DISCUSSÃO DE TRÊS MILITANTES POLÍTICOS BÊBADOS NUM BAR DA “CIDADE BAIXA, EM PORTO ALEGRE

Nestes dias em que os velhos moralistas petistas desvelaram de vez sua máscara hipócrita para defender a pouca vergonha mais reles e vulgar (daquela vulgaridade de que não vale nem a pena falar para não se cair no lugar comum dos sermões anti-corrupção em que os petistas fora do poder eram tão exímios) dos corruptos mais óbvios e poderosos, acabamos, eu o Alemão Valdir, numa manhã destas, em conversa pela internet, por parir o argumento da peça teatral que segue (que está mais para número mambembe que peça propriamente dita), mais tarde escrita por nós a quatro patas. Pra variar, o Alemão é autor de alguns versos. Dou um prêmio pra quem descobrir quais são. Qual o prêmio só revelo se alguém descobrir, também.

Como se verá, a peça não é nenhum primor de literatura e muito menos de política ou filosofia. Seu texto é até ingênuo (poderia estar na boca de qualquer funcionário público revoltado de Passo Fundo, no interior do Rio Grande, por exemplo), mas cai como uma luva no fascismo explicitamente corrupto do governo do Inácio, em que a censura (com o disfarce de ação judicial) foi reinaugurada justamente para impedir que a imprensa possa denunciar a coisa mais óbvia e encardida das últimas décadas da política brasileira, qual seja o fato de que a família Sarney (catapultada ao trono feudal maranhense, como dinastia permante, pela ditadura fascista imperialista inaugurada em 1.º de abril de 1964) é corrupta, vive da corrupção e não comete um ato político ou econômico que não esteja relacionado a sugar o próprio estado burguês. O Estadão, entretanto, não pode divulgar as falcatruas do Sarney Jr. para não manchar-lhe a honra e o direito fundamental de imagem… Mas, enfim, vamos ao texto:

Discussão de três militantes políticos bêbados num bar da “Cidade Baixa”, às duas horas da madrugada, em Porto Alegre

(encenação em um único ato)

Cenário: um obscuro bar com duas portas paralelas na fachada, prédio do estilo dos anos vinte do século passado, mesas na calçada, numa das quais se acham sentados os personagens no início do ato, postes de luz ao lado esquerdo das mesas, de luz amarelada, com canteiros de grama molhada de chuva, salpicados de tocos de cigarro à direita das mesas.

Personagens: o Portuga Libertário, o Pelotense Petista, o Alemão Batata Vermelho, um garçom vestido da forma tradicional, alguns figurantes bebericando às mesas.

Abre a cortina.

É inverno. Um vento forte (o minuano) corre o cenário, carregando folhas secas de árvores e fazendo esvoaçar guardanapos de papel e as melenas dos personagens. Os três militantes se encontram sentados na mesma mesa, bebericando. O Portuga Libertário à esquerda, o Pelotense Petista à direita e o Alemão Batata Vermelho ao fundo. O Portuga sobe na mesa e principia a falar.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (de cabelos desgrenhados, casaco preto cheio de caspa, óculos ensebados de gordura, de pé sobre a mesa, cuspindo fogo… e cachaça):

Republiqueta colonial,
semi-feudal,
neo-capitalista…

O PELOTENSE PETISTA (gordo e baixinho, cabelo preto penteado para trás com gel, terninho preto e gravata cor de rosa choque, com o nó frouxo atado pelo meio, um broche de estrela pespegado no peito, jogado na cadeira, segurando um copo de uísque Nato Nobilis cheio de gelo derretido):

Por culpa dos anarquistas,
só querem baderna.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que peida, enquanto tenta se equilibrar sobre a mesa):

… em que não serve simplesmente fuder-se o operário,
mas, sobretudo, para que o poviléu bovino
fique tranqüilo com sua bolsa-esmola,
é necessário,
pra caralho,
na republiqueta,
dar de mamar, muito mamar, mamar demais,
com toda “honra”, só mamar na teta,
a Sarney, ao irmão do irmão do primo
filho da mãe do bodegueiro,
da sobrinha
do industrial,
do feto que nem mãe ainda tinha…

