outro lado da esquina.

fugindo do perigo

fugindo do perigo

Tratei de trazer o meu intrépido cachorro cadeleiro à ordem, chamando-o de volta ao caminho de casa, e a cachorra da poodlezinha branca, fatal e cretina, correu à sua frente, se refugiando de volta no pátio da casa de pedra. Foi aí que o meu clone de quatro patas quase perdeu o pescoço, pois foi se enfiando portão de grade abaixo, atrás da “putelzinha”, e, não mandasse às favas a sua revolucionária valentia de bravata, teria sido trucidado pela malta de meia-dúzia de pit buls e buldogues. Mas, como todo bom Don Juan “vermelho” e irreverente, diante do perigo iminente, Bernardinho esqueceu seus pendores de provocador verbal e tratou logo de disparar correndo atrás de mim.

Ubirajara Passos

Bernardinho e Totó de porre

Bernardinho e Totó de porre

 

 

 

Publicado em: on 07/04/2009 at 11:30 pm Deixe um comentário

… NEM TODO TONTO É PERUCA!

Eu ia saindo macambúzio do Foro, naquele final de expediente de sexta-feira, devido a uma discussão idiota, por telefone, com a minha gata preferida (que em breve se tornará minha mulher) quando fui cercado pela dupla Peruca e Kadu, que, com ar de moleque que cagou nas calças, entre a ansiedade e o deboche, foi me disparando:

— Ô Bira, olha o que colocaram no teu bolso! – vai, dizendo o Kadu, enquanto o Peruca sacode os cornos, concordando com o outro sem-vergonha.

Conhecedor da cretinice especializada dos dois safados (especialmente do Kadu, que dispensa comentários) fui logo abrindo aquele sorriso descrente:

— Gurizada, vamos deixar de frescura que não tô pra brincadeira. A criatura me deixou reinando!

— Ô Bira, nos tamos falando sério! Quando tu ía passando pela porta, passou um cara a mil e botou uma coisa no teu bolso. Olha aí! – arremata o Peruca.

Procuro nos mais diversos bolsos e nada! E já vou me mandando, quando o Kadu insiste:

— Cara, olha no bolso da jaqueta!

E o idiota aqui, convertido no mais novo membro da espécie burrus pateticum, apalpa o interior do bolso, estufado de papéis, dinheiro, um frasco de descongestionante nasal e outro de removedor de cera dos ouvidos (para debelar o resultado do vento minuano, que resolveu gelar o Rio Grande do Sul antes da entrada oficial do inverno), encontrando uma coisa cilíndrica e enrolada, com consistência suficiente para ser um filhote de cobra ou uma minhoca.

Fóbico que sou com este tipo de bicho, ainda que de brincadeira(como a cobra de plástico, com mola, que o Cabelinho, primo do Peruca, andava segurando, faz um ano, nos portões do foro), emputeci e intimei os dois aos gritos:

— Tira esta coisa daqui, tropa de safados filhos de uma puta!

E os dois cornos dispararam correndo, o que só confirmou o meu pânico. Cobra viva não devia ser, mas uma de borracha já seria suficiente para um ataque de fobia (reação que jamais me ocorreria se fosse um cabeluda aranha). E se fosse um punhado de minhocas, podiam começar a se mexer, no meu caminho a pé até em casa.

Não havia jeito: para confirmar e evitar um vexame na rua, maior do que já havia dado, eu teria de esvaziar o maldito bolso, o que era melhor fazer na sala da Distribuição e Contadoria, em que trabalho, longe dos olhos dos colegas dos demais cartórios, que saíam, já que os meus já deviam ter ido embora.

Mas lá chegando, dei com metade da equipe ainda se enrolando pra abandonar o serviço. Com exceção da dupla de veados (o Peruca e o Kadu, é claro), da chefe e de uma estagiária que encontrei no corredor, lá estavam todos os demais três oficiais escreventes (entre eles o Castello Branco) e a loirinha mais linda e gostosa do setor, que depois que largou o namorado (um gordo safado e metido a dominador machista) deixou de ser uma tímida puritana cuja frase preferida, a propósito de qualquer irreverência um pouco mais picante, era “que nojo”, e agora se tornou a mais animada e extrovertida gata do cartório, se bem que não a ponto de rir de uma piada cavalarmente explícita.

