Vem!

 

Por que não vens ao meu encontro, então?
Por que não perder tarde e noite sem roteiros?
Esquecer o imediato, o necessário, o rotineiro?

Vamos quebrar esta barreira insossa do desconhecido
E misturar nossas carências e desejos
Até que vórtice sem freio da loucura

Que atende por “tesão emocionado” nos conduza
De volta ao rotineiro, ao chato, ao sem sentido
Da existência, distantes, lado a lado!

Porto Alegre, 16 de março de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em: on 18/03/2009 at 1:45 am Deixe um comentário

Lua Nova de Setembro

Depois de sofrer, rir e chorar como uma criança (bem longe dos olhos da mãe e da filha), depois de sentir pulsar dentro de si a vida, apesar do amontoado de reveses e contrariedades, só me restou, já meio bêbado, neste meio de noite, mais um pobre e pedante poema, que dedico à Isadora (nascida hoje às oito para o meio-dia, peleando pela vida):

Lua Nova de Setembro

                                                à milha filha Isadora Freitas Passos

Quando o poeta tem uma filha o que fazer?
Quando os trejeitos literários fogem todos,
Quando os meneios revolucionários,
Os berros encorpados do discurso
Se tornam inúteis, frágeis como o vento, 

Que há de fazer este poeta embriagado
Se já é inútil para a luta anárquica?
Não balbucia, mas chora como criança,
Se as luzes orgulhosas de rebelde
Questionador de tudo e todos se dissolvem
No ouvir incerto de um choro de criança? 

Que há de fazer o poeta, o da caneta,
Que resta ao vingador, o do fuzil -
Que sempre foi caneta, mas quer ser
Espada aguda de aço inquebrantável? 

Onde é possível resgatar a irreverência
Do debochado boêmio,
O inconformismo
Do cético de toda fé espontânea? 

Quando se quebra contra toda armadura
De “eruditismos libertários”,
De orgulhos
Cheios de si do improviso desbocado, 

            Quando a certeza gaiata esvai-se, inútil,
E ao poeta resta tão-somente
O próprio choro, criança desmamada
A chorar, sem sentido, nem justificativas,
Perante a emoção pura e original do pranto
Nos lábios sem conforto de quem vê
Pela primeira vez a crua luz do mundo? 

Em que instância misteriosa o plenilúnio
Dará ao bardo, de novo seu sentido,
Se uma lua “nova”, linda e intensa,
Toldou-lhe toda compreensão,
 Arremessou-lhe 

Ao doce e inescrutável absurdo
Da vida sem regras, exigências ou pendores
Gritando, forte e autônoma ao seu ouvido? 

                                                             Gravataí, 1.º de setembro de 2008 

      Ubirajara Passos

Publicado em: on 01/09/2008 at 10:20 pm Comentários (1)

Isadora

 Sempre fui, além de anarquista, um tremendo boêmio, destes chucros criados guachos, completamente desapegado de “valores ontológicos” padronizados como família, casamento compulsório, ou descendência (embora este último até fosse interessante, pela possibilidade de se viajar no tempo, através dos ramos genealógicos e encontrar sabe lá que inusitado ancestral a ilustrar algumas das asneiras nossas comportamentais a que prezamos). 

Mas o fato é que, do alto da minha rebeldia anárquica, DDA e estética, escrevo hoje tão somente para celebrar o nascimento da gatinha mais linda do mundo, a minha filha Isadora, que vem à luz por obra da minha gata preferida, com quem estou me casando. O poema, como verão, foi escrito há alguns meses, mas esta aí para celebrar essa mais recente criatura humana, cuja simples presença traz ao Universo mais um pouco de beleza e encanto:

Isadora repousando de uma estafante mamada 

Isadora    

 Isadora, luz que doura
Os cinzentos dias meus,
Tu que vens desnuda ao mundo,
Sem roupas nem preconceitos,

A que só a vida anima,
A pura vida sem rima,
Porque improvisada e livre,
Gaiata e sem preceitos,

Debochada ante as carrancas
Dos nossos bestiais senhores,
Que conselho posso eu dar-te,
Como o faria meu pai?

Que alerta boêmio e bêbado
Posso eu sussurrar-te ao ouvido
Pra evitar-te os tropeços
Nas madrugadas da vida
Que dei e não tem remédio?