O PELOTENSE PETISTA (derramando o uísque “chique” sobre a gravata, com aquele olhar esbugalhado de quem perdeu a propina no bolso furado):

Cala a boca, subversivo,
horrendo
comunista comedor de criancinhas.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se levanta após um trambolhão, tira o copo da mão do Pelotense com um safanão, dá um talagaço, e o joga contra a parede):

… republiqueta maldita! A etiqueta
dos punhos brancos se mistura com a farinha
rala do escaveirado sertanejo,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos “sem-teta”,
e algoz e torturado dão-se as mãos
nesta ciranda sádica (punheta
que o “dono” bate com a mão alheia
do servo submisso,
no seu sócio
de vigarice,de orgia e vício…)

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (de cor e ideologia… vestido dos pés à cabeça de farda militar camuflada, óculos escuros em plena noite, com um copo de underberg à mão):

Mas que negócio é este de punheta?
olha a censura!

O PELOTENSE PETISTA (furibundo, avançando sobre o Portuga, que se esconde de quatro em baixo da mesa):

Censura não há, seus desbocados pecadores!
O que há é o chicote exemplar da Lei
que só existe para que os senhores,
e os do seu tipo não desgracem tudo
e desonrem a República Mãe Nossa
com esta conversa fiada de falsos moralistas…

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que sai, de gatinhas, do outro lado da mesa e se volta para o Pelotense, abrindo a braguilha e brandindo o censurado, que logo esconde, para desapontamento do Pelotense):

Punheta sim! Que os descarados socam
pra se esporrar, com seus punhos rendados,
sobre as cabeças miseráveis do rebanho
de cuja angústia, do medo, do castigo
provém o hábito de lamber o sapato
dos entojados “proprietários” da nação!

O PELOTENSE PETISTA (que olha para o sexo do Portuga entre fascinado e furioso, e murcha quando a braguilha é fechada):

Olha, “bandido”, desregrado, “fiô da puta”,
pra ti, terrorista debochado,
censura é pouco,
tens que ser banido
do convívio austero e disciplinado
de nossa honrada e impoluta sociedade!

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (secando o copo de underberg e pedindo um chope):

Vê o que diz este safado pelotense
autoritário,
que só quer submeter-nos
pra impedir que se mexa em “seus” pertences
havidos com a expropriação
do suor alheio
(expropriação séria e honrada!)

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se aproxima da mesa e toma um gole do chope do alemão):

Ele só diz e faz tudo isto
porque existe o rebanho submisso!
Como se há de aclarar a consciência
do servo massacrado cujo braço
é o único capaz de esgoelar o algoz
explorador, sem a menor pena,
para poder realmente então viver?

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (dando um soco na mesa, não se sabe se por entusiasmo ou contrariedade com o gole roubado pelo parceiro Portuga):

Meu caro Portuga anarquista,
tu muito bem conheces,
Eu que fui “estalinista”,
hoje concordo com o Reich:
o problema tá no rabo!
Ele não disse, mas acho:

Ou se arranca o rabo ou se lhe joga ferro em brasa
pro rabo parar de arder!
Senão como se há de dar cabo
de tanto idiota curvado
babando aos pés de outros tantos
imbecis, burros, vaidosos
que passam, com a anuência
dos idiotas de baixo,
o tempo esfregando o rabo,
roubando, e “lavando” o roubo,
e exercendo o poder?

Cai a cortina.

Gravataí, 4 de agosto de 2009

Ubirajara Passos e Valdir Bergmann

Publicado em: on 05/08/2009 at 12:45 am Comentários (2)

JOÃO VELHACO

Já mencionei, há uns meses, o velha esquema da imprensa brasileira, no auge da ditadura militar fascista de 1964, de substituir matérias censuradas por meras receitas de bolo, trechos dos “Lusíadas”, de Camões, ou mesmo por, aparentemente, inocentes e ingênuas previsões de tempo.

Pois é, por falta absoluta de originalidade para abordar outros assuntos transbordantes de ardor, como os capítulos seguintes da “Bíblia do Peruca”, e não por imposição de qualquer censor externo ou interno, que resolvi acatar a sugestão do companheiro Valdir Bergmann.