Pois foi justamente pra loirinha, que deu o azar de cruzar na minha frente antes de qualquer outro, que pedi:

— Fulana, tu é mulher, mas é mais valente do que eu. Tira tudo que tem no bolso da jaqueta pra mim. – E lhe dei o casaco de couro marrom, do qual ela foi tirando, pacientemente, papéis, remédios, notas e moedas, sem aparecer o troço roliço.

— Bira, só tem isso aí!

— Ô guria, não pode ser, tem mais alguma coisa. Os putos do Kadu e do Peruca me enfiaram um negócio aí e saíram correndo! Vai lá,mete a mão no fundo!

E foi então que saltou da sua mão, vinda das profundezas do bolso, uma camisinha aberta, cheia de uma substância branca (que a dupla de gozadores confessou , mais tarde, ser maisena), provocando o coro de risadas, inclusive da própria guria (vítima involuntária da palhaçada) e a minha estupefação furiosa. Pois eu supunha que a porra falsa fosse cola tenaz, o que me estragaria o casaco. Não fosse isso teria me mijado de rir na frente da própria gatinha gostosa, e não em casa, ao me lembrar do fato!

Com o que ficou provado, naquele modorrento final de dia, que, se nem tudo que há no bolso é grana, nem todo tonto (como eu) é Peruca!

Ubirajara Passos

NEM TUDO QUE HÁ NO BOLSO É GRANA…

Por mais óbvio que pareça o título deste post, ao menos para 98% dos brasileiros, que sabem muito bem o que é a tristeza infinita e sem consolo de possuir uma versão em miniatura e sem glamour dos famosos “buracos negros”da astrofísica em suas próprias calças, a coisa não era tão evidente assim para o Peruca!

Mesmo tendo sido assaltado por um traveco sado-masoquista, com o qual manteve “estreitas” relações durante meses, e, por esporte e necessidade financeira, tendo exercido todo seu ímpeto animalesco de jegue “no cio” sobre um proeminente, temperamental e respeitável “bambi” da pequena-burguesia pretensamente aristocrática de Gravataí, por diversas vezes, mediante o fornecimento de uns simples trocados, o nosso tonto predileto ainda acreditava que em bolsos masculinos só existiam notas de “dez reais” (vem com o “Tio Pedrinha” que ele te dá dezinho – já dizia o monitor pedófilo e taradão da creche que o Peruca freqüentava ainda piá), e, no máximo, aquele cigarrinho de maconha (coisa que conhece só de ver na mão do “Charuto” e outros parceiros do Dente Hugo).

Até que um dia, entorpecido de cerveja, foi abordado, em pleno posto da Avenida Centenário, pelo Camarguinho-chama-o-Hugo, completamente alcoolizado com meia dose de uísque batizado, que berrava desesperadamente e inconsolável: “Eu perdi! Puta que pariu, onde  foi parar? E agora, o que vai ser de mim sem isso? Eu prometi que ía dar pra ela, amanhã sem falta! E agora, meu Deus do céu? Ô Peruca, mete a mão aqui no meu bolso, que acho que tá furado, e ele já era!”

Nosso bocaberta e altruísta personagem, apesar da preguiça proverbial, que já o impediu até de usar o que possui entre as pernas com uma tarada prima minha (o que lhe valeu, além da tradicional e justa “galhada”, o título honorífico de irmão avantajado do pincel de paredes, a famosa broxa), bufou uns bons três minutos, entediado, e sem coragem de levantar a buzanfa da cadeira, mas a gritaria era tanta e tão histérica, que acabou acorrendo à insistência do amigo, cravando fundo a mão no seu bolso, e dando com aquela coisa mole, roliça e meio cabeluda – que ele realmente estava furado, mas dali não saíra nada. Antes entrara, não se sabe se por cálculo do dono, ou caso fortuito, uma piça “barroca” (igual a de anjo de igreja católica seiscentista) e desativada!