 Tu que, mais que de um casal
Enlouquecido de êxtase,
“És filha de ti sozinha”,
Conforme a etimologia
Do nome que a ti demos,

Creio eu, “princesa” minha,
Antes de qualquer palavra,
De andar, orgulhosa e linda,
Antecipando, menina,

A mulher fatal e livre,
A paixão justa e serena,
A rebeldia sem medo
A tudo que nos oprime
E nos faz menos humanos,

Serás bem maior, inciente
De ti e deste mundo louco,
Na vida que se governa,
No choro sem etiquetas

E no prazer pueril,
Sem referências,
Na graça

Cheia de si, sem porquês
Necessários, na beleza
E na poesia solta
Do murmúrio de uma sanga
Na preguiça de uma tarde,
Morna, vadia e feliz! 

Gravataí, 20 de maio de 2008 

Ubirajara Passos

Publicado em: on 31/08/2008 at 12:00 pm Comentários (2)

SIMPLESMENTE TERNO

Enquanto a inspiração de cronista, ensaísta, contador de causos ou simples piadista anda mais fugida de mim que cachorro em festival de fogos de artifícios, deixo os leitores na companhia de mais um poema biruta, parido há pouco, que é um pouquinho menos enigmático que o de ontem:

Simplesmente Terno

Deixa eu te amar,
Não permitas que a aridez
Do meu enfastiado tédio deta
O gesto de carinho morno e solidário,
Suave e simples, sem tesões obrigatórios!

Deixa eu sofrer, mudo e quieto, ao lado teu,
A dor enjoada, o sem sabor do sem sentido.

Deixa eu esquecer toda paixão gritante
E adormecer, sem intensão ou compromisso,
Te afagando, grave e companheiro,
Num cafuné todo entregue ao teu consolo.

Deixa eu mandar ao diabo que carregue
Todo o fascínio justificador
Que faz de ti uma musa inalcançável,
Me intimida, tolhendo-me a ternura!

Deixa eu viver apenas o imediato
E respirar, chorar, próximo a ti,
Sem protocolos, abismos passionais,
Nem requintes de pensados erotismos.

Deixa eu ser eu, absolutamente simples,
E rir, chorar, desvairar ou bocejar insosso,
Mas sobretudo fluir
Junto à corrente
Da tua presença, que é maior em si
Do que se fosses a perfeita encarnação
Do feminino absoluto e hipnotizante!

Gravataí, 3 de junho de 2008

Ubirajara Passos

Publicado em: on 03/06/2008 at 10:16 pm Deixe um comentário

Às companheiras das minhas madrugadas

Sonhei-te em gozo absoluto e sem controle,
Fui calafrios nos teus pelos dourados,
Te tive enlouquecida, em cavalgadas
Sem freio, em redemoinhos
De êxtase profundo,

Fui dez mil mãos,
Cem mil línguas de fogo,
Fui tempestade ou doce envolvimento
Em tua superfície de reentrâncias e colinas,

Fui criança de peito abandonada,
No desamparo, ao teu olhar, envolto em transe,
Fui afogueado centauro, folha carregada
No temporal de um tesão asfixiante,

Fui teu igual na gargalhada bêbada,
Brinquei, guri de uma infância edênica,
Lado a lado contigo percorrendo,
Mãos rápidas, olhares hipnóticos,
O âmago fremente, os sexos pulsantes,
Picos e grutas das nossas geografias

Fui dançarino, palhaço, orador,
Enquanto foste loba, gata em cio, onça feroz,
Fomos atores no palco dos salões
E confidentes na penumbra da luz negra.

Te tive irmã, mãe, puta, amada altiva,
Amiga de folguedos, fatal maga,
Me usando como um rato amedrontado,

Te tive filha meiga, mimada, maliciosa
E fui, em raras noites, sol em meio ao tédio
Das tuas madrugadas, como foste
O consolo erótico possível,

Desarmada ternura de empréstimo,
A realidade delirante dos prazeres
Nos obscuros casarões da sacanagem.

Em ti vivi a experiência sem esforço,
As agruras, o desejo, a acolhida
De todas cores de pele e de cabelo,
Das faces e olhos de formatos
Os mais diversos,

Fui amante
Carente e delicado, fui esperto
Ladrão de delícias, enjoado
Bêbado, machão onipotente,
Fui divertido malandro,
Sábio Vaidoso.