E, assim, publicamos, em homenagem à maioria avassaladora de “gatos pardos” da política nacional (embora alguns bichanos se diferenciem pelo tamanho do rabo, que tende a crescer com a reposição de seus minguados salários em 143%, como é o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius), o poema que segue.

O texto foi escrito a quatro “patas” por mim e pelo alemão Valdir, há uns quatro anos, como sátira aos ilustres sindicalistas pelegos destes pampas, e serve como uma luva para advertir-nos contra falsos líderes, do quilate de Lula e de Stalin, especialmente neste momento em que setores do serviço público gaúcho, como os funcionários do Poder Judiciário, sofrem os mais descabelados ataques à sua condição salarial e funcional, destinados que estão, pela patronagem, a se transformar em meros robôs de carne e osso, sem direito a reajuste, nem dignidade pessoal em seu trabalho.

Deixamos claro, desde já, que qualquer coincidência com a trajetória de algum dirigente petista é mera semelhança. Vamos às “quadrinhas”:

João Velhaco

Dizem uns, foi em Pelotas,
Outros em Arroio Grande -
Lá pelas bandas do sul,
Nasceu há uns bons trint’anos
O bebezinho João!

Joãozinho, lindo moço,
Tão simpático e envolvente,
Rechonchudinha criança
Desde cedo revelou-se
Um primor de rebeldia!

Na festa de formatura,
Orador, do pré-primário,
Encantou toda assistência
Com um discurso veemente:
Cola tenaz (não havia
Ainda a super bonder)
Jogar aos cabelos da “tia”
Era um tremendo protesto
Contra os maus-tratos à infância!

Já jovenzinho, criado
Na escola forense da vida,
De pai Oficial de Justiça,
João, embora panfletário,
Da pompa dos gabinetes
Tanto viu-se fascinado
Que integrou-se ao Judiciário.

Mas ao pai que era o exemplo
Joãozinho não suplantou!
Fez-se apenas escrevente
E, rebelde novamente,
Resolveu ser o momento
De fazer algo medonho:
Tornou-se sindicalista
Pra balançar toda gente!

Greve, passeata, discursos -
Discursos e mais discursos -
João era um temporal!
E da sua boca saia
Não o inconformismo apenas!
Seu palavrório era belo,
Tão lógico, tão perfeito!
João, bonachão gordinho,
Homenzinho sem defeito,
Era a estrela do dia!

Mas, como isso não rendia
Nem um tostão, nem trazia
Fama maior, iracundo,
“Don Juan”, gay enrustido,
Na comarca, furibundo,
Frustrou-se e se foi ao mundo.

Como quando piá havia
Na primeira vez levado
Um tarugo na sua bunda,
Nosso caro Don Juanzito,
“Trespassado” de entusiasmo,
Finalmente descobrira
Como ser “alguém”,
Sem ser profundo!

Tornou-se mais contudente,
Relinchou, deu coice, fez-se
Tão intenso e Presidente
Já era do sindicato!
No cargo, traiu, roubou,
Praticou todos conchavos
Que a arte da vigarice
Supõe e, sempre irado,
Aos traídos encantou.
Enrustiu, como enrustido,
Veado ele sempre fora!

porcos

Até que, em recompensa,
De um bode velho e safado,
Demagogo deputado,
Nos braços foi elevado
Ao gabinete. Assessor,
Hoje a João todos conhecem
E proclamam, com estrondo,
“Um roliço burguês redondo!”

Entre Vila Palmeira e Santa Rosa, 18/19 de setembro de 2004

Ubirajara Passos & Valdir Bergmann

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Nossas reverências ao poeta e político Ramiro Barcelos, cujo poema Antônio Chimango transmitiu o seu espírito, inconscientemente, ao nosso João Velhaco, na época em que o escrevemos.

 

Publicado em: on 22/07/2008 at 10:41 pm Deixe um comentário

Aos Senhores Burgueses e seus Capachos Políticos

Peço dez mil perdões aos pobres leitores deste blog, mas os acontecimentos do cartório, nos últimos dias, e a inspiração da caminhada, agora à noitinha, do foro até em casa, acabaram por me fazer parir mais um poema, que publico a seguir. Prometo que, em breve, voltarei com algumas crônicas e narrativas mais gaiatas e interessantes.