Dizem as mãos línguas do bairro da Várzea que foi depois do episódio, e não no Festival do chopp de Feliz, que o Camarguinho apareceu de nova maquiagem, com a falta de dois dentes e meio na linha frontal de sua boca!

Mas, desde então, o Peruca ficou mais esperto: agora, pra evitar tão inconveniente absurdo, quando vai beber, leva consigo um vistoso par de luvas cirúrgicas!

Ubirajara Passos

A BÍBLIA DO PERUCA: Adão peruca, a cobra e a banana

Deus Peruca, depois de 6 bilhões de anos, montando e esculhambando, e remontando, desastradamente, o Universo, finalmente havia terminado sua tarefa e, numa enjoativa tarde de sábado, curtindo uma ressaca “eterna”, resolveu descansar, dando aquela cochilada na rede da varanda. Mas como era Peruca, apesar de Deus, havia se esquecido de inventar a rede no jogo lego da Terra, o último pedaço fabricado do Universo. E, tomado por aquela preguiça divina, ficou por ali mesmo, pelo jardim do sítio do Itacolomi, que alguns milhares de anos depois seria o monte das revelações do Law-Moisés sem-pirâmide-com-dinastia, caminhando, va-ga-ro-sa-men-te… e babando sonolento!

E era tão lenta sua caminhada, e tão lerdos estavam seus neurônios, que o Universo inteirinho entrou em hibernação, reduzindo quase ao frio absoluto o movimento de suas moléculas, e a baba do Peruca Criador de Tudo se solidificou e surgiu um estranho boneco, com cara de bundão, que era a sua cara e semelhança. E Deus Peruca tropeçou no próprio clone e, após cem anos, viu que era o seu retrato e era “bom” e abobadão e deu-lhe o nome abreviado de “Adão”.

Mas a figura era muito sem graça. Não falava, não corria, nem (pecado supremo) abria a boca pra comer nuvens de galáxias, à semelhança de seu imenso pai supremo. E, então, o Deus Peruca, resolveu dar-lhe vida! E como tudo ainda andava, apesar da animação, muito gelado, peidou, com seu buzanfão infinito, sobre o Peruca Adão, que pôs-se em pé, lentamente, passando uns bons duzentos anos de quatro, e, logo avistou seu criador, abriu a boca num espanto infinito e começou a babar, enquanto uma ínfima comichão no cérebro lhe deu a noção de que 1+1 é 2 e daí por diante tudo é muito!!!

Tudo andava muito bem no jardim do Paraíso do Itacolomi, mas Deus Peruca percebeu que seu fiho predileto andava entediado, perdera o tesão de tentar contar os dedos dos pés e ultimamente andava tentando somar um mais cinco, num estranho movimento de socar mandioca! E Deus Peruca pensou: meu pobre filho precisa de uma companhia e de algo que o acorde deste sono quase eterno! E deu-lhe por parceira uma mula!

No princípio Adão Peruca achou tudo muito interessante, mas a mula era por demais semelhante a ele mesmo, convicta, impermeável à inteligência e teimosa! E quando resolvia enfiar o próprio rabo entre as pernas e escoicear o Adão tarado, que queria lhe plantar a mandioca, nem Deus Peruca conseguia dissuadi-la.

Adão Peruca e sua "Eva" Mula

Aí apareceu a cobra, que veio do nada, imprevista que estava no roteiro do vídeo universo Peruca, e foi logo mostrando pro Adão Peruca uma fruta enorme, colorida e chamativa denominada banana! E convenceu-o, apesar da teimosia (que era a maior semelhança com seu criador), a engolir a banana até o fundo, donde manou leite e mel! E o Adão Peruca ficou atordoado, maravilhado, endoidecido – até dançou um funk à velocidade da luz, lerdo que era – e resolveu que essa coisa de fêmea de jegue não tava com nada e que, dali por diante, só ia se divertir com a cobra e com a banana!