Vivi em ti, na boemia embriagada,
Nos corredores da penumbra,
Em camas mudas,

Mil vidas negadas no sol claro
E por ti, em cada uma que eras,
No calor dos seios fartos, das sedosas coxas ,
De imensas bundas, empinadas,
Frementes e úmidas bucetas,

Em jovens rostos,
Em malícia mergulhados ,
Em olhos de dona,
Em mãos crispadas
De serva insubmissa ,

Fui carrasco e vítima,
Carinho e desencontro.

Mas o que fui,
O que vivi nas noites breves,
No mundo alheio do fortuito encontro,
O que não alcancei no quotidiano
“Normal” da vida burocrática,
O sofrimento ou êxtase famélicos,

Eu só vivi graças a ti que estavas
Sempre a espera, no refúgio alcoolizado
Dos deserdados do amor regrado.

Gravataí, 22 de agosto de 2007

Ubirajara Passos

Publicado em: on 22/08/2007 at 2:56 am Deixe um comentário

DOIS POEMAS SAFADOS E FILOSOFANTES

Estive desde domingo até hoje em campanha eleitoral para a escolha da próxima direção do SINDJUS – RS em 14 de maio, percorrendo as comarcas do interior do Estado nas regiões do Alto Uruguai, Noroeste, Missões e Planalto Médio, em razão do que foi impossível publicar novos posts no blog. Hoje, entretanto, deixo para o deleite dos leitores os dois poeminhas cretinos que seguem.

De intimidades…

No momento do gozo supremo
Haveremos de encontrar,
Em meio à explosão do “Big Bang”
(Que o universo é produto de um orgasmo)
A mesma besta e gratuita alegria
De uma pilhéria casual ao pé do fogo,
A intimidade e a descontração
Daqueles que primeiro riem juntos
E na corrente entusiástica do humor
Forjam a torrente incoercível do amor!

 

Vila Palmeira, 12 de março de 2004

Ubirajara Passos

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Anima Mater

Vem a mim, deusa loira da meiguice,
Vem a mim, mãe terna, louca amante,
Vem-me ninho de aconchego e doçura,
Ciclone de prazer forte e profundo!
Vem raiz de toda vida, seio
Fértil do mundo,
Mulher-mãe-de-tudo!

 

Gravataí, 14 de novembro de 2004

Ubirajara Passos

UMA REINA AMOROSA

Na volta de São Paulo, onde estive em 25 março (no Encontro Nacional em defesa da aposentadoria e dos direitos sociais, sindicais e trabalhistas) pela caravana do Sindjus-RS e da Conlutas (mais de 6.000 trabalhadores lotando o ginásio do Ibirapuera e dispostos a resistir aos ataques do fascismo lulista), tive uma paralisia do nervo radial do braço direito, que só após passar por dois hospitais e uma competentíssima neurologista (Mariana Dagnino Araujo) me convenci ser mera lesão local, decorrente de dormir pressionando o braço contra o banco do ônibus, na manguaça.

Mas a tensão gerada pelo episódio (imagina acordar com a mão direita dormente, sem força e sem condições de motricidade fina nos dedos menores que o indicador?), aliada à depressão que ando curtindo, os dias passados em torno de exames médicos e uma quase-broxada que dei com a gata preferida (resultado de ressaca e outro ataque de nervos que narro outra hora), simplesmente me afastaram completamente deste blog, cujas visitas diárias despencaram ao fundo do abismo.

Assim, para dar alguma distração àqueles leitores que ainda tenham algum interesse no que escrevo (que espero se tornar melhor à medida em que avance o tratamento anti-depressivo) e aos que andam desiludidos com suas buscas amorosas, publico o poema pessimista abaixo, que um dia há de deixar de ser realidade.

Apenas Vultos

Por quantas sombras sofri,
Por quantos olhos
Que prometiam fogos além do concebível;
Por quantas almas de fascínio imprevisível,
Por quanto gozo físico incomum
Ardi nas chamas da “paixão sem freio”?

Como sofri, apartado do amor,
Da encarnação do sublime,
Dessas mulheres arrebatadoras?

Quanto gastei em reais e madrugadas
Na busca do sagrado feminino
Pra descobrir que tudo é árida terra!