Aos Senhores Burgueses e seus Capachos Políticos:

Quando a revolução bater à vossa porta
Não  lamentareis pela expropriação
Dos vossos caros jatinhos e mansões.

Quando a revolução interromper vossas orgias,
Regadas a vinho cujo preço
De alguns milhares de reais é o máximo requinte,
Não sofrereis com o clamor dos “peões”
Pelo fuzilamento imediato
De vossos corpos vestidos do glamour
Que o trabalho exaustivo e acachapante
Da manada humana propicia.

Quando a insurreição incendiar-nos
E a liberdade iluminar a Terra,
Quando perderdes a “celebridade”
E a adoração abestalhada e inciente
Das mentes hipnotizadas
Pela vossa oca e envolvente “mídia”,
Não vos desesperareis, tanto,
Na falta do escravo assalariado,
Com a extinção de vossa vadiagem chique.

Vós sofrereis, sim,
Por não poder
Pisotear mais as cabeças de bilhões,
Nem gozar, histéricos, babando,
Com a tortura e o aniquilamento
Quotidiano das nossas vidas simples,
Que desgraçais, tornando ocas e infelizes,
Com o sádico tacão de vosso mando!

Gravataí, 10 de julho de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em: on 10/07/2008 at 9:22 pm Deixe um comentário

Ao Pé de Ernesto Che Guevara

Mais um estranho espírito poético me incorporou, desta vez invocado por umas doses de absinto, e, ao que tudo indica, deve ser o de um adolescente deslumbrado dos anos 1970. Mas, seja do jeito que for, aí vai a última produção de um bêbado em “crise existencial”:

Ao Pé de Ernesto Che Guevara

Diante do teu ícone profano,
Santo ateu e anti-clerical,
Sinto a força transcendente da Paixão,
Sinto-te um Cristo sem Deus,
Crucificado
Nas balas torpes do colonialismo.

No teu olhar firme e sonhador
Intuo a febril fé de um São Francisco
Banhado na bíblia marxista,
E tremo, em um forte transe místico,
Tomado de uma raiva sacra
Contra o escravismo assalariado que reduz-nos
A mero gado destinado ao abate.

Diante da firmeza inabalável
Que vem do âmago profundo do teu ser,
E atravessa-te todas as camadas
Sem se perder em dissimulações,
Sinto sangrar a sede de vingança,
Sinto gritar, metálico, o brado
De uma América sofrida e estenuada
Sob os grilhões do sadismo requintado,

De um povo mestiço e teimoso
Que vive, apesar da tortura quotidiana,
E ri, desventurado e em frangalhos,
Na euforia rara e contida
Da coca em folha, da cachaça,
De um tango, de uma rumba,
Ou de um samba!

Ernesto Guevara de la Serna:
Não foi tua ação objetiva, ou o pensamento,
Que transportou-te ao altar da rebeldia.
Nem foi a banal “celebridade”
Da mídia burguesa que te fez
Uma imagem de luta generalizada.

Mesmo o mais inciente playboyzinho
Que te carrega no peito “por esporte”
Não está imune á profundidade
Que emana, indignada e sem fronteiras,
Da tua imagem muda, ressoando
A cada instante, o martírio desta América!

Gravataí, 6 de julho de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em: on 06/07/2008 at 10:53 pm Deixe um comentário

O SONHO DO PEÃO

E assim, perdido pelos campos,
Ele não sabia,
No meio da vida,
O que era a vida,
Nem o que seria.

Ainda levava
Na melena rala
A memória velha
Das brisas de outonos,

Ainda sonhava
Com mulheres-onças,
Tesudas panteras,
Gatas enroscadas
Ronronando doce.

E em sonhos
Ele se perdia
Pelas madrugadas,
Ínsone teatino, troteando no céu,
Procurando estrelas
Perdidas, sem rumo,
Brilhantes pedaços de beleza e gozo.

Ele se extraviava
Na paixão da lua,
Misteriosa fêmea
Que o hipnotizava.

Ele se entregava
A estranhas auroras
Que rubras bucetas
Da cor de corais
Não igualariam
Nos gozos dos corpos
Ao orgasmo da mente,
Ao prazer do olhar!