Foi então que Deus Peruca, que havia se esquecido, entre um cochilo e outro de proibir seu filho de não dar trela à cobra louca do deserto e não chegar perto da fruta de folha mole e quebrada, sacudido de seu sono eterno, por um relincho mais agudo de sua cria predileta, viu a pouca vergonha que se tornara a Terra, mandou a cobra curtir uma de coruja nas margens do Rio dos Gravatás junto à Anta Vaidosa, e expulsou o Adão Peruca pro deserto, mas não sem lhe deixar uma companhia de infortúnio, que era a culpada do desviadão: mandou junto a mula, amansada, e do “menage a trois” do Perucadão (que foi o novo nome que lhe deu o “Criador”), da mula e da banana, nasceu a “Dinastia” Delta-Rede, que gerou a grande raça dos bocabertas sobre a terra! Alguns milênios após, a lei de Deus Peruca seria novamente revelada aos puros descedentes, esquecidos da safadeza original, por Law Moisés, libertador dos trouxas!

Ubirajara Passos

O ALEMÃO ALE E A PRINCESINHA BURGUESA

O alemão “Ale” podia até não ser o tipo mais esquisito que freqüentava a República do alemão Valdir, no edifício Morumbi da rua Amélia Telles (bairro Petrópolis, em Porto Alegre). Havia outros melhores concorrentes ao título, como o Xupaxota, ou eu mesmo.

No quesito obesidade, ele emparelhava com o baiano, e, no concurso do mais inverterado bêbado, disputávamos os três o prêmio principal. Muita madrugada atravessei com o Ale, entornando aquele litro de vodka com fanta, que enxugávamos até cair de pata pra cima e boca escancarada.

Agora, quando se tratava do mais desastrado, com certeza, ele era o campeão imbatível. Prova é a história que um dia me confidenciou, entre mil exigências de sigilo absoluto, e que, se divulgo, o faço sem maior detalhes, como a cidade em que se deu – que era a de origem da infeliz criatura – e o nome da gata envolvida, que, se ele me disse, já esqueci há muito tempo.

O fato é que, apesar de atrapalhado, gordo e desengonçado, o pobre Ale, tímido, ingênuo e afável como uma criança de colo (apesar dos seus cem quilos só terem mesmo como repousar no colo de uma elefanta), foi logo cometer a besteira de se apaixonar pela gata mais linda da cidade, que casualmente era toda a prole da mais polpuda fortuna.

E deu azar absurdo de ser correspondido! Um belo dia de carnaval, completamente bêbado, as pernas tropeçando umas nas outras (que já andava qual um quadrúpede, faltando só zurrar), a canequinha de cerveja presa na cintura, o pobre esbarrou na amada, ainda mais torta de álcool que ele. E, após umas quantas cabeçadas mútuas, conseguiram se sentar na calçada, ombro a ombro, encostados na parede e o cenário estava pronto para um “gran finale”… até o sujeito vomitar no colo da gostosa!

Mas, como dizia o Paulo Coelho, o universo todo conspira a favor quando se trata de uma criatura humana cumprir a sua lenda pessoal. E, apesar do azar, o gordo teve novamente a sua grande chance, agora em grau qualificado. A guria era louca mesmo e convidou-o para o aniversário na mansão da família.

O Alexandre hesitou muito, procurou trezentos pretextos pra não ir, mas chapou-se de calmantes e acabou comparecendo. Por incrível que pareça, desta vez o romance ía nas nuvens do cupido! Trajado a rigor, a boca a encostar nas orelhas, o roliço personagem flutuava em pensamento, aquele tépido e voluptuoso corpo junto ao seu, a corrente do tesão mútuo embriagando-os.