Gravataí, 29 de maio de 2005

Ubirajara Passos

CORPO INTERDITO

Em março de 2001 o meu grande amor se afastava de mim para viver por cerca de um ano com a sua paixão do momento. E as suas atitudes de recusa completa para comigo acabaram por inspirar o poeminha safado que segue.

Corpo Interdito

Psicose tamanha, minha “freira”,
Te faz, sapiente das minhas intenções,
Histérica, onça doida e refratária,
E te coloca nos lábios puritanos
O “não-me-toques”, se a tua alma é bolinada,
Sugada, rasgada em cada pensamento
Lascivo;

Se o teu corpo é lacerado, engolido,
Cuspido, “re-fudido”, ruminado,
E indecentemente “maculado”
No apalpar sem posse, nem sadismo
Do meu olhar titilante e embevecido.

Gravataí, 14 de março de 2001

Ubirajara Passos

ONTOLOGIA ERÓTICA

Retornei hoje às 3 h 15 da tarde da minha missão sindical (mobilização das comarcas do interior para pressão no plenário da Assembléia Legislativa a fim de derrubar o veto imposto por Yeda ao reajuste parcial de 6,09%) e sigo amanhã ao meio-dia para Santa Rosa – RS, de onde deverei rumar à Província de Misiones , na Argentina, com meu camarada Valdir Bergmann. Resolvidas questões que me esperavam em Gravataí e refeita a mala, somente agora pude descansar um pouco, o que me impede maior inspiração para escrever neste blog. Deixo assim os leitores na companhia do poema seguinte, durante o carnaval, que se inicia hoje à noite. Quarta-feira de cinzas (ainda de Santa Rosa) espero retomar o blog. Gracias.

Ontologia Erótica

Não te vi na noite obscura,
Imponderável onirismo do meu ser.
As sombras delirantes da figueira
Davam refúgio a todo o fantástico,
Mas não supunham a existência do teu ser!

Nem boi-tatá ou alma do outro mundo
Tão surpreendente aos olhos do ordinário
Se faz como tu em tua beleza,
Ondina eterna, prima de valquírias,
De lubricidade combativa.

Porto Alegre, 11 de agosto de 2001

Ubirajara Passos

Publicado em: on 16/02/2007 at 11:09 pm Deixe um comentário

UMA PAIXÃO MOMENTÂNEA

Na primavera de 1996, entre a luta política desenfreada contra o peleguismo petista no Sindjus-RS e o vazio emocional da morte de minha mãe (ocorrida em 20 de julho daquele ano), eu andava achava tempo para apaixonar-me, como um guri, pela primeira gatinha linda que aparecesse à minha frente. Foi assim que, num xaroposo almoço solitário no extinto restaurante Nutriserve, que ficava ao lado do prédio do sindicato, na General Câmara, diante de uma deusa morena que nunca mais vi, compus o poema seguinte, em cuja companhia deixo os leitores por algum tempo, pois saio hoje de manhã em viagem para a região de Santana do Livramento, em mobilização sindical (a convite da Diretoria Executiva), em plenas férias. De hoje a sexta-feira é possível que não haja tempo ou condições para publicar novos textos (não é todo hotel que tem serviço de internet, por exemplo). Divirtam-se com os posts antigos ainda não lidos, se possível, que no carnaval, esteja em Gravataí ou em Santa Rosa (para onde pretendo me deslocar após a viagem pelo pampa), estarei de volta a este blog.

UMA PAIXÃO MOMENTÂNEA

Tua beleza é a intemporalidade,
Um raio indescritível do eterno,
A transcender tempo, espaço, vida.

Um único momento em que sorrires,
Sem que eu de ti saiba coisa alguma,
Bastará para eternizar
A paixão única que tu inspiras.

Não me importa donde vens, aonde irás,
Quanto é comum ou fascinante a tua vida.
Nada me importa.
Se nos realizaremos,
Ou nos perderemos na vala comum.

Talvez eu não te veja nunca mais.
Mas de ti, certamente, ficará
A eterna beleza do momento,
A iluminar-me a senda dos tempos.

Porto Alegre, 24 de setembro – Gravataí, 29 de setembro de 1996

Ubirajara Passos

Publicado em: on 12/02/2007 at 1:45 am Comentários (2)