Ele imaginava
Um mundo sem beiras,
Um tempo parado,
Uma gente sem peias,
E diziam-lhe “os sérios”,
Os “bem-comportados”:

Tu estás louco, homem,
Nunca houve esta coisa
De animais humanos
Soltos pelo mundo
Mandando em si mesmos.

A regra é diversa
E dela é preciso
Que obedeçamos
Todos os preceitos.

Há chefes e donos,
Barões, baronetes,
Há grão-sacerdotes,
Há os camaradas
Aconselhadores,
O velho partido
Da ciência revolucionária.

Conforme as formigas,
Viva, tchê, conforme.
Sejas, coletiva,
Ferramenta informe,
Que a ti não importam
Quem sejam teus chefes.

Tu foste parido,
Ser ínfimo e pobre,
Incapaz de ti,
Para nos servir.

Ontem fomos reis,
Senhores feudais,
Escravistas novos,
Fascistas vermelhos.

Nós fomos filósofos,
Cientistas políticos,
Fomos psicológos,
Até antropológos!

E de ti entendemos
Tudo o que nos dais:
A reverência burra,
A crença sem crítica,
O desamparo ávido
De instintos filiais
E a ambição das bestas
De maior ração
E menos relhadas
No lombo fodido!

Hoje somos, próximos,
Tua própria “consciência”
Que entra todos dias
Em tua mente vadia,
Na tela de vidro
(A tal de TV)!

E o qüera sem rumo,
Um sepé de hoje em dia,
Índio e europeu,
Não sabia mais
O que responder
Às gralhas do mundo,
Nem o que escolher
Entre tantos senhores!

Tão perdido estava
Que na noite achou-se:
Depois da erva-mate
Veio-lhe a cachaça.
Sonhou como os índios,
Tornou-se um xamã.
Entrou nos delírios
De druidas e bruxos

E à mente lhe veio
Uma incerta resposta,
Tão incerto é tudo,
Mas que o satisfez:

Velho companheiro,
De eternas jornadas,
Tu és só mais um
Que sofre teu século.

Logo a terra bruta
Levará tua carne
E mais uma vez
Tu renascerás
Na pedra, na árvore,
Homem ou animal!

Breve é tua estada
No mundo consciente,
Breve é tua vida.
Como em ti, não existe
Perpetuidade nos teus elementos!

O que hoje te forma,
Até os calos do pé,
Amanhã serão
Os olhos castanhos
Da fêmea mais linda
Ou a bosta gigante
De um elefante!

Vive a “tua” vida
E não deixes que os outros
Te imponham deveres,
Limites, recalques,
Sê tu, só tu mesmo,
Que é “única” a vez que vens ao universo!

Gravataí, 20 de abril de 2007

Ubirajara Passos

OS LAMBE-CU DO LULA

Nestes dias em que o Inácio coopta todas as correntes “ideológicas” possíveis (com exceção de PSTU, PSOL e PCO) para os planos de seu governo entreguista e anti-trabalhador, segue, a guisa de “homenagem” aos nacionalistas e socialistas convertidos à adoração do fascismo petista, o poema abaixo, escrito como sátira (impublicada) a um antigo companheiro de sindicalismo:

DA RENÚNCIA AO “EU”

Sátira a um puxa-saco de político, metido a intelectual de esquerda

Pobre idiota, que vidinha linda
Leva o “sim-sim, pode, senhor, que eu faço”,
Sonhando em transformar o mundo,
E a concordar com a opinião alheia.

Quão revolucionário ele se julga,
Que baita intelectual polivalente!

Mas o que pode ele fazer se o mundo
Vive, nas trevas, tão iludido que opor-se,
Dizer viva verdade é ofender?

Desagradar pra que se o previsível
É a rejeição fanática, convicta.
Sejamos educados, torturemo-nos,
Na ânsia de bradar ante a asneira.

Finjamos que é verdade verdadeira.
Antes soframos, bons cristãos, que os outros,
Do alto da crença no inquestionável,
São incapazes de sofrer. Contraditá-los
Não os torna mais permeáveis à verdade.

Gravataí, 10/11 de outubro de 1999.