Até que passou de raspão pelo casal, tropeçando no banco de jardim, o cinqüentão grisalho que liderava o bloco carnavalesco mais podre da cidade, “As Virgens Fudidas do Fritz”, composto exclusivamente (como convém a todo bloco interiorano da espécie) pelos mais enlouquecidos pinguços vestidos de mulher.E o nosso herói, querendo fazer graça, lascou pra namorada:

- Ô meu, aquele velho ali é puto? – A doce beldade enrubesceu, fez-se azul, roxa e pálida, em seqüência, e, entre estabanada e furiosa, guinchou pro apaixonado:

- Não, não é não senhor! Que história é esta?

- Que que é , meu, tu não tá vendo? Olha o jeito do veado… Aquela reboladinha ali, a mão quebrada. Se aquilo ali é macho, minha vó é irmão do Maguila!

- Olha aqui, seu Ale! Eu conheço ele muito bem, desde pequeninha! Se eu tô dizendo que não é, é porque que não é! E vamos parando por aí. Se ainda me quer, acaba logo com o assunto!

- Qualé, meu! Tá pensando que eu sou bobo! Por acaso tu tá transando com aquele bambi pra ter tanta certeza? Eu logo vi que este teu interesse por mim não tava certo! Tá me querendo pra corno de fachada, pra encobrir teu casinho com o velho?

- Olha aqui, seu doido infeliz, aquele ali é meu pai!

O resto não preciso nem contar. Mas fica aqui a advertência: o Ale não possui qualquer parentesco com o Peruca, nem sabe de sua existência, e, na época, morava a uns oitocentos quilômetros de Porto Alegre.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 25/03/2008 at 11:54 pm Deixe um comentário

XUPAXOTA E O PORRE OCEÂNICO – parte 2: bancando a babá do pinguço

O pânico de me transformar num maneta, de uma hora para a outra, foi tão grande que nem o Rivotril foi capaz de me fazer relaxar. E assim, passei a madrugada e a manhã inteiras deitado no sofá da biblioteca, sem dormir nenhum segundo.

Mas, seu eu julgava estar passando por uma das maiores tragédias da minha vida, nem imaginava o drama que viria! Terça-feira era dia de faxina na casa do meu amigo e a sua diarista (uma mulata alegre e extrovertida) havia vindo trabalhar acompanhada do marido, um motoboy tão aficcionado por um papo sacana e um trago quanto eu e o Xupaxota. E o resultado é que, ainda apavorado com a mão paralítica (que não servia nem pra bater uma punheta), e receoso de vir a ter algo pior, tive de assistir, sóbrio, os três bebendo vodka e falando safadezas pela tarde toda.

A tardinha chegou, o casal foi-se, e tudo o que eu queria era me encolher num canto, descansar e dormir. Mas o baiano já estava completamente bêbado e, como era previsível àquela altura (proporcional à profundidade de Natasha entornada – a pobre garrafa já estava quase seca), só pensava em cabaré. O que, aliás, não era nenhuma novidade. Se há assunto em comum que cimenta nosso amizade é a putaria. E, quando nos encontramos, ou passamos horas debatendo e trocando experiências a respeito, ou simplesmente praticando a sacanagem em qualquer maloca (como se apelidam as casas de tolerância no interior do Rio Grande do Sul).

E foi assim que, primeira vez na vida, eu, boêmio e bêbado de carteirinha, estava ali: uma mulatinha tarada ao meu lado, me bolinando e dando um beijo de língua daqueles, de fazer até veado ficar de pau duro, e, sobre a mesa, nos fazendo companhia uma vistosa garrafa… de guaraná!

Mas, se eu padecia a involuntária abstinência, o Xupaxota se dilacerava num seríssimo (e doce) dilema. Alvoroçado como cachorrinho novo, não sabia se dava atenção à loirinha gostosa de seios empinados e biquinhos róseos (nua em pleno salão, a safadinha) ou às garrafas de Polar (a cerveja gaúcha típica) que lhe sorriam e davam piscadelas maliciosas, enfileiradas sobre a mesa.

Por sorte o meu paradoxal infortúnio durou pouco. A Bia do 21 é um desses bordéis para vadios (favelados ou senhores burgueses) que tem tempo para farrear durante o dia e fecha às oito horas, logo após o anoitecer. Enfim eu poderia me deitar, tentar dormir e me preparar para a consulta médica, que me confirmaria a gravidade menor da “mão boba”, no dia seguinte, além de me proporcionar o tratamento urgente para a depressão e a maldita ansiedade generalizada!

Foi então que a coisa aconteceu! Meu amigo Xupaxota já havia tomado porres de todo tamanho nas nossas expedições pela putaria porto-alegrense. E já havíamos aprontado as maiores encrencas. Numa quentíssima tarde de sábado, duros de goró, uma certa feita, chegamos a abordar, em plena rua Alberto Bins, uma dupla de freiras, vestidas de pesado e preto hábito, para perguntar onde ficava o cabaré mais próximo. Mas desta vez o meu parceiro ateu parecia estar “piçuído” pelo exu Zé Pelintra.

O gordo putanheiro bêbado havia resolvido que queria ir pra Cláudia Drink Bar à procura da Giovana e ameaçava embarcar no primeiro lotação que visse pela frente (quase vai parar na Zona Norte, quando o inferninho pretendido ficava no limite entre a Cidade Baixa e o Centro). E com muito custo o convenci a pegar um táxi na esquina da Leonardo Truda com a Siqueira Campos, junto ao Country Club. O indócil bebê quarentão, turbinado na mamadeira de vodka e cerveja, podia cambalear, mas estava atento o suficiente para desconfiar da minha intenção de confiná-lo no apartamento, para evitar que lhe esvaziassem o bolso no primeiro “prostíbulo” vigarista.

E como todo gambá é teimoso por definição, fui lhe enrustindo, jurando que o levaria à Giovana, ao invés de tentar arrastá-lo à força. Até porque o gigante de mais de cem quilos requeria um guindaste para tanto. Salva a pátria dos bebuns frustrados, consegui colocá-lo dentro do táxi de um sujeito carrancudo, mal-encarado. Mas, enfim, é o que havia à mão…

Já sentados, suspirei aliviado.E aí o rotundo “Dom Quixote” bêbado, de que eu era um Sancho Pança às avessas, vira para o motorista e lasca em português perfeito (pronunciando até o erre):

— Posso mijar?

— No meu táxi não! Pode ir descendo!

— Ah não meu! Eu tô cuidando deste bêbado! Tô levando ele pra casa e daqui eu não saio! Ô Luiz, vai mijá lá na parede! — E apontei pro Xupaxota a sede do Country Club, em frente.

O baiano doido cambaleou, lépido, até o antigo prédio e, ao invés de simplesmente tirar o pau pra fora, baixou toda a bermuda e, saco e bunda branca expostos aos decadentes freqüentadores da aristocracia falida da Capital, que entravam ou saiam do clube “chique”, se balançava todo, anjo barroco. E brandia a pingola diminuta, numa alegria de piá que ganhou bola nova, gritando entusiasmado, enquanto as velhas buguesas do Country Club, passavam torcendo o nariz, de olhos esbugalhados:

— Ô genteeeeee!!! Olha aqui , minha genteeee!!! Ooooooooooooô!

Confesso que nunca vi coisa tão engraçada (nem quando o Roberto Jeferson entregou toda a camarilha do mensalão lulista no plenário do Congresso)! E, apesar de toda minha preocupação e sisudez de babá de gambá improvisado, curti boas risadas.

Só que aí o taxista corno resolveu encrencar e alertou o segurança. Não fosse eu chamar o “Dumbo” enlouquecido, que disparou pro táxi, e, mais um instante, estava feita a bosta! No caminho a criatura, que parecia ter sido abandonada pelo Zé Pelintra e agora incorporava um “Cosme” (entidade infantil da umbanda), xaropeou tanto o já enjoado motorista sorumbático, com aquela história repetitiva de “Tu não gosta de carregar bêbado no teu táxi? Olha que eu tô bêbado!”, que tivemos de descer no Parque da “Redenção”, na Avenida Osvaldo Aranha, a duas quadras de seu apartamento, na Felipe Camarão.