Ubirajara Passos

DESABAFO DE UM “PEÃO-PADRÃO” ANTE O DOMÍNIO

Na madrugada de sexta-feira passada pari, quase em transe (o que não faz uma música clássica da FM Cultura de Porto Alegre e uma dose de conhaque?), o poema abaixo, que me saiu em perfeito heptassílabo (sem qualquer planejamento). Como achei-o “ajeitadinho”, resolvi publicá-lo neste blog.

Desabafo de um “Peão-Padrão” ante o domínio.

Quero viver, não permitem,
Quero morrer, me proíbem.

Sou uma máquina a serviço
Da vontade dos meus donos,
Tantos são que os desconheço

(De tantas formas me oprimem,
Não sei se são acionistas
De uma multinacional,
Se “autoridade”, eleitores,
Ou simplesmente matronas,

Donas de casa oprimidas,
Que oprimem pra aliviar-se
Das maneias que lhes prendem).

Não tenho prazer nenhum.
Só o tédio e o sobressalto
Movimentam minha vida:
A ameaça, a cada instante,
De desemprego ou castigo,

Da fome que bate à porta
E se dribla na cachaça.

Me esfolam vivo, me engolem,
Me cospem e me vomitam,
Me trituram nos moinhos
Que movo com os meus braços,

Me usam pra produzir
O prazer abastardado
De um punhado de malditos,

Que c’oa vida que me roubam
Entesouram propriedades,
Poderes e arrogâncias,
E satisfazem, na orgia
Do sadismo “revoltado”,
Seu vazio de mentes mortas,
Sua falta de sentido,
Sua alma oca e sem graça!

Estas “múmias” que se odeiam,
Que condenam-me a cachaça,
Que têm horror à gandaia,
Só gozam me torturando.

Suas ocas vidas, podres
Do “recalque” do poder,
Do orgulho de esfolar
E expor aos esfolados
O chique dos seus “dourados”,

Precisam da minha alma,
Do meu corpo, do meu ser
Pra produzir o seu tédio

Regado em champanhe fino,
Pulverizado na coca,
Que, tresloucados, lhes dá,
Por algumas horas “brilho”
Para o oco de suas almas.

Necessitam que eu seja
Uma peça sem vontade,
Desgastada a cada dia,
Pra fabricar a moeda
Com que compram corpos frios,
“Panteras” belas e lúbricas,
Sem nenhuma emoção,
Que compartem amargura
E anseio de torturar.

Não querem que eu seja gente,
Mas não deixam-me virar
Alma penada sequer.

Sou seu brinquedo odiado,
Sou o gado que carrega
O fardo da sua tara
E, sem direito a nada,
Vive no limbo amargando
O trabalho e o cansaço
Pra que a “reina” dos patrões
Seja “fina” e “colunável”.

Gravataí, 18 de novembro de 2006

Ubirajara Passos

REALIDADE E SONHO

O poema abaixo não é nenhuma pérola de originalidade, mas, apesar de escrito há mais de treze anos, quando eu iniciava a minha militância mais efetiva no Sindjus (época em que publiquei-o no jornal da entidade, o Lutar é Preciso), mantém sua atualidade política. Pelo que lá vai publicado, para distração dos leitores, enquanto descanso da extensa reunião do Conselho de Representantes, hoje à tarde, na sede do Sindjus.

REALIDADE E SONHO

Longo é o caminho dos que buscam sonhos
Sem ter no bolso um único tostão
Que lhes permita um mínimo de vida,
Que lhes garanta um mínimo de pão.

Longo é o caminho dos que sofrem n’alma
A frustração constante dos anseios,
Que têm coragem de sonhar um mundo
Livre e fraterno, em que não haja freios
À plenitude de cada ser humano.

Longo, sinuoso, estreito é o caminho
Aos que a verdade, a igualdade, a luta
Pela justiça social é, mais que a busca
De um ideal, uma necessidade;
Dos que, sentindo na carne o flagelo
Da exploração, da fome, da miséria
Que lhes transforma a vida em pesadelo eterno,
Têm a coragem, não só, de questionar
Toda a brutal e histórica injustiça,
Mas de, inclusive, crer no despertar
Da consciência de seus companheiros,
De não entregar-se ao esmorecimento,
Por mais que o envolvam da reação as teias.

Longo, difícil, pedregoso, infindo
É o caminho da libertação,
Porém é o único que resta às multidões
Dos que trabalham sem colher os frutos,
Dos que semeiam sem comer o pão.

Gravataí. 25 de setembro de 1993

Ubirajara Passos

CONCLAMAÇÃO

Como estou de porre, vou me permitir publicar um dos poemas que já foi o meu breviário político, mas que, literariamente, corresponde a uma fase mais infantil da que vivo hoje e que, se houvesse chance de retornar ao passado, eu não reescreveria:

CONCLAMAÇÃO

Tu que das trevas cruéis da inconsciência,
Na escravidão mantendo-te por tua passividade,
És vítima;

Tu cuja vida em brancas nuvens passa,
Tu que só conheceste a desgraça,
A exploração e o suplício,
De cujo imenso sacrifício,
Do brutalizador trabalho,
Sem receber a justa recompensa,
Geraste as riquezas nacionais
Para fazerem-se de uns poucos gáudio e desperdício,
Nas mãos de impiedosa elite concentradas;

Tu cujo braço da nação é o sustentáculo,
Mas nem o direito de pensar te reconhecem
As classes dominantes;
Tu que em miséria física e mental
Imerso a existência passas,
Sem ter sequer consciência
Da cruel, atroz, imensa
Injustiça de que és vítima,
Do direito de livre e dignamente
Da vida percorrer os efêmeros caminhos;

Tu, irmão trabalhador sofrido,
Do explorador e de ti mesmo vítima,
Da tua inconsciência e apatia,
Que geram e aprofundam e ampliam
Os teus exploradores, a incutir-te,
A marteladas, idéias espúrias
De conformismo e deturpados,
Ideais padrões de vida;
Desperta, irmão, do teu nefasto sono,
Ouve da razão o grito a ecoar:
Teu é o destino, toma-o em tuas mãos,
Do livre pensamento e ação
Põe-te nos mares imensos a nadar.

Vence as vagas da massificação,
Da padronização do pensamento,
Dos injustificáveis, ilusórios caminhos
Que inculcam-te os teus dominadores.
Rompe os grilhões da exploração,
Mitiga as dores
Do teu brutalizado coração;
Depõe os senhores
Pretensos proprietários da nação.

Faz-te senhor da tua própria existência;
Tu és a maioria,
Tua é a força que dos homens move o mundo.
Desperto da inconsciência, teus direitos
De realizar-te plenamente como ser humano,
Ninguém, nem os mais altos suseranos
Do cruel imperialismo,
Deter-te poderá.

Gravataí, 2 de agosto de 1990

Ubirajara Passos

UM POEMA “ENGAJADO”

Na onda de pura política que venho publicando ultimamente, aí vai um texto mais ameno (ao menos é um poema, meio plágio involuntário de Vinicius, mas tudo bem). Perdoem-me os leitores de textos mais safados e alegres. Em breve serão recompensados.

A COISA… OU O HOMEM COISIFICADO?

A vida desabou,
Tudo se esculhambou
E ele estava lá…

Seus afetos mais caros,
Os sonhos mais profundos,
Os mais básicos anseios
De usufruir da vida,
Tudo decompôs-se
E ele estava lá!…

Dele se esperava somente o trabalho,
Que não lhe rendia mais do que migalhas,
Enquanto o patrão à sua custa engordava
Os seus fofos bolsos.

O “trato” desumano
Que lhe impunha o chefe,
E, mais que ele, as regras
Nefastas da atroz disciplina,
Devia suportá-lo a sorrir e jamais
Expor, descontente, suas queixas e mágoas.

Não importa que sofresse,
Amasse ou perdesse
Os encantos pequenos do seu dia a dia,
Todos soterrados pela atroz rotina.

Sua função na empresa
Era trabalhar
E ela suplantava
A morte, a desgraça,
O gozo, a alegria.

Dele se esperava e, no fim, havia
De todo se tornado,
Que fosse uma peça, sem alma ou vontade,
Só um parafuso
Na feroz engrenagem,
Mais um item roto na conta “Móveis e Utensílios”
Do gordo Balanço do capitalista.

Gravataí, 1º de abril de 1996

Ubirajara Passos