E no caminho a pé, na dita rua, o doido parou junto a uma banca de verduras na calçada, sentou-se na cadeira plástica, pediu um cigarro pro crioulo que cuidava da fruteira (que, pra nossa sorte era malandro velho e levou tudo na esportiva – até se descobriu meu conterrâneo, gravataiense que era, na conversa entrecortada) e encenou o grand finale do espetáculo daquela noite.

Depois de fingir que ia desmaiar, quase despencando da cadeira, e a rir estrepitosamente da nossa cara, o Xupaxota alcoolizado recebeu o encosto de um espírito obsessor tarado de um geriatra: o doutor “Fritis-putas-que-parius-demônia-linda”. A cada mocréia enrugada, empertigada e setentona do Bonfim que vinha até a fruteira, o louco disparava: “Gostosaaaaaaaaa! Eu como!”

Foi então que uma anciã mais encarquilhada que checheca de múmia egípcia, dessas peruas matronas, moralista e metida a chique, passou com seu cachorrinho poodle, de fitinha cor-de-rosa na cabeça e tudo (o cachorro, claro) e se pôs na esquina a fofoquear com a amiga, igualmente “chique”, entusiasmando o Xupaxota, que se ergueu, ágil, dedo em riste, em direção ao totó, gritando:

— Bira, eu como! Eu vou enfiar o dedo no cu do cachorro! — e, a dois passos do pobre cãozinho, estacou e caiu na mais imensa gargalhada!

Com os olhos esbugalhados, eu, contumaz bêbado, acidentado e impedido de me encharcar de álcool, não sabia se ria ou se chorava. Mas não me agüentei e fiz coro, eu e o malandro da fruteira, ao pinguço tresloucado – que então pareceu ter desincorporado o encosto e foi tranqüilo, comigo, até o apartamento.

E enquanto subíamos as escadas até o segundo andar, tive o privilégio de presenciar o mais raro fenômeno psico-alcoólico da Terra. Todo mundo já experimentou aquela sacana amnésia depois de beber todas e dormir em seguida. Mas o cara ir esquecendo, acordado, tudo o que passou há alguns minutos, isto eu nunca havia visto. Ao entrar em casa o Xupaxota simplesmente não lembrava mais nada! Fui lhe contando toda a história desde a ida ao cabaré da Bia e eu e a peste do baiano rimos juntos, até perder o fôlego, madrugada a dentro. Ah, a minha mão direita? Depois de uns dez dias, de tanto mexer os dedos, acabou voltando ao normal (sem ter de enfiá-la em cu de totózinho de madame)!

Ubirajara Passos

Publicado em: on 28/02/2008 at 2:36 am Deixe um comentário

XUPAXOTA E O PORRE OCEÂNICO – parte 1: o cagaço embriagado

Um acidente típico de bêbado profissional (que, fiquei sabendo pelos médicos, atende pelo apelido de “síndrome do sábado à noite”), durante a viagem de retorno, no ônibus do Sindjus-RS, do 1.º Encontro nacional Anti-Reformas, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em março do ano passado (domingo, 25) acabou por me levar ao apartamento do companheiro Xupaxota, no bairro Bonfim, em Porto Alegre, na noite seguinte.

Depois de emborcar todas as cervejas possíveis, enquanto participava do encontro político-sindical, ou somente discutia ao pé do trago, com os companheiros Mílton e Mauro (ambos brizolistas, irreverentes, radicais e tarados por um trago como eu), eu simplesmente adormeci segurando uma latinha de cerveja, com o braço encaixado entre a guarda do banco e o tronco. E o resultado do mal jeito foi o punho caído e os dedos médio a mínimo da mão direita sem nenhuma força ou coordenação motora.

Ao acordar, ainda segurando a lata (que gambá que se presa não deixa cair, nem desmaiando), fui tomado pelo pior pavor ao lembrar que o Xupaxota tivera sintoma semelhante, que fora diagnosticado como AVC (acidente vascular cerebral), um ano antes. E o cagaço me levou a consultar na emergência de um hospital público do interior paulista e, chegado à capital gaúcha, no dia seguinte, no Hospital São Lucas da PUC, onde uma tomografia computadorizada confirmou o diagnóstico do sonolento médico paulista (que não realizara maiores exames): paralisia provisória do nervo radial, por compressão local.

Mas a neurologista residente (que, como o seu colega paulista, me fez suportar um chá de banco de três horas até ser atendido) ainda tinha dúvidas e resolveu que, para descartar o 1% de possibilidade da coisa não ser tão simples, mas o tal do AVC, eu deveria me submeter a uma ressonância magnética (exame caríssimo, apesar do convênio do instituto de Previdência do Estado – o IPERGS), e, para tanto, deveria me internar no hospital.

Apesar de hipocondríaco, tenho maior pavor ainda de hospital que de doença. E o pânico (síndrome da qual divido com o meu amigo baiano o privilégio de ser portador) me fez abandonar, furioso, o nosocômio. Carregasse uma faca e teria adornado a jovem médica (que ficou, igualmente, furiosa com a minha recusa em me internar) com alguns talhos (“brincadeirinha”… sou meio maluco, mas sou doido manso…)

Afinal era fim de mês, eu tinha o mínimo de dinheiro na carteira, a bateria do celular descarregara na viagem, me deixando sem contato algum com o mundo. Se me acontecesse algo sério, ninguém saberia de mim. E o simples pânico de dar baixa no hospital, completamente só, me daria um piripaque mortal!

Moro sozinho e não tive coragem de ir pra casa, em Gravataí, com medo do suposto AVC. A solução foi desembarcar, onze horas de uma noite chuvosa, e sem qualquer aviso, de mala, cuia e ansiedade, na casa do Xupaxota (que não é a casa da Xuxa, nem a casa do caralho, mas já serviu a algumas fodas comuns com umas putinhas, inclusive a Giovana da Cláudia Drink Bar, que conheço, e muito bem, há mais de dez anos).

A esta altura o leitor deve estar indignado com toda esta narrativa médica xarope e me chamando de corno e veado pra baixo, além de seriamente preocupado com a minha sanidade mental: terei me transformado, de boêmio, pingunço, boca suja, romântico, apaixonado, livre e radical, numa destas tias velhas beatas e futriqueiras que adora contar causos mórbidos? Minha querida amiga K., do blog Incompletudes, deve estar arrancando as melenas (ou, quem sabe, os pentelhos?) de arrependimento por ter manifestado sua saudade, diante da minha ausência no Bira e as Safadezas nos últimos dezesseis dias (que nada tem a ver com doenças físicas, mas com a exaustão, o DDA e o distúrbio bi-polar), no último post publicado.

Calma, porém, meus caros companheiros! Toda esta lenga-lenga é só para explicar como fui parar na residência do meu “ínclito” amigo baiano. E de como, de forma inédita para mim, participei de uma das maiores tropelias, e com certeza a mais engraçada, do pirado personagem, que ele nunca contou no Xupaxota Blog.

Pois acontece que, hospedado em sua casa, fui por ele socorrido do ataque de ansiedade com um Rivotril sub-lingual, e – incapaz de trabalhar e tendo sido marcada consulta com a sua neurologista, a bela Mariana, para a quarta-feira seguinte – por lá permaneci uma semana. E… perdoem-me os leitores, mas vou fazer um suspense: amanhã conto a parte final, e mais saborosa, da história! O texto já está muito grande, já estou meio sonolento… E quem esperou mais de uma quinzena pela ressurreição deste blog pode esperar mais um dia.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 22/02/2008 at 12:08 am Deixe um comentário